Estratégias, Silêncios e Sinais

1143 Words
A sala de reuniões estava cheia, mas o ar parecia pesado demais para um ambiente corporativo. Planilhas projetadas na tela, contratos espalhados sobre a mesa de vidro, vozes técnicas discutindo prazos, metas e desempenho. Luna tentava se concentrar, fazia anotações, intervinha quando necessário, mas havia algo fora do lugar desde que todos tinham se sentado ali. Sara estava diferente. Não era algo óbvio, nada que chamasse atenção de imediato. Era mais sutil. O jeito como ela evitava o café, como apoiava a mão discretamente no estômago, como respirava fundo em momentos aleatórios, como parecia presente e ausente ao mesmo tempo. Gael, por outro lado, estava ali em corpo inteiro — postura impecável, foco absoluto nos números, liderança firme — mas emocionalmente distante. Preocupado, talvez. Mas distante. Luna percebeu. Ela sempre percebia. Enquanto um dos diretores falava sobre a renovação de um contrato importante, Sara levou a mão à boca de forma abrupta. Tentou disfarçar, respirou fundo, assentiu para algo que nem tinha ouvido. Segundos depois, levantou-se rápido demais, a cadeira arrastando no chão com um ruído que cortou a sala. — Com licença… — disse, já se virando. Ela não chegou à porta andando. Saiu quase correndo. O silêncio que ficou foi desconfortável. Gael franziu o cenho, levantou-se um pouco da cadeira como se fosse segui-la, mas se conteve. Luna não esperou. — Dá licença — disse firme, já se levantando. Ninguém questionou. Todos sabiam. Luna encontrou Sara no banheiro, ajoelhada em frente ao vaso, o corpo curvado, os cabelos presos de qualquer jeito, o rosto pálido. Ela segurava o cabelo da amiga com uma mão e apoiava a outra na parede fria. Luna se aproximou sem dizer nada, ajoelhou ao lado dela e segurou seus cabelos com cuidado, como já tinha feito tantas vezes antes. — Respira… deixa passar… — murmurou. Quando a onda de náusea finalmente cedeu, Sara encostou a testa na parede e fechou os olhos, exausta, constrangida, emocionalmente vulnerável demais para aquele ambiente. — Isso não é normal — disse ela, a voz baixa. Luna não respondeu. Apenas a ajudou a se levantar, lavou seu rosto, passou papel toalha em suas mãos trêmulas e a guiou para fora dali. Sem voltar para a sala de reuniões, Luna levou Sara direto para a sala de Gael. Deitou-a com cuidado no sofá retrátil, ajustou as almofadas, tirou o salto dos pés da amiga e cobriu suas pernas com o blazer que ela mesma usava. — Fica aqui. Eu já volto. Quando Luna retornou à sala de reuniões, o encontro já estava sendo encerrado. Pessoas recolhiam seus materiais, conversas paralelas surgiam, o clima já era outro. Mesmo assim, Luna sentiu algo estranho no ar. Um desconforto sutil, quase invisível. Um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra. Ela cruzou rapidamente o olhar com Clara e, logo depois, com Theo. Não foi nada explícito. Nenhum gesto errado. Nenhuma proximidade indevida. Mas havia algo ali. Um peso. Um arrependimento m*l disfarçado. Uma tensão que não existia antes do fim de semana. Luna sentiu o estômago revirar, não de ciúmes, mas de intuição. Ela não comentou. Não agora. Voltou para a sala de Gael, onde encontrou Sara deitada, olhos fechados, respirando com mais calma. Gael estava de pé, próximo à janela, o celular na mão, claramente preocupado — mas contido. Havia cuidado em seus olhos, mas também algo distante, como se ele estivesse ali por obrigação e não por instinto. — Ela vai ficar bem? — perguntou ele. — Vai. Mas não agora — respondeu Luna. O silêncio se instalou novamente. Foi Luna quem quebrou. — Sem discussão. Vamos para minha casa. Eu vou cuidar dela. Disse firme, direta, sem abrir espaço para objeção. Sara abriu os olhos devagar, surpresa, mas aliviada. Gael hesitou por um segundo, passou a mão pelos cabelos, respirou fundo. — Eu tenho uma reunião interna que não posso adiar… — disse. — Mas é melhor mesmo. Havia algo estranho naquela resposta. Ele concordava rápido demais. No caminho, Luna dirigia em silêncio enquanto Sara observava a cidade pela janela. Pararam em uma farmácia. Luna desceu sozinha, voltou com uma sacola que continha remédios básicos… e dois testes de gravidez escondidos no fundo. Um digital, outro simples, em tiras. Apenas por precaução. Apenas para tirar uma dúvida que já começava a gritar dentro dela. Enquanto isso, Luna não conseguia tirar da cabeça o padrão que Sara tinha mencionado dias antes. A mudança de Gael. A distância emocional. O cuidado excessivo misturado com ausência. O segredo no olhar. E, somado a isso, aquela sensação incômoda no escritório, o silêncio pesado entre Clara e Theo. Nada estava fora do lugar de forma explícita. Mas tudo estava diferente. E Luna sabia: quando as coisas começam a mudar assim, é porque algo importante está prestes a ser revelado. Mesmo que ninguém ainda tenha coragem de dizer em voz alta. Foi já na casa de Luna, no silêncio confortável do fim de tarde, que a verdade começou a ganhar forma. Sara sentou-se no banheiro, mãos trêmulas, olhos marejados, enquanto Luna apoiava-se discretamente na pia, fingindo calma. O primeiro teste ficou positivo quase instantaneamente. O segundo confirmou. Sara levou a mão à boca, os olhos se enchendo de lágrimas, o corpo inteiro tomado por uma mistura avassaladora de medo, felicidade, incredulidade e amor. O choro veio sem aviso, baixo, contido, quase silencioso. Luna a envolveu em um abraço firme, acolhedor, sem dizer nada por longos segundos. — Por favor… — Sara murmurou, entre soluços. — Não conta pra ninguém. Ainda não. Nem pro Gael. Luna assentiu na hora. — Segredo absoluto. Eu prometo. Ela não mencionou a mudança de Gael. Não falou sobre o distanciamento, nem sobre as tensões que vinha percebendo. Não era o momento. Sara já estava emocionalmente frágil demais para carregar mais dúvidas, mais pesos, mais medos que ainda não tinham nome. O que Luna não sabia — e o que ninguém ali sabia — era que a mudança de Gael não vinha de algo r**m. Muito pelo contrário. Gael estava tenso porque planejava algo grande. Algo íntimo. Algo que precisava ser perfeito. Havia anos de resistência silenciosa sobre o papel de Sara na empresa, sobre o olhar dos outros, sobre como o relacionamento deles era visto e julgado. Mas nada disso importava mais. Ele queria envelhecer ao lado dela. Queria construir uma vida, uma família, um futuro onde Sara fosse escolhida todos os dias, sem dúvidas, sem sombras. O pedido de casamento estava sendo planejado nos mínimos detalhes. Nada podia sair do controle. Nada podia vazar. Por isso a tensão. Por isso o silêncio. Por isso a distância m*l interpretada. E enquanto Luna guardava aquele segredo com o coração apertado, e Sara dormia exausta no quarto ao lado, o destino já começava a alinhar peças que ninguém ali ainda conseguia enxergar por completo. O que parecia confuso… Na verdade, era só o começo.
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