Noite das meninas

832 Words
O apartamento de Sara estava silencioso demais para uma sexta-feira. Não um silêncio incômodo, mas aquele que só existe quando ninguém precisa provar nada. As luzes estavam baixas, a música tocava baixa demais para ser notada, e duas taças de vinho descansavam sobre a mesa como uma promessa de pausa. Luna estava sentada no sofá, descalça, pernas dobradas, abraçando a taça como se precisasse de algo sólido nas mãos. O dia ainda ecoava no corpo. Não como lembrança clara, mas como peso. — Hoje foi estranho — disse, depois de um tempo longo demais. — Não foi r**m. Mas também não foi bom. Foi… fora do controle. Sara se sentou ao lado dela, sem pressa, sem interromper. Conhecia Luna o suficiente para saber que o silêncio fazia parte do caminho até a verdade. — A conversa com ele não foi o problema — Luna continuou. — Foi o que veio depois. Ou o que já estava ali antes e eu fingia não ver. Ela contou tudo. O tom contido, as palavras medidas, o jeito como ele falava como se enxergasse mais do que ela permitia. Contou da pergunta que ficou suspensa no ar. Do momento exato em que Clara entrou na sala. — Eu não consegui controlar minha expressão — disse, a voz mais baixa. — Foi automático. Meu corpo reagiu antes de mim. E isso… isso me incomodou mais do que qualquer coisa que ele disse. Sara franziu levemente o cenho. — Porque você não gosta de perder o controle. — Porque eu odeio sentir antes de decidir — Luna corrigiu. — Sempre odiei. Ela bebeu um gole de vinho, como se aquilo pudesse organizar os pensamentos. — Eu não estava com raiva. Eu não estava magoada. Eu estava… exposta. E me afastei porque era a única coisa que eu sabia fazer naquele momento. — Você se protegeu — Sara disse. — Ou me sabotei — Luna respondeu, sem humor. O silêncio voltou, mas dessa vez era denso. Cheio. Sara respirou fundo antes de falar. — Eu também tô apreensiva — confessou. — Com o Gael. Luna virou o rosto devagar, atenta. — Não aconteceu nada concreto — Sara continuou. — Nenhuma discussão, nenhuma briga. É só… uma sensação estranha. Como se algo estivesse prestes a mudar e eu não soubesse se estou pronta. — Mudança assusta — Luna disse, com suavidade. Sara sorriu de canto. — Ou confirma coisas que a gente evita pensar. Ela girou a taça lentamente, observando o líquido. — Às vezes eu me pergunto se estou seguindo o roteiro certo ou só o mais confortável. — Conforto também cansa — Luna respondeu. Elas riram baixo, cúmplices. Não era uma noite de respostas. Era uma noite de verdade dita sem julgamento. O fim de semana passou em branco. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum assunto pendente. Nem trabalho, nem tensão. Nenhum nome que precisasse ser evitado. Luna percebeu que o silêncio não doía como imaginava. Doía diferente. Como um espaço aberto demais, onde os pensamentos ecoavam. E talvez fosse isso que ambas precisavam: um intervalo. um fôlego. uma pausa antes do que viesse depois. Porque às vezes, o silêncio não é ausência. É preparação Sara se levantou de repente, levando a mão à boca, o rosto perdendo a cor. — Eu já volto — disse rápido demais. Luna franziu a testa, acompanhando-a até a porta do banheiro. O som foi imediato. Seco. Inconfundível. Ela encostou na parede do corredor, o coração apertando. — Sara? — chamou, com cuidado. — Tá tudo bem — veio a resposta abafada. — Acho que foi o vinho. Mas Luna conhecia aquela voz. Conhecia aquela tentativa de normalizar o que não era comum. Quando Sara saiu, lavando o rosto, evitando o espelho, algo ficou suspenso entre elas. — Isso anda acontecendo? — Luna perguntou, baixa. Sara hesitou por um segundo longo demais. — Não sei… talvez seja só cansaço. Ou nervosismo. Luna observou. O jeito como ela evitava certos gestos. O modo como respirava fundo antes de sentar. E pensou que algumas suspeitas não precisam de palavras para existir. — O Gael anda estranho — Sara comentou, quase como quem confessa algo proibido. — Mais distante. Mais reservado. Sempre com o celular virado pra baixo. O estômago de Luna apertou. — Estranho como? — Como quem esconde alguma coisa. Ela não disse mais nada. Mas Luna pensou em mudanças repentinas, em silêncios novos, em planos feitos fora do alcance do olhar. Pensou em medo. Pensou em possibilidades que ninguém ousa nomear. Mais tarde, quando Luna foi embora, deixou Sara na porta, abraçadas por mais tempo que o normal. Havia coisas que ainda precisavam acontecer antes de serem compreendidas. O fim de semana seguiu em silêncio. Nenhuma mensagem. Nenhuma confirmação. Só a sensação incômoda de que algo estava sendo preparado — não como ameaça, mas como virada. E Luna soube, com a mesma certeza silenciosa que a assustava com Theo, que algumas mudanças chegam disfarçadas de medo antes de revelarem que sempre foram amor
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