O escritório parecia o mesmo.
Mesma iluminação branca demais.
Mesmo cheiro de café requentado.
Mesmo som constante de teclas, passos apressados e vozes baixas atravessando os corredores.
Ainda assim, para Luna, tudo estava deslocado. Como se o espaço tivesse mudado de eixo durante a noite e ela fosse a única a perceber.
Ela chegou mais cedo do que o habitual, não por disciplina, mas por necessidade. Chegar antes significava menos olhares, menos encontros inesperados, menos chances de precisar lidar com algo para o qual ainda não tinha resposta.
Colocou a bolsa na mesa com cuidado, ligou o computador, abriu arquivos que não precisava revisar naquele momento. Organizou a agenda, ajustou papéis que já estavam em ordem. Qualquer coisa que mantivesse as mãos ocupadas e a mente distante da lembrança do olhar de Theo sob as luzes da boate.
Não tinha dormido bem.
A música ainda ecoava no corpo, não como som, mas como memória física. O grave parecia ter ficado preso sob a pele. O toque breve no braço. A proximidade calculada. A frase dita baixo demais para ser esquecida.
Não foge de mim como se eu fosse um erro.
Luna fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e voltou à tela. Precisava se ancorar no concreto. No objetivo. No profissional.
— Bom dia.
A voz veio atrás dela. Próxima demais para ser coincidência.
Luna não se virou de imediato. Não porque não soubesse quem era, mas porque precisava de um segundo a mais para ajustar o rosto, a postura, a versão de si que o escritório conhecia.
— Bom dia — respondeu, neutra.
Theo estava ali. Camisa clara, mangas ajustadas, postura impecável. Nenhum vestígio da noite anterior. Se alguém observasse de fora, veria apenas dois colegas iniciando mais um dia de trabalho.
Mas Luna viu.
Viu o silêncio mínimo antes da próxima frase. O cuidado excessivo com a distância. O olhar que evitava — e justamente por isso denunciava tudo o que estava sendo contido.
— Chegou cedo — ele comentou.
— Sempre chego — ela respondeu, sem levantar os olhos.
— Não é verdade — ele disse, sem provocação. — Mas não vou discutir isso agora.
Ela se virou, encarando-o com firmeza ensaiada.
— Aqui é o lugar pra discutir planilhas, Theo. Não coincidências sociais.
Ele assentiu.
— Concordo.
Mas os olhos dele diziam outra coisa.
Entraram juntos na sala de reunião minutos depois. Caio já estava lá, animado demais para aquele horário, espalhando papéis sobre a mesa enquanto falava sem pausa.
— Vocês viram os números atualizados? — perguntou. — A negociação avançou mais do que eu esperava.
— Vimos — Theo respondeu. — Vamos alinhar isso agora.
Luna se sentou, postura impecável, expressão fechada. Falou quando precisava, respondeu com precisão, antecipou riscos antes mesmo de serem apontados. Profissionalmente, nada havia mudado.
Internamente, tudo.
Ela sentia o corpo reagir à presença dele antes que a mente pudesse impedir. O ajuste sutil na cadeira quando ele se aproximava demais. A tensão no maxilar ao ouvir a voz dele do outro lado da mesa.
Theo, por sua vez, parecia ainda mais contido. Falava menos, observava mais. Como se qualquer palavra além do necessário pudesse atravessar uma linha invisível que ambos fingiam não enxergar.
Sara entrou no meio da reunião, atrasada de propósito.
Ela não precisou de mais de dois segundos para perceber.
O silêncio entre Luna e Theo não era confortável.
Era calculado.
— Bom dia — disse, alongando a palavra, os olhos passando de Luna para Theo e voltando. — Interrompo alguma coisa?
— Não — Luna respondeu rápido demais.
— Sim — Theo disse no mesmo instante.
Sara sorriu.
— Interessante.
Gael apareceu logo depois, sentando-se com calma exagerada.
— O que eu perdi?
— Nada — Luna respondeu.
— Tudo — Sara murmurou, baixo, só para Gael ouvir.
A reunião seguiu. Decisões foram tomadas, prazos ajustados, estratégias alinhadas. Mas havia algo diferente no ar. Um cuidado excessivo. Um desvio constante.
Quando todos se levantaram, Luna recolheu suas coisas com rapidez, pronta para sair antes que qualquer conversa paralela surgisse.
— Luna.
A voz de Theo a alcançou antes da porta.
Ela parou.
— Preciso falar com você. Cinco minutos.
Ela hesitou. O instinto gritava para recuar. Mas algo dentro dela — talvez cansaço, talvez honestidade — venceu por um instante.
— Agora não — respondeu. — Depois.
— Depois quando?
Ela se virou, o olhar firme.
— Quando isso aqui — fez um gesto vago entre eles — voltar a ser só trabalho.
Theo assentiu devagar.
— Então talvez demore.
Aquilo a desarmou por um segundo.
— Não crie problemas onde não existem — ela disse.
— Eu não crio — ele respondeu. — Eu só não finjo que não vejo.
Luna se afastou, o coração acelerado demais para um corredor silencioso.
Sara surgiu ao lado dela segundos depois, como se tivesse calculado o tempo exato.
— Então… — começou.
— Nem abre a boca — Luna pediu.
— Tá — Sara sorriu. — Mas só pra constar: o clima tá tão espesso que dá pra cortar com faca.
Luna suspirou.
— Eu sei.
— A pergunta é: você vai continuar fingindo que nada aconteceu?
— Não aconteceu nada.
Sara inclinou a cabeça.
— Às vezes, o que não acontece é o que mais muda tudo.
Luna não respondeu.
Mas enquanto caminhava de volta à sua mesa, soube que o dia seguinte nunca é neutro.
Porque depois que algo é sentido,
ignorar não apaga — só adia.
E adiar, Luna sabia, sempre cobra juros.