A estrada parecia se estender infinitamente à frente, mas Luna não reparava na paisagem. Cada curva, cada semáforo, era apenas um detalhe irrelevante diante da tensão que crescia dentro dela. Ao lado, Theo dirigia, calmo por fora, mas Luna conhecia os sinais sutis — a mandíbula levemente tensa, os olhos que olhavam para o retrovisor mais do que para a estrada, a mão que batia no volante com contida impaciência. Eles vinham juntos, lado a lado, mas cada um carregava pensamentos tão carregados que o silêncio era quase sufocante.
Chegaram à cidade no final da tarde. O trânsito leve da cidade pequena não ajudava a aliviar o nervosismo; pelo contrário, prolongava o momento da descoberta. Quando entraram no lobby do hotel, Luna percebeu a decoração modesta: três estrelas, mas limpo, acolhedor e estrategicamente posicionado perto do centro de convenções onde o evento aconteceria à noite. Ela se permitiu suspirar, tentando mascarar o misto de cansaço e ansiedade.
— Temos um quarto reservado para vocês dois — disse a recepcionista, sorrindo profissionalmente. — É o único presidencial disponível.
Os dois se entreolharam. Um silêncio quase palpável se instalou.
— Só tem esse? — Luna perguntou, com a voz controlada, mas o frio na barriga denunciava o que não queria admitir.
— Infelizmente, sim. O evento lotou toda a cidade — respondeu a recepcionista.
Theo soltou um leve suspiro e se recostou no encosto do sofá do lobby, olhando para Luna com um sorriso que não chegou aos olhos. Um sorriso de “vamos sobreviver a isso”, mas que não diminuía a tensão que crescia entre eles. A química era quase física, carregada, e agora não havia como negar: seriam forçados a proximidade extrema.
O trajeto até o quarto foi carregado de olhares rápidos, mãos que roçavam acidentalmente ao carregar malas, respirações um pouco mais rápidas. Quando entraram no quarto presidencial, a realidade se impôs. Era espaçoso, sim, mas só havia um quarto com duas camas de casal, decorado de maneira elegante, mas com espaço limitado para manter qualquer tipo de distância real.
— Bem… — Theo começou, limpando a garganta. — Parece que teremos que nos organizar.
— Organizar… — Luna repetiu, olhando para o quarto, para a cama, para a poltrona. — Sim. Organizar.
Eles riram nervosamente, mas a tensão não diminuiu. Cada gesto, cada toque acidental ao guardar pertences, fazia o coração de Luna disparar. Cada vez que Theo se aproximava para pegar algo ou ajustar alguma mala, ela sentia o ar carregado de uma química quase insuportável.
A noite caiu rápido. O evento só aconteceria no dia seguinte, então restava a eles se adaptar ao quarto compartilhado. Tentaram se manter discretos, mantendo-se em suas partes do quarto, mas inevitavelmente os olhares se cruzavam. Havia algo não dito pairando no ar: desejo, curiosidade, medo do que poderia acontecer se não conseguissem manter o controle.
— Acho que vou tomar um banho rápido — disse Luna, tentando soar indiferente.
— Boa ideia — respondeu Theo, sem se mover, mas sua voz carregava algo que a deixou alerta. Ele não disse nada além disso, mas o simples tom era suficiente para aumentar a tensão.
No dia seguinte, acordaram cedo. O evento seria à noite, mas a preparação precisava começar imediatamente. O hotel estava silencioso, ainda que ocupado por outros participantes do evento. Eles passaram o dia inteiro juntos, revisando apresentações, ajustando materiais, discutindo estratégias. Cada passo era um equilíbrio entre profissionalismo e atração contida.
— Preciso que a transição de slides seja perfeita — disse Luna, concentrada, apontando para a tela do laptop.
— Vai ficar perfeita — respondeu Theo, aproximando-se para mostrar um ajuste, e por um instante suas mãos se tocaram ao mesmo tempo. Nenhum dos dois recuou. Nenhum dos dois se afastou. Apenas sentiram.
A tensão era palpável. E, enquanto passavam o dia, Luna não conseguia deixar de pensar na gravidez de Sara. Gael estava fora, cuidando de assuntos urgentes para que ninguém descobrisse nada, mantendo o segredo da gestação longe dos olhos do público. Luna e Theo carregavam esse segredo juntos, mas nenhum deles podia se distrair com isso — o evento exigia toda a atenção deles.
No final do dia, quando se preparavam para descansar antes da apresentação noturna, Luna finalmente se permitiu suspirar. Ela olhou para Theo, que estava reorganizando cabos e equipamentos, e percebeu o quanto ele confiava nela, e quanto ela confiava nele. Não era apenas trabalho. Havia algo mais ali, algo que ambos sabiam, mas ainda não tinham coragem de nomear.
— Bem… — Theo começou, passando a mão pelo cabelo. — Amanhã à noite vai ser intenso.
— Intenso é uma palavra… — Luna respondeu, sem saber se se referia ao evento ou ao que sentiam.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era carregado de promessa, de expectativa, de algo prestes a acontecer. Algo que poderia mudar tudo entre eles.
Enquanto a cidade escurecia do lado de fora, eles estavam ali, no quarto presidencial, lado a lado, forçados pela circunstância, unidos pela tensão e pela química, prestes a descobrir que algumas histórias não precisam de permissão para se intensificar.
No final do primeiro dia, depois de chegarem exaustos ao quarto presidencial, Luna e Theo passaram algum tempo revisando os detalhes finais da apresentação. A tensão do dia inteiro, a química acumulada, o toque constante de mãos nos papéis, e o olhar que se desviava só por segundos criaram um clima quase impossível de ignorar.
Quando Luna apontava uma correção em um slide e Theo se inclinava para mostrar outra, seus rostos ficaram tão próximos que não havia como recuar. O coração de ambos disparou. Foi um momento breve, intenso, carregado de tudo o que vinha sendo contido. Sem palavras, sem aviso, os lábios se encontraram num beijo curto, mas suficiente para que o ar mudasse entre eles. Um beijo que dizia mais do que qualquer conversa de horas poderia expressar.
Eles se separaram rapidamente, conscientes da intensidade do que acabara de acontecer, mas sem se afastar de verdade. O quarto presidencial, o primeiro dia, o cansaço e a química tinham criado algo que não podia mais ser ignorado. E naquele instante, algo dentro de ambos sabia: isso era apenas o começo.