Luna não gostava de boates.
Não pelo lugar em si, mas pela ausência de controle.
Luz baixa demais, música alta demais, pessoas perto demais. Tudo ali parecia feito para dissolver limites — e ela passara anos construindo os seus com cuidado cirúrgico, como quem ergue paredes sabendo exatamente onde não queria mais se machucar.
Ainda assim, estava ali.
— É só hoje — Sara disse, praticamente arrastando-a pela entrada. — Você precisa sair da própria cabeça nem que seja por duas horas.
Luna observou o ambiente antes de responder. O chão vibrava sob os pés, a música atravessava o corpo antes mesmo de ser compreendida.
— Isso aqui não tira ninguém da cabeça — respondeu. — Só troca o barulho interno por externo.
— Exatamente — Sara sorriu. — Às vezes ajuda.
O grave ecoava no peito, insistente, quase íntimo. Luzes coloridas cortavam o ar em movimentos irregulares, refletindo em rostos desconhecidos, corpos soltos, risos fáceis. Luna ajustou a bolsa no ombro, postura firme, como se aquilo fosse um escudo invisível.
Ela não estava ali para flertar.
Nem para esquecer.
Muito menos para procurar alguém.
Só não queria pensar.
Gael foi buscar bebidas, Sara já parecia mais à vontade, balançando levemente o corpo no ritmo da música. Luna se manteve próxima, observando tudo como quem assiste a um filme sem intenção de participar, mantendo certa distância emocional do próprio corpo.
Até sentir.
Não foi imediato. Foi instintivo.
Aquela sensação incômoda e precisa de ser observada.
Ela virou o rosto devagar — e, por um segundo, o mundo pareceu reduzir o volume.
Theo.
Ele estava alguns metros adiante, encostado perto da lateral da pista, camisa escura, mangas dobradas, expressão séria demais para um lugar como aquele. Não dançava. Não falava alto. Observava.
Como sempre.
O olhar dele encontrou o dela sem esforço, como se já estivesse ali há algum tempo. Não houve surpresa. Só reconhecimento. Como se aquele encontro tivesse sido adiado, mas nunca evitado.
O estômago de Luna se contraiu.
— Claro… — murmurou, mais para si do que para alguém.
Sara percebeu no mesmo instante. Sempre percebia.
— Não acredito… — disse, seguindo o olhar da amiga. — Isso já passou de coincidência.
— Não começa — Luna avisou, mas a voz saiu menos firme do que gostaria.
— Eu nem falei nada — Sara respondeu, sorrindo. — Ainda.
Theo não se aproximou de imediato.
E aquilo, estranhamente, foi o que mais a afetou.
Ele respeitou o espaço. Não invadiu. Não forçou encontro. Apenas permaneceu ali, presente demais para ser ignorado, distante demais para ser evitado.
A música mudou. O ritmo aumentou. A pista começou a se encher, corpos se aproximando, limites ficando menos claros.
Sara puxou Luna pela mão.
— Vem. Se a gente for fingir normalidade, vamos fingir direito.
— Sara—
— Luna, você não vai derreter. Prometo.
Ela cedeu.
O corpo de Luna se moveu devagar no início, mais por inércia do que por vontade. O som ajudava a soltar tensões que ela nem percebia estar carregando. A luz escondia expressões, desfazia certezas. Por alguns minutos, ela conseguiu apenas existir.
Até sentir de novo.
Theo estava mais perto agora. Não colado. Não invasivo. Apenas ali. Dançando pouco, observando muito. O olhar dele não era predatório, nem casual. Era atento. Respeitoso. E perigoso exatamente por isso.
Quando a pista ficou mais cheia, alguém esbarrou em Luna por trás. Ela se desequilibrou levemente — e antes que pudesse reagir, sentiu uma mão firme e quente segurando seu braço.
Theo.
— Tudo bem — ele disse, inclinando-se para que ela pudesse ouvir.
A voz dele, próxima demais do ouvido dela, atravessou mais fundo do que a música.
— Eu tô — respondeu rápido, soltando o braço.
Mas não se afastou.
Os dois ficaram ali, frente a frente, sem realmente dançar juntos, mas compartilhando o mesmo espaço. A tensão entre eles era quase visível, como um fio esticado demais para ser ignorado.
— Não imaginei você aqui — Theo disse.
— Nem eu — Luna respondeu. — Mas acho que hoje é o dia das surpresas.
— Ou das coisas adiadas demais — ele retrucou.
Ela ergueu o olhar.
— Isso não é conversa pra esse lugar.
— Talvez seja exatamente por isso que acontece aqui.
Silêncio.
A música ficou mais lenta, envolvente. Um ritmo impossível de ignorar. Luna sentiu o próprio corpo reagir antes da mente permitir. Theo percebeu. Sempre percebia.
Ele não tocou nela de novo. Não se aproximou além do permitido. Mas o olhar… o olhar dizia tudo o que ele não falava.
— Você tá diferente — ele disse.
— Não estou — ela respondeu.
— Está sim. Mais… aberta.
Ela riu, breve.
— Você não me conhece o suficiente pra dizer isso.
— Conheço o bastante pra saber quando alguém está lutando menos.
Aquilo a atingiu.
— Não confunda ambiente com intenção — Luna disse. — Isso aqui não muda quem eu sou.
— Eu sei — Theo respondeu. — Mas revela.
Ela respirou fundo. Precisava se afastar. Precisava recuperar o eixo. Precisava lembrar quem era antes daquele olhar.
— Luna — ele chamou, quando ela deu meio passo para trás.
Ela parou.
— Eu não estou te pressionando — ele disse, sério. — Nem esperando nada. Só… não foge de mim como se eu fosse um erro.
Os olhos dela se encontraram com os dele por um instante longo demais para ser seguro.
— Eu não sei fazer diferente — ela admitiu.
Theo assentiu devagar.
— Eu sei.
E, pela primeira vez, não houve confronto.
Nem defesa.
Nem aviso.
Só duas pessoas paradas no meio do caos, reconhecendo que algo ali já tinha ultrapassado qualquer limite profissional — mesmo sem ter sido nomeado.
Sara observava de longe, bebida esquecida na mão.
— Olha isso… — murmurou para Gael.
— É — ele respondeu. — Não tem volta agora.
— Não — Sara concordou. — Só tem escolha.
Na pista, Luna finalmente se afastou. Não por medo. Por consciência.
Mas enquanto caminhava para longe, uma certeza a acompanhava como o grave da música ainda vibrando no corpo:
Ela podia manter distância.
Podia fingir controle.
Podia evitar.
Mas já não podia mais fingir que não sentia.