Onde tudo começou a doer

521 Words
Luna odiava quando alguém confundia controle com força. Sentada sozinha no apartamento, tirou os sapatos e caminhou descalça até a janela. A cidade lá embaixo seguia viva, barulhenta, indiferente. Era sempre assim: o mundo nunca parava para que alguém organizasse os próprios sentimentos. Ela apoiou a testa no vidro frio. Theo. O nome atravessou sua mente como algo m*l resolvido. Não era raiva pura. Raiva é direta, previsível. O que Luna sentia era outra coisa — um incômodo antigo, profundo, que não tinha começado naquele dia. Tinha começado anos antes. Na época, Luna acreditava que dividir a vida era um sinal de maturidade. Ela tinha planos claros, metas definidas, e acreditava que o amor cabia ali, desde que não atrapalhasse. Foi assim que deixou alguém entrar. Não com promessas exageradas, mas com espaço. Espaço demais. No início, ele parecia admirar sua independência. Dizia gostar de como ela não precisava de ninguém. Luna confundiu isso com respeito. Só depois entendeu que era comodidade. Sempre que algo dava errado, ele se calava. Sempre que ela precisava, ele adiava. E sempre que Luna questionava, vinha a frase que se tornou um gatilho: “Você consegue sozinha.” Ela conseguia. Sempre conseguiu. Mas isso não significava que queria. Quando o relacionamento acabou — silencioso, sem grandes discussões — Luna percebeu que carregara dois pesos: o dela e o dele. Ele partiu sem olhar para trás, levando consigo a versão dela que acreditava que ser forte bastava. Foi ali que Luna endureceu. Aprendeu a não pedir. A não explicar demais. A não dar espaço para que alguém achasse que podia “ajustá-la”. Construiu uma vida funcional, organizada, sólida. Tudo no lugar certo. Tudo sob controle. Até Theo aparecer. Não porque ele tivesse sido invasivo. Pelo contrário. O problema era que ele não pediu permissão para enxergar. Naquela sala, horas antes, quando ele a havia questionado, Luna sentiu o mesmo frio no estômago de anos atrás. Não pelas palavras, mas pelo tom. Pela certeza implícita de quem não estava ali para se impressionar. Ele não a tratou como frágil. Mas também não a tratou como inalcançável. E isso a desarmou. Luna se sentou no sofá, fechou os olhos por alguns segundos. Reconheceu quando algo tocava uma ferida antiga: o corpo avisa primeiro. Peito apertado. Mandíbula tensa. A necessidade quase física de retomar o controle. Não era Theo em si. Era o que ele representava. A possibilidade de alguém que não se intimidava com sua força. Que não se escondia atrás dela. Que não aceitava ficar à margem. E isso era perigoso. Porque Luna sabia exatamente o que acontecia quando alguém entrava fundo demais: ela começava a sentir. E sentir sempre a colocava em risco. Respirou fundo, abriu os olhos, decidiu algo ali, sozinha, no silêncio do apartamento: Theo não era um problema. A reação dela a ele, sim. Enquanto não entendesse isso, qualquer aproximação seria um campo minado. Luna pegou o celular e ignorou a notificação não lida. Não era hora de conversas. Era hora de manter distância. Ela só não sabia ainda que algumas coisas, quando evitadas demais, encontram outros caminhos para se aproximar.
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