Theo permaneceu parado alguns segundos depois que Luna saiu da sala.
Ela tinha a habilidade de ocupar o espaço sem perceber, de preencher o ar com presença mesmo quando se afastava fisicamente.
Ele já havia trabalhado com mulheres brilhantes, fortes, inacessíveis. Mas nenhuma havia olhado para ele daquela forma. Como se enxergasse algo que nem ele sabia existir — e ao mesmo tempo o reconhecesse como risco.
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. Observou o corredor vazio, cada detalhe: a maneira como ela ajustava a postura, o toque rápido nos papéis, o leve aperto nos lábios.
— Forte demais… — murmurou para si mesmo. — Forte demais para não ser quebrada.
Theo sabia que não era raiva. Nem desejo. Era algo mais… complexo, perigoso. Curiosidade. Um tipo de curiosidade que só surge quando alguém desafia cada linha que você tenta traçar em silêncio.
Ele pensou em quantas mulheres ele já conheceu, quantas resistências já enfrentou. Todas tinham regras, barreiras, sinais claros de que não se podia avançar. Luna… não tinha sinais claros. Ela tinha um muro inteiro de concreto, mas com fissuras que apenas ele parecia notar.
— E cada fissura… é um convite ao desastre. — Ele sorriu de leve.
Theo sabia que avançar errado poderia estragar tudo. Mas não avançar era simplesmente impossível. Ela não deixaria ele se aproximar, e mesmo assim ele sentia que, por trás de cada gesto de firmeza, havia algo que pedia para ser visto.
No apartamento dela, Luna se jogou no sofá, exausta e inquieta. O coração batia mais rápido do que deveria. Ela se forçou a pensar no projeto, nos fornecedores, nos riscos — mas tudo que surgia na mente era o olhar dele, calmo, medindo, invadindo cada espaço que ela tentava proteger.
Ela se levantou, caminhou até a janela e encarou a cidade. O mundo continuava indiferente lá fora, mas dentro dela tudo estava em ebulição.
— Por que ele mexe tanto comigo? — murmurou baixinho. — Não é raiva. Não é… nada que eu consigo nomear.
Luna sentiu uma necessidade quase física de retomar o controle. Mas, por mais que se esforçasse, cada pensamento sobre Theo a desestabilizava. Não era ele. Era a reação dela a ele. E isso era perigoso demais.
Ela se jogou novamente no sofá, fechou os olhos e deixou a respiração desacelerar. Cada lembrança antiga de relacionamentos passados vinha à tona, cada medo que ela havia enterrado ressurgia com força. Ele tinha essa habilidade de expor o que ela tentava esconder — sem esforço, sem pressa, apenas estando ali.
Enquanto isso, Theo voltou à sala de reuniões, revendo mentalmente cada detalhe do encontro. Cada palavra dita, cada silêncio, cada gesto. Ele sabia que o projeto era só a desculpa; o verdadeiro desafio era Luna. E não, ele não era de recuar.
— Tudo está em movimento agora… — disse para si mesmo. — Mas cada passo precisa ser calculado.
Ele sabia que paciência seria necessária, mas cada instante com ela parecia distorcer o tempo. Um olhar prolongado, um gesto m*l interpretado, e ele se pegava pensando mais nela do que no próprio trabalho.
Theo respirou fundo.
— E se ela sentir o mesmo que eu? — pensou. — Isso pode ser… explosivo.
Mas ele não tinha pressa. Avançaria com cautela, observando cada reação, cada defesa quebrada. E sabia que ela faria o mesmo. O jogo tinha começado, silencioso, mas com uma intensidade que nenhum dos dois podia negar.
Luna, por outro lado, ignorava mensagens não lidas e notificações que apareciam na tela do celular. Mantinha distância, mas algo dentro dela sussurrava que não conseguiria por muito tempo. Ele estava lá, mesmo à distância, ocupando pensamentos, quebrando estratégias de controle e provocando algo que ela nunca tinha sentido tão claramente: vulnerabilidade.
Ela se levantou e caminhou até a cozinha, pegou um copo de água, mas nem tocou. Cada movimento era medido, mas mesmo assim sentia o efeito dele nos nervos. O que Theo despertava nela não podia ser facilmente colocado em palavras. E isso era exatamente o que a deixava em alerta.
E Theo, do outro lado, planejando seus próximos movimentos, calculava. Cada instante, cada gesto dela, era um dado, um risco e uma promessa ao mesmo tempo.
No silêncio entre eles, no espaço que nenhum deles ousava atravessar abertamente, crescia algo tão intenso quanto silencioso.
Algo que não podia ser ignorado.