Luna não acreditava em coincidências.
Acreditava em escolhas m*l calculadas — e, naquele momento, entrar naquele prédio tinha sido uma delas.
— Você só pode estar de brincadeira… — murmurou, quando o viu.
Theo estava encostado na mesa da sala de reuniões, braços cruzados, conversa tranquila com Caio. Parecia pertencer ali. Quando percebeu o olhar dela, ergueu a sobrancelha, surpreso — e, para irritação de Luna, divertido.
— Nos encontramos de novo — ele disse.
— Não “nos encontramos” — ela respondeu, aproximando-se. — Fui chamada para uma reunião profissional.
— Eu também.
— Que azar.
— Discordo.
Caio pigarreou, claramente sentindo a tensão.
— Vocês se conhecem? — perguntou.
— Infelizmente — Luna respondeu ao mesmo tempo em que Theo disse:
— Ainda não o suficiente.
Ela lançou um olhar afiado.
— Não confunda um desentendimento com i********e.
— Não confunda firmeza com desinteresse.
Silêncio.
Sara entrou naquele instante, percebendo a tensão no ar.
— Gente… — começou.
— Não — Luna respondeu rápido demais.
— Sim — Theo disse no mesmo instante.
Sara sorriu, sabendo que algo não dito pairava entre os dois.
Gael, vindo logo atrás, apenas cruzou os braços, observando.
— Bom — Caio bateu palmas. — Já que estamos todos aqui, vamos ao motivo da reunião. Theo vai assumir a coordenação do projeto.
Luna sentiu o maxilar travar.
— Coordenar? — repetiu. — Esse projeto é meu desde o início.
Theo descruzou os braços, agora sério.
— E continua sendo. Eu coordeno. Você executa.
O ar ficou pesado.
— Isso não foi combinado comigo — ela disse.
— Nem comigo foi explicado que você prefere trabalhar sozinha — ele rebateu. — Mas estamos aqui agora.
Ela se inclinou levemente sobre a mesa.
— Só pra deixar claro: eu não sigo ordens m*l explicadas.
— Ótimo — ele respondeu, baixinho. — Eu não confio em quem foge do confronto.
Eles se encararam. Não era raiva. Era choque de controle.
Sara pigarreou de novo.
— Talvez a gente possa… respirar? — sugeriu.
Luna se afastou primeiro.
— Profissionalmente, podemos funcionar.
— Concordo — Theo respondeu. — Pessoalmente… vamos descobrir.
Ela pegou os papéis.
— Não confunda curiosidade com permissão.
— Não confunda resistência com indiferença.
O mesmo aviso. A mesma faísca.
E a certeza silenciosa de que aquele projeto não seria o maior desafio entre eles.
Enquanto a última palavra de Theo ecoava na sala, Luna sentiu o ar vibrar com uma energia quase elétrica. Cada respiração, cada olhar, cada gesto parecia carregar um significado que só alguns poderiam decifrar. Ela respirou fundo, ajustando a postura, sentindo o peso silencioso de todos os presentes, e, ao mesmo tempo, calculando cada passo que daria dali em diante.
— Então… estamos todos prontos? — Luna quebrou o silêncio, os olhos fixos em Theo, buscando confirmação.
— Sempre — ele respondeu, braços cruzados, a expressão séria, mas os olhos atentos a cada detalhe dela.
Sara, um pouco atrás, mexeu nos dedos, insegura.
— Vocês… parecem… tensos? — disse, hesitante.
— Observação nunca é tensão — Luna murmurou, sem desviar o olhar, mantendo a calma calculada.
Gael apenas cruzou os braços, mantendo o controle absoluto, mas permitindo que cada troca silenciosa acontecesse como deveria.
Luna desviou o olhar para Theo, percebendo a contração leve dos ombros dele, o franzir quase imperceptível da testa.
— Preciso que confie em mim, Theo — disse ela, em um tom baixo, quase um sussurro. — Tudo que está acontecendo agora… você vai entender no momento certo.
— Estou ouvindo — ele respondeu, um leve sorriso nos lábios, mas os olhos intensos. — Mas algo está fora do normal.
Sara pigarreou novamente, tentando suavizar o clima.
— Talvez a gente possa… respirar um pouco? — sugeriu.
— Respirar é bom — Theo disse, quase irônico, olhando para Luna. — Mas só depois do jogo acabar.
Luna ajustou os papéis à sua frente, sentindo a tensão percorrer o ambiente.
— O projeto é apenas um pretexto — murmurou para si mesma, mas audível o suficiente para Theo ouvir.
— Já entendi — respondeu ele, quase em um sussurro. — Mas você precisa me guiar nessa.
Sara deu um passo para trás, percebendo que seu papel era apenas observar.
— Vocês dois… — começou, mas parou, entendendo que não precisava saber de tudo.
— Exato — Luna disse, com um leve aceno, como se concordasse silenciosamente.
E enquanto todos permaneciam ali, cada gesto, cada respiração, cada olhar tinha significado. A confiança de Theo depositada nela, sem saber todos os detalhes, era a chave para que tudo acontecesse sem que ninguém fosse exposto.
A sala continuou silenciosa, mas carregada de intenções. Luna recolheu os papéis, respirou fundo e, com um leve aceno para Theo e Sara, preparou-se para o próximo passo.
— Vamos manter os olhos abertos — disse Theo baixinho, olhando para Luna.
— Sempre — respondeu ela, firme, determinada. — Mas cuidado com o que observa. Nem tudo é o que parece.
O projeto era apenas o pretexto; a estratégia silenciosa continuava sendo jogada, e Luna estava no centro de tudo, calculando cada movimento com precisão absoluta.
A certeza pairava no ar: resistir nunca foi fácil, subestimar alguém poderia ser mortal, e cada escolha silenciosa feita naquele instante moldaria os próximos movimentos de todos na sala.