Luna odiava duas coisas acima de tudo: improviso e perda de controle.
E Theo parecia a personificação exata das duas.
Ela estava sentada na extremidade da mesa da sala menor, aquela reservada para alinhamentos internos. O notebook aberto à sua frente mostrava planilhas que ela conhecia de cor, números revisados tantas vezes que já faziam parte de sua rotina mental. Ainda assim, sua concentração estava longe de onde deveria estar.
Estava nele.
Theo ocupava a cadeira oposta, mangas da camisa dobradas até os antebraços, postura relaxada demais para alguém que acabara de assumir a coordenação de um projeto complexo. Ele não parecia nervoso. Não parecia ansioso. Não parecia precisar provar nada.
Isso irritava profundamente Luna.
— Vamos alinhar as responsabilidades — ele disse, quebrando o silêncio. — Prefiro que tudo fique claro desde o início.
Luna fechou o notebook com um clique seco.
— Clareza exige reciprocidade — respondeu. — E até agora você só chegou… ocupando espaço.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando-a como quem analisa uma peça rara.
— Interessante. A maioria das pessoas me acusa de ser direto demais.
— Eu não sou “a maioria”.
— Eu percebi.
Ela cruzou os braços.
— Esse projeto nasceu comigo. Cada fornecedor, cada risco, cada margem de erro foi pensado por mim. Então, antes de redefinir funções, quero entender por que você está aqui.
Theo se recostou na cadeira, cruzando as pernas com calma.
— Porque alguém achou que você precisava de equilíbrio.
— Equilíbrio ou vigilância? — o olhar dela escureceu.
— Depende do ponto de vista.
O olhar dela se estreitou, desafiador.
— Eu não trabalho sob desconfiança.
— Nem eu confio cegamente — ele respondeu, sem elevar a voz. — Principalmente em quem carrega o mundo sozinha.
A frase a atingiu onde menos esperava. Ela desviou o olhar por um segundo — apenas um — e isso foi suficiente para que Theo percebesse.
— Não presuma coisas sobre mim — ela disse, fria.
— Não preciso presumir — respondeu. — Você se defende antes mesmo de ser atacada.
Silêncio. O tipo que pesa mais do que um confronto aberto.
Do lado de fora da sala, Sara observava através do vidro, fingindo conversar com Gael, mas claramente interessada demais na linguagem corporal dos dois.
— Eles vão se m***r — murmurou.
— Ou algo pior — Gael respondeu. — Vão se envolver.
— Luna não se envolve.
— Pessoas que dizem isso geralmente são as que mais caem.
Dentro da sala, Luna abriu novamente o notebook, decidida a retomar o controle da conversa.
— Ok. Vamos ao trabalho. O cronograma inicial precisa ser mantido. Qualquer atraso compromete o investimento.
— Concordo — Theo disse. — Mas vou mudar a estratégia de negociação.
Ela ergueu os olhos imediatamente.
— Não.
— Sim.
— Você não conhece os fornecedores.
— Conheço o suficiente para saber que estão confortáveis demais.
Luna se levantou.
— Conforto não é sinônimo de falha.
— Às vezes é sinônimo de estagnação.
Eles estavam próximos agora. Próximos demais.
— Você chega assumindo que sabe mais — ela disse.
— Não — ele respondeu, baixo. — Eu chego sabendo que posso enxergar o que você não quer ver.
O coração de Luna acelerou, contra sua vontade.
— E o que exatamente você acha que eu não quero ver?
— Que você não precisa provar nada o tempo todo.
Ela deu um passo para trás.
— Essa conversa acabou de ultrapassar um limite.
— Foi você quem cruzou primeiro — Theo disse. — Quando decidiu lutar comigo em vez de trabalhar comigo.
Ela respirou fundo. Controle. Sempre controle.
— Profissionalmente, faremos funcionar — disse.
— Distância nunca impediu nada — ele respondeu. — Só adiou.
Quando Luna saiu da sala, o coração batia forte demais para alguém que se dizia imune.
No corredor, Sara a interceptou.
— Então… — começou.
— Não.
— “Não” o quê?
— Não comenta. Não analisa. Não cria teorias.
Sara sorriu.
— Já estou criando.
Luna se afastou, mas uma pergunta insistente a acompanhava como uma sombra:
Por que alguém que ela m*l conhecia conseguia desestabilizá-la tanto?
Do outro lado da porta, Theo permaneceu parado alguns segundos a mais do que o necessário.
Ele já havia trabalhado com mulheres brilhantes. Fortes. Inacessíveis.
Mas nenhuma havia olhado para ele como Luna olhou.
Como quem reconhece um risco… e reconhece a si mesmo nele.