Mãe sempre sabe

1255 Words
Mãe sempre sabe Lívia Miller — Está tão linda, minha filha… — Olho para a minha mãe, que está parada na porta do meu quarto. Meu vestido era deslumbrante, de um vermelho vibrante, com as costas à mostra, alças finas e um tecido que me envolvia como uma tarde de sol. — Estou apenas seguindo a tradição da família: vestidos ousados para testar o coração dos noivos. Todas fizeram, não serei eu a fugir à regra. Minha mãe pega algumas joias para me ajudar a me arrumar. Já era uma tradição na família deixar os homens possessos com nossos vestidos reveladores. Tudo começou com a Tia Aretha, e eu estou apenas dando continuidade. Tenho que fazer jus à fama das mulheres que me cercam. Todas são fortes à sua maneira, e comigo não seria diferente. — Não acha que seu noivo vai ficar um pouco enciumado por causa dessa f***a aqui? — Ela aponta para as minhas costas. — Não — respondo, sem me importar. — E se ficar, que morda o canto da bochecha e aguente. — Minha mãe balança a cabeça em negação. — Tinha que ter o meu gênio misturado com a despreocupação programada do seu pai, não é? — Não respondo. Às vezes, tenho certeza de que minha mãe não me conhece de verdade, que ela não faz ideia do que sou capaz de fazer longe de suas asas. Em outros momentos, tenho a certeza absoluta de que ela conhece cada segredo que guardo e que apenas finge não ver para me dar autonomia. — Não quero agradar ninguém, mãe — digo, ajeitando meu batom. — Eu só quero acabar com esse tormento. Ela me analisa e me puxa para me ver melhor. — Para quem te conhece, sabe que estar aqui, vestida assim, não era exatamente o seu maior sonho. Na verdade, por muito tempo, eu podia jurar que seu pior pesadelo era ser pedida em casamento — ela diz, arrumando meus cabelos. Eu nunca fui a garotinha que desenhava o vestido de noiva como a Heloísa, ou que sonhava com um príncipe encantado como a Luiza. Eu não me afoguei em mágoas como a Artêmis e nem virei uma soldada como a Helô. Eu somente queria viver a minha vida do meu jeito, fazendo o que me fazia feliz. Misturando tudo isso, a única coisa que realmente amo de verdade é a adrenalina, a sensação de ser livre. E quem diria que a liberdade me colocaria nessa situação? Afinal, foi sendo livre que eu encontrei o i****a da minha vida, não é mesmo? Enquanto minhas amigas sonhavam com príncipes encantados, eu sonhava em desbravar o mundo sozinha. A minha felicidade se resumia a um carro com muitos cavalos de potência, uma pista de corrida, e até mesmo caçar pervertidos. Mas como vou fazer tudo isso casando com o Gregório? Casamento, para mim, era uma prisão, um clichê, uma dívida que eu não queria pagar. Queria dizer para minha mãe: “Sabe, mãe, o Gregório apareceu para f***r a minha vida”. — Definitivamente, eu não queria me casar. — Minha mãe me olha como se a notícia não fosse novidade. — Eu não falava com todas as letras, mas era visível. — Então, por que vai se casar? — Minha mãe me olha com um olhar que não consigo decifrar. — Vai aguentar viver com alguém que você não quer? Olho para ela. Eu precisava ser sincera com ela pelo menos uma vez na vida. — E não me venha dizer que é por falta de escolha, porque não é! Seu pai faria tudo por você, seu irmão, seu cunhado e toda a máfia. Então, não me venha com essa história de que está se amarrando por causa das diretrizes de uma máfia falida. — Suspiro. Por isso, era difícil conversar com a minha mãe. — A senhora é esperta… — Ela ri. — Não sabe o quanto. Me conta, o que está te afligindo? — A palavra-chave para o caos em minha vida é a falta de comunicação clara. Eu sou muito “ferro e fogo”. Levo tudo ao pé da letra e acredito que, se vacilarem comigo, têm que pagar de alguma forma. — Eu te entendo, porque já fui assim. — Quero fazer o Gregório pagar por ter me colocado nessa situação. Eu não queria me casar, não dessa forma, não como se eu fosse um troféu. — Mas o ama o suficiente para conversar e dizer que as coisas precisam ir com calma. Tem medo de que outro passe à sua frente. — Não é bem assim… — É assim, sim! Você não quer admitir que o ama, mas não quer perder para a próxima candidata. — Eu me calo. — Você tem que agarrar de vez ou deixá-lo seguir a vida dele, Lívia. — Não sou eu que estou fazendo de tudo por um casamento, mãe. — Uma hora ele pode se cansar. — No fundo do meu coração, era exatamente isso que eu tinha medo. — Em que momento a senhora viu o meu pai como seu companheiro e amigo para a vida toda? — Minha mãe me olha, surpresa. — Nossa, como saímos da situação em que você pode dizer “não” para o seu noivo para o momento em que você quer saber se ele será seu companheiro? — Aconteceu no decorrer dessa conversa, no dia do meu noivado. — Minha mãe ri. — Eu não tive muita escolha, filha. O amor cresceu, não foi, à primeira vista, aquele sentimento avassalador. No entanto, o nosso sentimento é forte. O nosso amor tem uma base fortificada porque o construímos com calma, paciência e tijolo por tijolo. Você vai poder fazer isso com o Gregório. — Mãe, é complicado. Eu odeio amar ele, essa é a verdade… — Minha mãe ri. — Ele e eu nos deixamos ser enganados. A minha ficha já caiu, mas ele ainda está inerte a tudo o que fomos submetidos. Passamos por coisas sérias que precisam ser resolvidas, mas que são mais profundas e complicadas do que eu possa admitir. Não consigo aceitar o casamento, mas também não consigo imaginar se cansando com outra… como eu disse, é complicado. Minha mãe não parece confusa, e sim que me entendeu bem. — Entendi. Você não quer brincar, mas quer descer para o playground e atrapalhar a brincadeira alheia. — Basicamente isso. Eu quero ser aquela que vai brincar sério nessa história — digo, já fazendo muitos planos para perturbar a Cassandra. — Filha, não existe um botão ou um momento épico para decidir viver o amor que você sente por ele. Claro que vocês dois precisam, urgentemente, sentar e conversar sobre tudo isso que está te deixando desse jeito. — Esse é o problema, não conseguimos ficar dois minutos sem brigar. — Então vocês nunca vão se dar bem, e viver ao lado de alguém assim não dá, filha. Não adianta amar e odiar, você precisa amar e perdoar também. Alguém bate na porta. — Está na hora do seu noivado — ela diz, beijando a minha mão. — Foi bom te conhecer um pouquinho. Suspiro. — Sabe que eu te amo, não sabe? — Minha mãe sorri. — Não mais do que eu te amo… — Ela se levanta. — Está na hora de fingir costume — digo, indo ao encontro do meu destino. — Lívia, por favor, não mata ninguém hoje, ok? — Eu concordo, rindo. Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰
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