Um Acordo Amargo
Lívia Miller
A noite tinha uma quietude sufocante, e o ar da imponente mansão de Miller era pesado, denso com um silêncio que, para mim, era mais ensurdecedor do que qualquer grito. A chuva começava forte e banhava a paisagem externa, pintando sombras fantasmagóricas no jardim, impecavelmente cuidado, mas lá dentro, a iluminação era quente, dourada, um contraste c***l com o frio que me gelava a alma. A voz de meu pai, ecoando na sua cabeça, ele tinha deixado claro o que iria fazer com Gregório se me machucasse, mas a verdade é que ele já tinha o feito. Ele já tinha magoado o meu coração, e acredita que eu não tenho volta. Que quando se quebra um coração, não tem como consertar.
Estava nervosa, mesmo garantindo para o meu pai que estava tudo bem, minha aparência dizia que sim, mas por dentro eu estava com um misto de emoções.
Apertei o tecido do vestido de seda que usava, não queria demonstrar fraqueza, mas era difícil quando o assunto era Gregório. A peça, cara e elegantemente desenhada, parecia uma ironia, uma gaiola dourada que a prendia a uma vida que eu não escolhi. Afinal, eu tinha que me vestir como pretendente de um mafioso.
Preferia mil vezes meu jeans rasgado, minhas blusas de tecidos moles e estar de tênis confortáveis. Esse era o meu uniforme para correr com o meu carro nas pistas mais perigosas do mundo.
Em algum momento isso iria mudar, mas eu não estou preparada para ser a esposa do Gregório Schneider. O sobrenome, antes associado a uma memória de paixão e entrega, agora era apenas um selo da minha condenação.
Ele entrou na sala no escritório com a mesma confiança arrogante de sempre, o terno sob medida, o porte imponente. Gregório era inegavelmente bonito, com uma beleza perigosa que misturava traços alemães clássicos com uma ferocidade de predador. Seus olhos, que uma vez a fizeram perder o fôlego, agora pareciam apenas duas pedras frias, capazes de escanear o mundo e calcular cada movimento. Ele sorriu ao me ver, um sorriso que não alcançava os olhos. O sorriso da sua vitória, pois ele finalmente teve o que tanto desejava, eu. Eu era a sua missão do momento, e ele finalmente conseguiu me deixar de mãos atadas.
- Lívia. - Ele disse, a voz grave e aveludada, a mesma voz que sussurrou promessas e palavras de amor em uma noite de verão há cinco anos. - É bom vê-la.
Me levantei, mas não para cumprimentá-lo. Minha postura era rígida, meus punhos eram cerrados ao lado do corpo.
Definitivamente eu não sabia o que ele esperava de mim depois de fazer de tudo por esse casamento.
- Não há nada de bom aqui, Gregório. - Digo cuspiu as palavras, o veneno em minha voz tão palpável quanto o ar. - Não finja que está tudo bem, se eu aceitar esse acordo. Não foi por causa de você, do que tivemos ou qualquer outro motivo louco que tenha passado pela sua cabeça. É só um negócio. – Digo firme, mesmo que por dentro esteja com o coração pronto para pular do peito.
O sorriso de Gregório desapareceu aos poucos. Ele se sentou à cabeceira da mesa, indicando com um gesto que fiz ao mesmo.
- Estamos aqui porque não tive saída.
- Verdade. - Ele respondeu, ignorando a acidez das minhas palavras.
Acabei rindo, uma risada sem humor que ecoou pela sala.
- Temos que discutir os detalhes do casamento...
- Detalhes? Que detalhes são esses? Onde devo assinar? Ou a data em que devo ser entregue como um pacote? – estava amarga e bem irritada.
- Isso não é um pacote, Lívia. - Ele disse, a voz agora endurecida. - É uma aliança. E você sabia disso. Você sempre soube quem eu era, que eu iria vir cobrar a sua dívida. – Na hora o tempo fecha agora nessa sala. - Você sempre foi minha e sempre será, querendo ou não!
As palavras de Gregório a atingiram como um soco no estômago.
Me lembrei daquela noite. O modo como ele me olhou, como se eu fosse a única mulher no universo. A paixão avassaladora, a entrega completa, o sentimento de ter encontrado a outra metade da alma. E depois, a revelação brutal: ele era o chefe da máfia alemã. E tinha Cassandra, aquela mulher que nunca saiu da minha cabeça.
- Eu não sabia que você era Gregório Schneider. - Retruquei, a minha voz estava embargada pela dor e pela raiva. - Mas você me fez acreditar que era um homem normal. Um homem que não tinha compromissos, que não tinha deveres. Maldita hora que eu não estava no meu melhor dia, que me deixei enganar por você. Que me queria, e não todo o resto que englobava o nosso mundo. Você me enganou, Gregório. E o pior de tudo, eu caí na sua armadilha como uma tola.
Sentiu as lágrimas se acumularem, mas me segurei com ferocidade. Não lhe daria a satisfação de me ver chorar. Ele era o motivo de sua miséria, a razão pela qual ela se sentia traída por cada fibra de seu ser. E agora, ela era obrigada a se casar com ele. Era como se estivesse revivendo o pesadelo todos os dias.
- E agora você está aqui, me olhando com essa cara de santo. - Continuo, a voz subindo de tom. - Mas eu não sou mais aquela garota ingênua de cinco anos atrás. Eu te odeio, Gregório. Odeio o que você fez comigo, o que me forçou a ser. E saiba de uma coisa: eu vou me vingar. Eu vou destruir a sua vida da mesma forma que você destruiu a minha. - Não meço palavras e nem sentimentos.
Eu queria que ele sentisse um terço do que eu passei.
Gregório a encarou, o rosto inexpressivo. Por um breve momento, ainda pensei ter visto uma fagulha de dor em seus olhos, mas a dispensei como um truque da minha mente. Ele era um mafioso, um mentiroso profissional. Dor não era algo que ele conhecia.
- Você é livre para tentar, Lívia. - Ele respondeu, a voz perigosamente calma. - Mas não esqueça que, a partir de agora, você será a minha esposa. E minhas esposas não me traem. Não quero ser seu inimigo, mas não vou conseguir resolver nada sem saber o que aconteceu...
- Esposa de fachada. - Corrigi com raiva. - Esposa por obrigação. Mas a minha alma, Gregório? Ela nunca será sua. E é ela que você deveria temer. Não vou te contar nada, dá o seus pulos, não é o esperto? Então corre atrás do seu prejuízo, e olha que ele é grande.
- O que eu te fiz para me odiar tanto? - Ele lança a pergunta que sempre faz quando está perdendo o controle.
- Pergunta para a Cassandra... - Gregório me olha como se finalmente tivesse um começo de uma explicação. - Ela não é a sua conselheira? Acredito que ela deva destratar saber que você vai se casar comigo. - Agora ele me olha assustado.
- Como você sabe? - Pela primeira vez na noite, eu ri que verdadeiramente.
- Acho bom você voar para Alemanha, se sentar com a sua conselheira, e perguntar o que ela fazia no seu quarto no dia anterior a nossa noite juntos.
Gregório Schneider pela primeira vez não tinha aquele ar arrogante, ele de fato não fazia ideia do que eu estava falando.
- Lívia, eu preciso que você seja mais específica...
- Vou organizar todo casamento daqui da Itália, vou escolher a data e fazer tudo de longe. Enquanto isso, acho bom você se alinhar com a sua conselheira, porque se não, você vai perder a noiva antes do casamento. - Digo as palavras e praticamente saio da sala a passos largos.
A conversa terminou ali, não disse nada às claras, mas dei informações para ele pensar. Me retirei com o coração de uma massa de ódio e ressentimento. O casamento seria uma batalha de vontades. Gregório poderia ter o meu corpo, a aliança, mas jamais teria seu coração. Faria questão de garantir que ele se arrependesse de ter me feito como sua esposa. A vingança seria um prato frio, servido lentamente, eu tinha todo o tempo do mundo para preparação.
A tempestade não estava apenas do lado de fora da casa da família Miller. Ela ressoava dentro das paredes de pedra, ecoando em cada cômodo, no silêncio pesado que se instalou entre mim e a casa vazia. A chuva batia contra as janelas de vidro, me sentia igual aquela chuva, querendo me limpar da mancha que era Gregório em minha vida.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰