A realidade me atinge
Lívia Miller
O jardim parecia tão distante, e um vento frio me atingiu e me traz de volta à realidade. Quanto tempo eu fiquei aqui parada, olhando para o nada?
Como pude me deixar levar por este homem?
O seu toque ainda queima no meu rosto, e o seu cheiro ainda está presente na minha alma. Eu realmente não sei como vou conseguir fugir dele. Gregório não vai desistir dessa merda de casamento; ele veio mesmo para fazer da minha vida um inferno.
— O que está acontecendo aqui? — Ouço Lucca, falando ao meu lado. — Por que você está chorando? — Sinto as lágrimas descerem pelos meus olhos.
Lembrar de tudo o que me aconteceu naquela época foi tenso, foi como mergulhar em um mar revolto e tenebroso. Posso fechar os olhos e reviver todas as sensações que senti naquele dia.
Foi um misto de sentimentos: o toque, as emoções, as vezes em que pude tocar o céu... até o momento em que me vi diante de uma mulher que tinha sido traída por aquele que estava deitado na cama do quarto.
Gregório dormia tranquilamente na cama onde fazíamos amor, e eu estava diante de um pesadelo c***l.
Ainda posso escutar, como se fosse hoje, tudo que aquela mulher me cobrava. Ela me pedia explicações, e eu não sabia o que falar, até porque não fazia ideia da sua existência na vida do homem com quem eu tinha acabado de me deitar. Eu estava tão surpresa quanto ela.
Na verdade, eu nem sabia quem era aquele homem direito. Mergulhei na emoção e ressurgi na incerteza.
De fato, cheguei à conclusão de que errei feio ao me deixar levar por Gregório. Naquela época, fiquei tão revoltada com tudo que não procurei saber quem era aquela mulher e nem com quem eu realmente tinha transado naquele dia.
A palavra "Dom" ainda ecoava seca na minha cabeça, e eu não descartei a possibilidade de que ele pudesse vir sim, exigir um casamento por causa da virgindade perdida naquele tempo.
Não era tão boba assim. Eu sabia que t*****r com um mafioso era complicado, mesmo não fazendo ideia de que ele era tal pessoa quando me deitei com ele e o amei.
Era contraditório pensar que Gregório era noivo, mas, naquela fatídica noite, ele tinha me prometido o céu. Ele podia vir me pedir em casamento, mas tinha uma noiva que dizia que eles iriam se casar... Como assim?
Quando revi Gregório pela primeira vez depois da nossa noite intensa, foi como um despertar de um pesadelo. Em vez de vir à tona todos os momentos bons que passamos, veio a imagem daquela mulher, que depois descobriu ser sua conselheira. Um ódio me corrompeu.
Eu não conseguia nem ouvir a voz dele e não lhe dei a oportunidade de falar. Eu não queria ouvir mais mentiras, e era exatamente isso que Gregório não entendia.
Eu não aguentava mais ouvir mentiras vindas dele, pois a dúvida permanecia: ele ainda estava com aquela mulher? Ou ele terminou o relacionamento para assumir algo comigo por causa da máfia? Eu realmente não sabia o que Gregório queria a essa altura do campeonato, nem entendi qual era a sua motivação para voltar e praticamente exigir algo que eu não queria dar a ele.
Eu não queria dar a minha liberdade. Não queria dar a ele o gostinho de me fazer a sua prisioneira, porque tenho certeza de que ele me fará presa a ele. Gregório era dominador e gostava de ter tudo a seu bel-prazer, e eu sou tudo, menos uma pessoa fácil de se render.
E agora ele estava aqui novamente, como uma amarga lembrança, um lembrete de que eu não tinha saída, que não podia fugir das minhas emoções, dos meus erros e das minhas más escolhas.
— Gregório... — Minha boca somente proferiu o nome da minha desgraça momentânea.
Lucca me olha de forma estranha, como se quisesse matar alguém com as próprias mãos.
— Eu vou começar uma guerra com a Alemanha... — Diz ele, com uma postura assustadora e uma aura maligna.
O desespero me consome. Eu não podia deixar Lucca começar uma guerra com Gregório por minha causa.
Nunca houve uma guerra de grande magnitude entre as máfias no submundo. Houve rupturas e até algumas brigas que foram resolvidas antes que se entendessem para algo mais sério. Afinal, ninguém quer chamar a atenção quando está trabalhando na escuridão.
A questão é que essa paz estaria quebrada se meu irmão declarasse guerra contra Gregório.
Além disso, meu pai era para ser o herdeiro principal da máfia alemã, não Gregório, que assumiu depois da morte prematura de seu pai. Uma briga entre nós pode soar como uma tomada de poder e até um ato de guerra vindo da Itália.
Muitos iriam morrer, as mulheres teriam que ficar trancadas em casa, vivendo com medo, e as crianças que estavam chegando iriam nascer em um mundo de guerra entre famílias. Eu não podia deixar isso acontecer, não por um motivo tão banal e ridículo.
A verdade é que eu tinha que me sacrificar pela família, e isso era o que me tirava a paz, porque eu não me perdoaria se algo acontecesse com qualquer pessoa que eu amo. Ainda mais sabendo que aquele louco é capaz de fazer de tudo para ter razão. Gregório não iria parar, e eu não podia deixar que ele machucasse ninguém que eu amava.
— Lucca, pelo amor de Deus, não comece uma briga com ele... — Lucca Miller me olha como se não entendesse onde eu queria chegar. — Não podemos começar uma guerra com Gregório.
Lucca ri, sem humor.
— Acha mesmo que eu vou deixar aquele homem fazer o que quer em nosso território? Pior ainda, acha que eu vou ficar de braços cruzados enquanto ele se faz de bom moço, pede sua mão em casamento para o nosso pai e ainda fica aqui exigindo algo que não tem direito? — Lucca sabia, mesmo que achasse que havia algo muito errado.
Meu irmão sempre disse que Gregório não anunciou nenhum noivado, que Cassandra era sua conselheira, nada mais além disso. A questão é que eu vi. Eu ouvi aquela mulher dizendo que era noiva do Gregório. Ela não tinha por que mentir...
Não tinha...
Agora ele estava aqui diante de mim, querendo matar o Gregório, e, como consequência, começar uma guerra contra a Alemanha.
— Lucca, ele não fez nada demais, eu somente me lembrei do passado... — Minto. — Eu somente tenho que conversar com ele, dizer o que aconteceu naquela noite e tentar saber por que Cassandra disse que era sua noiva.
Lucca me olha. Era nítido que ele estava tentando confiar em mim.
— Por que eu acho que você vai fazer tudo ao contrário do que está me dizendo? Você vai se casar, mas vai transformar a vida do Gregório em um inferno... — Não era uma pergunta.
— Porque eu sou filha de Andreas Miller e Pérola Miller... — Digo, me recompondo. — Além disso, não tenho muita escolha. Se eu não me casar, ele vai começar uma guerra, e não posso deixar todas as pessoas que amo sofrerem por causa dos meus erros. — Lucca me julga com o olhar. — Confie em mim. Você sabe que, se ele vacilar, eu o mato, me torno a chefe daquela merda e ainda vou estar linda para correr minhas corridas.
Lucca n**a com a cabeça. Eu sei que ele tem seus próprios planos, mas vou me casar com Gregório. Devo isso à minha família. No entanto, ele está muito enganado se pensa que não vai me pagar por tudo o que me fez no passado.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰