Voltando ao passado
Lívia Miller
"Os motores rangiam na pista, era a penúltima corrida antes da corrida final, e todos que iriam correr só pensavam no prêmio, em como ganhar um milhão de dólares.
A quantia não era nem um terço do que o organizador das corridas ilegais de Berlim ganhava em uma noite, mas todos os homens que estavam naquele estacionamento para correr, e até arriscarem suas vidas, queriam essa quantia como uma tábua de salvação.
Eu era a única mulher no último evento, na corrida final, aliás, eu era a única mulher que estava correndo em uma corrida ilegal em toda a noite de evento.
Estava com a adrenalina nas alturas, tinha acabado de matar um homem no banheiro de um restaurante velho e mofado.
Precisava de um álibi. Passar a noite na cadeia após ter matado um alvo para o meu pai parecia divertido.
Claro que Lucca infartaria. Eu não era como os subordinados do meu pai; eu tinha minha própria maneira de matar e de sumir no mundo procurando por corridas.
Então, completei a minha missão e vim para essa corrida ilegal. Se alguém me reconhecer por ter matado um pedófilo no banheiro sujo de um restaurante mais velho do que as múmias, terei a desculpa de estar em uma corrida ilegal apostando um milhão de reais dos meus pais.
- Está lá, é só olhar na minha conta. Eu paguei a minha entrada para correr e agora quero ganhar meu dinheiro de volta.
Até parece que eu estava em uma corrida dessas pelo dinheiro. Estava aqui por causa da adrenalina, da emoção e da sensação de nunca ser pega.
Meu pai matava para ter essa mesma sensação, meu irmão idem. Eu somente estou honrando os costumes estranhos da família.
- Uma menininha correndo com os grandes...— Um i****a fala olhando para mim. — Vai perder e vai correr para a barra do vestido da mamãe...— Todos em volta riem do meu comentário para o calmo meu concorrente.
Geralmente, não são tão educados assim. Homens não gostam de perder, que dirá para uma "menininha" que ninguém sabia o que fazia a uma da manhã na rua.
Infelizmente, sou uma jovem senhora no corpo de uma mulher que tem cara de adolescente. Minha aparência é de uma menina que acabou de sair das fraldas, e isso não era bom para colocar medo nos meus concorrentes. Por isso, me mantinha calada, não podia matar todos os homens que falavam o que não deviam.
- Essa v*dia não deveria nem estar aqui... — Ouço um homem alto, sem qualquer medo da morte, que se achava o rei da cocada preta. — Ela está caçando confusão.
Todos estavam aqui para reafirmar suas masculinidades e seus poderes. A maioria dos pilotos era de pessoas perigosas que queriam dinheiro rápido.
No meu caso, para eles, eu era uma ameaça, não por ser boa, mas por ser a mais fraca e mais uma para competir pelo prêmio.
Estava encostada no meu carro, um carro que era todo transformado para corridas. Eu o tinha modificado para ser uma potência nas pistas, mas seu exterior não mostrava do que ele era capaz.
- Estão com medo e nem entramos na pista? — Digo rindo.
O homem que queria confusão tenta chegar perto de mim, mas o cara que gerenciava as corridas entra na sua frente e o adverte.
- Não podem brigar... — Ele olha para mim e para o i****a que acha que vai respirar até o dia amanhecer. — Vai para trás, Petrus, ou eu não deixo participar da corrida final.
- Você é corajosa..." — Ouço alguém atrás do meu carro.
Era um homem alto, loiro e bonito. Não que isso me disse o caráter, os valores e postura, mas visualmente ele era de parar o fôlego.
- Eu não sou corajosa. A verdade é que tem muito i****a que acha que bota medo por xingar e gritar mais alto.
Disse em alto e bom som. Todos da corrida me olharam e o tal Petrus me encarava com raiva.
- Vai com calma, gatinha, aquele armário não é de brincadeira. — O homem que não conheço para ao meu lado.
Ele usava uma calça jeans, jaqueta de couro e os cabelos perfeitamente arrumados para trás. Não sei por que, mas tenho certeza de que esse não é o mundo dele. Aquela roupa, comportamento e até a conversa fiada eram para algo maior.
- Falou alguém que tem três metros de altura e está no lugar errado...— Os olhos azuis do homem me fitam com intensidade.
Não sei por que, mas não consigo desviar do seu olhar...
-Vamos correr... — Saio do transe e entro no meu carro, vendo o homem ainda me observando, mas a sua máscara não era mais a mesma.
Aquele homem não era um civil em uma corrida de rua, não era um bandido querendo dinheiro fácil e não era um dos donos do lugar...
Quem era aquele homem?
Quando Gregório entrou na minha vida, eu tinha que ter me atentado aos sinais.
Ele já era falso no momento em que bati o olho nele. Sabia que tinha algo de errado nas suas palavras, nos trejeitos e em como ele achava que ninguém o enxergava.
Posso não ser ativa na organização do meu pai, mas eu fazia os trabalhos que ninguém nem sonhava que aconteciam. Matava pessoas ruins para melhorar a vida de gente que nem tinha dinheiro para pagar por aquela limpeza.
Sim, para mim, era limpar o mundo de gente nojenta que achava que, por ser forte, tinha o direito de subjugar os mais fracos.
Eu estava em Berlim para acabar com a vida de um padrasto pedófilo que fugiu da Itália e veio se esconder lá.
Conheci Gregório sem saber quem ele era exatamente. Me entreguei a ele depois de um ato sem pensar, no calor da emoção.
Não me perguntem por que fiz aquilo. Acho que foi porque ele me salvou, sei lá! Quando a poeira baixou e eu estava segura em seus braços, uma química que eu nunca tinha sentido na vida se apoderou de mim.
Conversamos por horas, rimos, brincamos e, quando dei por mim, estava apaixonada.
Era aquela merda de "amor à primeira vista".
Me entreguei e achei que daríamos certo. Ele me prometeu que mundos e fundos, pediu para confiar. Não sei por que, mas confiei e me arrependi na manhã seguinte.
Não por ter transado; poderia ter perdido a virgindade com um i****a qualquer que nem teria me dado um orgasmo se quer, era como roleta russa, porque eu já tinha colocado na minha cabeça que não iria me casar virgem.
Gregório sabia bem o que estava fazendo e me deu vários orgasmos em uma noite, nisso eu nunca posso reclamar dele.
A questão é que ele mentiu para mim: ele era noivo e a mulher dele estava no quarto ao lado, dormindo sozinha...
Como eu poderia me sentir tão enganada?
Corri daquele quarto quando ela entrou na antessala e me perguntou o que eu fazia com o seu noivo.
Acho que meu cabelo bagunçado e minha roupa amassada ainda não eram autoexplicativos.
"O que faz com o meu noivo? Você transou com o Dom da máfia alemã, Gregório Schindler."
Uma bomba pareceu cair bem diante de mim, e tudo se desmoronou em questão de segundos.
Como eu tinha me entregado ao Dom da máfia alemã?
Saí correndo sem olhar para trás. Se meu pai soubesse, ele iria me matar!
Corri como se a minha vida dependesse disso, e de alguma forma ela dependia.
Aquela era a corrida da minha vida, e pela primeira vez estava correndo na direção errada do alvo final."
Corri sem olhar para trás, mas de alguma forma, Gregório me achou e quer reivindicar o seu prêmio.
Ele era o ganhador no final, pois eu não tinha argumento, poder de fogo e nada que pudesse me ajudar a me livrar desse inferno de casamento.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰