"Sim"
Lívia Miller
Quando penso que as coisas finalmente vão se acalmar, elas dão um jeito de ficar ainda mais agitadas e imprevisíveis. Os dias têm sido difíceis, cheios de problemas que precisamos resolver antes que o pior aconteça. E, além disso, preciso encontrar razões para continuar com a ideia louca de não provocar mais problemas com Gregório. Meu corpo e minha mente desejam matá-lo lentamente, mas ele pode me prender em um casamento, mas jamais irá me domar.
O pior é que não posso pensar em fazer nada contra a vida dele. A máfia da qual ele é o Dom está se reestruturando. Se Gregório morre, meu pai ou, pior, Lucca teriam que assumir, algo que nunca desejaram.
Ainda somos pessoas não gratas pelos outros, já que ambos recusaram o papel de Dom da máfia alemã. Embora ainda esperassem que meu pai voltasse atrás, meu velho nunca desejou o cargo do avô, e a posição continua vaga até hoje.
Me vejo em uma sinuca de bico. Várias coisas acontecendo ao mesmo tempo, e eu correndo da minha própria realidade.
Selena, que está grávida do meu irmão, vai se casar em uma cerimônia intimista. Minha irmã também está prestes a dar o próximo passo em sua relação com Daniel. E eu? Bem, eu fujo do meu pai como o d***o foge da cruz, porque sei que ele vai falar sobre a proposta de casamento de Gregório e tudo que isso envolve. Terei que dar uma resposta definitiva, algo que, mesmo sabendo que só estou adiando, ainda é difícil de verbalizar.
Com a aproximação de Gregório na última festa, fiquei ainda mais nervosa, pois sabia que não tinha saída. Terei que aceitar a proposta, mesmo morrendo de raiva por dentro. Eu não vou permitir que meu pai entre em guerra contra a máfia alemã, nem deixar meu irmão lutar contra Gregório. Fora que todos os meus tios e tias iriam querer se meter, seria um banho de sangue.
Vou me sacrificar em seu lugar. Nunca faria a minha família sofrer por minha causa, jamais! Os tempos são de paz, mesmo que essa seja a última coisa que eu sinta no momento.
Sei que isso é inevitável, mas minha mente não consegue afastar as lembranças do passado. Como pude ser enganada pelo homem que agora quer me prender a ele?
Gregório parou de tentar me forçar a falar, mas sinto seus olhos constantemente sobre mim, como se ele seguisse cada um dos meus passos, pensamentos e finalmente esperasse por sua resposta sobre o casamento. Ele tem trabalhado para fortalecer sua máfia, fazendo acordos, alianças e até mesmo já anuncia um noivado com o qual eu não concordei, mas também não discordei. Para ele, o noivado é algo certo.
Já bastava a constante sombra da enganação, e agora tenho meu futuro marido me vigiando o tempo todo. Não consigo nem fugir para correr em uma pista a toda velocidade. Eu só queria meu carro e uma pista livre até o fim do mundo. Seria interessante.
— Posso sentar ao seu lado?
Levo um susto quando percebo a figura imponente do meu pai à minha frente. Ele, com certeza, não fez nenhum esforço para me procurar. Andreas Miller estava evitando o assunto que tanto temia. Meu pai me conhecia bem, porque sou a cópia dele, e é difícil falar algo que não se tem como negar.
— Claro, papai.
Ele se senta e me olha com aquele ar de pai cansado, mas que está ali para mim.
— Como estão as coisas?
Acabei rindo. Meu pai sabia cada passo que eu dava. Estamos no jardim de casa, que tem uma enorme plantação de flores, principalmente margaridas, minha flor favorita. Estou na parte mais isolada, do lado oposto da estufa, onde todos passam um tempo quando algo está fora do lugar.
— Indo, pai…
Digo, repousando a cabeça em seu ombro.
— Só estou preocupada com meu irmão e tudo o que está acontecendo.
Meu pai beija minha cabeça e olha para o horizonte.
— Eu construí este jardim para Pérola. — Ele diz, melancólico. — Foi uma desculpa para empregar um senhor de idade que era florista. Ele era vítima de uma guerra antiga que o deixou sem saída e sem família.
Meu pai ri como se lembrasse de tudo exatamente como foi.
— Sua mãe chegou com um barrigão enorme de vocês e me pediu um jardim no fundo da casa. Na hora, achei loucura. Já tínhamos um florista e um jardineiro, e já era trabalho demais cuidar de todas as flores da frente da casa. Mas sua mãe queria este jardim aqui, um lugar escondido para pensar nos problemas. — Ele ri. — A questão é que ela queria ajudar aquele homem, queria que ele se sentisse útil, e não um peso em nossas vidas.
— O senhor cuidou do jardim?
Eu sabia a resposta, mas gostava de ficar aqui com meu pai.
— Tudo isso aqui começou com ele, até o último dia de sua vida. Depois, nós o ajudamos, e ele me deu um refúgio para meus problemas. — Ele diz, nostálgico.
— Muito atencioso da sua parte. — Digo, fazendo carinho na mão dele entrelaçada na minha.
— Você e seus irmãos chegaram aqui como meu bálsamo. Sua mãe é a minha vida, mas vocês… — Ele engasga com as palavras. — Vocês são a minha motivação para continuar sendo forte.
Andreas era um ótimo líder, esposo e pai. Se ele quisesse ser Dom, com certeza seria o melhor também. Mesmo quando todos duvidavam dele e onde ele era odiado, ninguém conseguia desfazer seus feitos. Meu pai era do tipo dramático, engraçado e um pouco possessivo, mas era o melhor quando levava as coisas a sério.
Nesses poucos dias que passei refletindo sobre a vida, imaginei como seria nossa vida na Alemanha. Não sei se seríamos tão felizes, mas a máfia teria um líder que se preocuparia verdadeiramente com eles. No entanto, meu pai abdicou disso. Ele não quis ser parte do legado do meu avô, então tudo que imaginei e ponderei fica apenas na minha cabeça. Na verdade, meu pai nos protegeu de uma máfia que não era aliada de ninguém. Se ele fosse o Dom, talvez nem estivesse vivo para contar a história, já que a Alemanha não era bem vista por ninguém. Além disso, o trabalho seria tenebroso, e ele já tinha uma família que correria riscos.
— Sei que não existe lugar como o lar… — Ele continua. — … sei que você sabe por que estou aqui. Não tenho mais tempo para mandar Gregório ir à merda.
Acabei rindo.
— Eu sei que você também queria matá-lo, pai… — Ele ri. — Sei que ele te fez uma proposta de casamento.
Meu pai suspira.
— Sim, ainda mais porque Lucca vai assumir a organização. Eles querem essa aliança para dar um pouco de segurança. Fora que não terão mais motivos para pressionarem Gregório. Se você se casar com ele, eles vão se aquietar com as perguntas, suposições e uma possível guerra entre mim e a máfia deles.
Suspirei, resignada.
— Sabe que não ligo de matar todos da Alemanha, não é?
Olho para ele.
— Entendo se você odiar a ideia. Nossos conflitos e pressões vêm de antes de você nascer. — Ele suspira. — O lugar que eu adequava não é para ser assumido por você, Lívia. Você não tem que levar esse fardo.
Sinto meus olhos arderem. Eu devia odiar essa situação, devia odiar Gregório, que usou o ponto fraco do meu pai para poder se casar comigo.
— Não quero que os outros sofram por minha causa, papai. No fundo, o senhor sabe que não é pela recusa do cargo que Gregório está fazendo isso, não sabe?
Meu pai não me olha.
— Ele me quer como esposa, e vai me ter, mas eu garanto que não vai ser fácil para ele.
Meu pai balança a cabeça.
— Nem sempre foi assim, eu nem sempre fui feliz. — Andreas olha para o céu como se mergulhasse no passado. — Quando neguei o cargo, estava evitando levar o legado do meu genitor adiante… Tentei pensar que foi por um bem maior, estava protegendo minha família também. Na segunda vez, porque antes de passarem para Gregório, eles me procuraram, mas neguei novamente, mesmo sabendo que você tinha se envolvido com ele. Agora ele está aqui. Gregório está usando a desculpa da paz para te levar, mas na verdade, ele está declarando guerra comigo e com você. Porque, Lívia, eu sei bem do que você é capaz, e que Deus nos ajude, porque eu sei que pode estourar uma guerra no meio desse casamento.
Acabei rindo sem humor.
— Espero que não aconteça, pai. Não quero colocar a vida de ninguém em risco, mas não prometo que Gregório não vá sofrer as consequências de querer me prender a ele.
— Isso é um "sim" à proposta de casamento?
— Sim, eu vou me casar, mas ele terá que assinar um acordo… — Penso em um contrato que tenho certeza que ele vai descumprir. — Quero um contrato de casamento. Se ele descumprir qualquer uma das regras, ele terá que me dar o divórcio.
Meu pai ri.
— Na máfia não tem divórcio, filha.
Acabei rindo.
— Então seremos os primeiros a ter cláusula de divórcio.
Meu pai gostou da ideia.
— Se Gregório não aceitar, que ele vá para o país dele se preparar para as consequências, porque se ele vacilar, eu o mato e te entrego à Alemanha como máfia…
Gostei da ideia.
— Que não cheguemos a tanto.
Acabei rindo.
— Ele terá que me dar o divórcio, ou assumimos a Alemanha. Vamos ver o que dói menos em Gregório.
Minha cabeça estava fervendo. Eu usaria a traição como uma rota de fuga. Se Gregório me traísse, eu pediria o divórcio ou a máfia. Ele que escolhesse qual seria a humilhação melhor para se passar.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰