07 - Cavaleiro

1142 Words
Cavaleiro narrando Foi só deixar a Lorena à vontade, as notificações começaram a pipocar no meu celular uma atrás da outra. Olhei de canto e vi que ela tava fazendo uma verdadeira folia pública com o meu cartão. Claro que não era ela mesma que estava com o cartão, era o George, que eu tinha mandado acompanhar. Aquela desmiolada não ia meter o pé num shopping sozinha. Mesmo assim, já entendi qual era o joguinho dela. Como é moeda de troca, tá querendo fazer valer a pena. E quer saber? Tá certíssima. Eu no lugar dela faria o mesmo. O que ela não sabe é que cada centavo dessa “verba pública” já tá na minha conta mental. Vou cobrar. E comigo, cobrança não é só no dinheiro é na postura também. Quando finalmente ela apareceu, já no final da maratona de compras, entrou no carro com um ar de missão cumprida. George e mais dois dos meus seguranças enfiaram as sacolas na mala e também no banco de trás. Eu vi quando ela bateu a porta com força, como se quisesse marcar território. Pelo canto do olho, percebi o sorrisinho. Era aquele tipo de sorriso de adolescente mimada que quer ser notada. Mas Lorena vai aprender rápido que comigo não é assim que funciona. Aqui quem dita as regras sou eu. Dirigi direto pra minha casa. Assim que passamos pela porta, um dos funcionários veio avisar que o almoço já estava servido. Eu só fiz um aceno com a cabeça e parei na frente dela. — Toma banho, se arruma e desce pra gente almoçar — falei firme, sem levantar o tom, mas deixando claro que não tinha espaço pra argumento. Ela me olhou como se fosse responder, mas a minha expressão cortou qualquer tentativa de conversa. Vi quando ela mordeu o lábio e desviou o olhar. Segui sozinho pra sala de jantar. Meus passos ecoavam pelo mármore, e eu podia sentir a energia da casa voltando ao que eu gosto: ordem e silêncio. Olhei pela janela e vi o jardim impecável. Tudo ali era mantido no mais alto padrão, e eu não vou permitir que essa garota chegue bagunçando o equilíbrio. Sentei na cabeceira da mesa, ajustei o relógio no pulso e fiquei esperando. Na minha frente, a prataria brilhava sob a luz do lustre. As taças estavam perfeitamente alinhadas, os guardanapos de linho dobrados com a precisão de quem já conhece o meu gosto. Tudo ali falava sobre controle, e eu queria que ela entendesse isso desde o primeiro dia. Enquanto esperava, minha cabeça voltava à cena no carro. Aquele sorriso dela não era só provocação, tinha também um pouco de desafio. Eu reconheço bem esse olhar. Era o mesmo que eu já vi em gente que achava que podia medir forças comigo. Só que a diferença é que a Lorena ainda não tinha a menor noçäo do tamanho da maré que estava entrando. Lorena entrou na sala de jantar como quem sabe que vai provocar. Vestido leve, cabelo ainda úmido do banho, e aquele perfume adocicado que veio na minha direção antes mesmo dela sentar. Puxou a cadeira devagar, como se quisesse esticar o momento. Eu não disse nada, só observei. Os pratos já estavam servidos, e ela começou a mexer na comida sem me encarar. Eu sabia que ia abrir a boca a qualquer instante e abriu. — Por que te chamam de cavalheiro? — perguntou, arrastando a palavra como se tivesse veneno na língua. — Você é o homem mais ignorante que já vi na vida. Larguei os talheres, olhei direto pra ela e soltei um meio sorriso. — Não sou cavalheiro, garota — falei baixo, mas firme. — Sou Cavaleiro. O Cavaleiro do Inferno. O garfo dela parou no ar. Vi quando engoliu seco, sem saber se ria ou se ficava quieta. E ficou quieta. Acho que consegui, por alguns segundos, deixar essa garota de língua afiada sem resposta. Continuei comendo como se nada tivesse acontecido, e só quando terminei o gole de vinho é que voltei a falar. — E antes que você invente mais uma teoria maluca, não sou nenhum agiota como você deve estar pensando. Ela levantou uma sobrancelha, apoiou o cotovelo na mesa e me encarou com aquele ar debochado que parecia ser natural nela. — E você é o quê, então? Limpei a boca com o guardanapo, me recostei na cadeira e segurei o olhar dela. — Não sei se já ouviu falar no deputado Cauã Rangel. Ela balançou a cabeça, devagar, como se estivesse pouco se importando. — Não. — Pois você está diante dele. — falei pausadamente, só pra ver a reação. — Sou o deputado mais votado pelo voto jovem neste país. Ela deu um risinho curto, como se quisesse me provocar ainda mais. — Deputado? E com esse jeito? — E se você quer descobrir por que o meu vulgo é Cavaleiro — inclinei o corpo levemente pra frente, prendendo o olhar dela no meu — terá que se comportar bem. Aí, quem sabe, eu te conto. O silêncio que veio depois foi denso. Ela me olhava como se quisesse decifrar se eu estava falando sério ou se aquilo era só mais um jogo de poder. Eu sabia que ela não ia se render fácil. Mas eu também não tenho pressa. Ela voltou a mexer no prato, cortando a carne devagar, sem desviar os olhos. Não sei se era pra me testar ou pra tentar provar que não se intimidava. — Então quer dizer que você é importante. — disse, jogando a frase no ar como se fosse óbvia. — Não — respondi, inclinado na cadeira. — Quer dizer que eu sou perigoso. Ela parou de mastigar, mas manteve a compostura. A mão dela apertou o cabo do garfo, e foi nesse pequeno detalhe que percebi: eu tinha plantado a dúvida. E dúvida, na mente de alguém como a Lorena, é a porta de entrada pra tudo o que vem depois. O almoço seguiu, cada garfada parecendo um movimento calculado no tabuleiro que estávamos montando sem perceber. As provocações vinham disfarçadas de perguntas inocentes, e as minhas respostas, mascaradas de conversa casual. Mas a tensão, essa, estava bem no centro da mesa. No fundo, eu sabia que ela estava tentando me medir. E eu? Estava deixando. Porque quanto mais ela achasse que podia ler o Cavaleiro, mais surpresa ela ia ter quando descobrisse que só tinha arranhado a superfície. Quando o prato dela estava quase vazio, me inclinei levemente pra frente. — Comece a se comportar, Lorena — falei num tom baixo, mas carregado de significado. — E quem sabe você descubra se o Cavaleiro é só um nome ou uma sentença. Ela me olhou, os olhos brilhando mais de curiosidade do que de medo. E eu sorri internamente. O jogo tinha acabado de começar.
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