Cavaleiro Narrando
A viagem tinha sido um inferno. Brasília não me cansa pelo calor, nem pela distância, mas pela política. Três dias no Congresso Nacional ouvindo promessas vazias, discursos ensaiados e sorrisos falsos. Eu não sou de perder tempo com teatro, mas algumas pautas exigem minha presença, mesmo sendo deputado estadual. E quando isso acontece, sempre volto com a cabeça fervendo.
Tudo que eu queria era silêncio.
Assim que entrei na mansão, um dos meus soldados se aproximou.
— Chefe, o seu pagamento está dormindo no sofá.
O cansaço deu lugar a um interesse imediato. Apenas um olhar meu foi o suficiente para ele recuar. Cruzei o saguão e segui para a sala.
Ela estava lá.
Pequena, delicada, quase frágil, mas algo no jeito como ocupava aquele sofá me dizia que não era tão indefesa quanto parecia. Dormia de lado, o cabelo caído sobre o rosto, os lábios entreabertos. A respiração lenta, tranquila, como se estivesse segura.
Apoiei as mãos no encosto da poltrona. Tirei o paletó, joguei no braço da cadeira e comecei a arregaçar as mangas da camisa. Meu olhar não saiu dela nem por um segundo.
De repente, abriu os olhos. Não movi um músculo. Apenas segurei o olhar, firme, como quem deixa claro quem está no controle. Ela fechou de novo e abriu outra vez, dessa vez com um pequeno franzir de testa.
Se sentou devagar, ajeitando o cabelo bagunçado. Aquele desalinho só a deixava mais tentadora. Inclinei o corpo um pouco à frente e estendi a mão.
— Satisfação. Sou Cavaleiro… Seu dono.
Ela olhou para minha mão, depois para meus olhos. E o que veio a seguir me fez sorrir por dentro.
— Me chamo Lorena e não tenho dono.
A ousadia. A firmeza. E a boca, aquela boca perfeita, cuspindo desafio como se não tivesse noçäo de com quem estava falando.
Baixei a mão, mantendo o mesmo tom frio.
— Me siga.
Virei as costas sem esperar resposta. Ouvi seus passos atrás de mim. Lentos, mas presentes. Chegamos ao corredor do andar de cima. Parei diante de uma porta em frente à minha, abri e fiz sinal para ela entrar.
— Esse é o seu quarto a partir de agora. — Minha voz cortou o ar como lâmina. — Pode andar pela casa e por toda a propriedade. Mas não tente sair sem a minha autorização.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E se eu tentar?
Avancei um passo, invadindo o espaço dela.
— Vai descobrir que minha paciência pode ser longa, mas não é infinita.
Por um instante, ela manteve o olhar preso no meu. Sem medo aparente, mas com um brilho que denunciava que estava medindo até onde podia ir. Eu não desviei. Não pisquei. Era um duelo silencioso.
— Pelo visto você está com sono. — Continuei, recuando um passo. — Descanse. Amanhã vamos conversar melhor.
Dei as costas e saí, fechando a porta com calma.
No corredor, respirei fundo. Eu sabia quando alguém tentava me testar. E Lorena não é só bonita, ela é perigosa. Não pelo que podia fazer fisicamente, mas pela forma como mexia com o ambiente sem precisar levantar a voz.
Tomei um banho quente, deixando levar todo cansaço. Logo em seguida vesti apenas uma cueca box.
Me joguei na cama, mas não peguei no sono de imediato. Aquela cena, aquela boca atrevida e aqueles olhos me desafiando ainda queimavam na minha mente.
Uma coisa é certa: a partir de agora, a paz nessa casa acabou.
Acordei cedo e pedi para comprar uma par de roupas para Lorena. Depois vou levá-la para escolher o que quiser.
O sol já estava alto quando bati na porta. Não esperei resposta. Entrei.
Ela estava sentada na beira da cama, cabelo preso de qualquer jeito, usando a roupa da noite anterior. Os olhos me seguiram desde o momento em que cruzei o batente.
— Acordou tarde. — Comentei, sem mudar o tom de voz.
— Não tinha hora pra levantar. — Retrucou.
Me aproximei devagar, como quem não tem pressa de nada. Sentei na poltrona, de frente pra ela, e apoiei os cotovelos nos joelhos.
— Você sabe por que está aqui, não sabe?
Ela engoliu seco.
— Sei que meu padrasto me entregou pra você, como se eu fosse um objeto.
Inclinei a cabeça, mantendo o olhar cravado no dela.
— Errado. Você não foi entregue como um objeto. Foi entregue como um pagamento. E eu não devolvo pagamentos.
Ela desviou o olhar por um segundo, e eu percebi. Fraqueza momentânea. Me levantei, dei alguns passos pelo quarto, parando perto da janela.
— Você parece corajosa, mas coragem mesmo é quando a gente encara sem ter pra onde correr. — Olhei por cima do ombro. — Você já encarou alguém como eu antes, Lorena?
— Não. — Ela respondeu, firme, mas a respiração acelerada denunciava outra coisa.
Sorri de lado.
— Então não crie expectativas de que vai sair daqui me desafiando e vencendo.
Voltei para perto, ficando a poucos centímetros dela. Não precisei tocar. Apenas baixei a voz, deixando cada palavra pesar.
— Aqui, você vai aprender que liberdade não é fazer o que quer, é entender os limites de quem manda.
Ela apertou as mãos no colo, como se quisesse conter qualquer reação. Eu sabia que estava mexendo na medida certa. Nem rápido demais para quebrá-la, nem lento demais para deixá-la confortável.
— E se eu não aceitar? — Ela ousou perguntar.
Cruzei os braços.
— Não é uma questão de aceitar. É uma questão de se adaptar. Quem não se adapta sofre.
O silêncio que se seguiu foi denso. Ela me olhou como se tentasse ler algo no meu rosto, mas comigo não existe brecha. Eu só mostro o que quero que vejam.
Me afastei, caminhando até a porta.
— Vista-se. Vamos tomar café. E não demore.
Saí sem esperar resposta. Eu sabia que ela viria. O segredo está em não pedir, mas ordenar de forma que a pessoa sinta que não há outra opção.
Na sala de jantar, já sentado, ouvi seus passos no corredor. Quando entrou, não tirei os olhos do jornal à minha frente. Só falei quando ela se sentou.
— A partir de hoje, você vai conhecer cada canto dessa casa. Vai ter tudo que precisar, menos a saída.
Ela respirou fundo.
— Por quanto tempo?
Virei a página do jornal como se a pergunta fosse irrelevante.
— Pelo tempo que eu quiser.
E vi, pelo canto do olho, que dessa vez ela não tinha resposta.