Solange narrando
Chego em uma das academias do meu pai e sorrio cumprimentando a todos na recepção. Passo pelos aparelhos comuns e aceno para meus conhecidos:
— Minha princesa, no que posso te ajudar? — abraço meu pai que sorri me vendo pela segunda vez ao dia.
— Como foi sua aula?
— Boa, mas preciso ensaiar. Posso usar o estúdio daqui? Sei que não tem aula lá agora — digo fazendo beicinho, e ele revira os olhos.
— E eu aqui iludido achando que minha linda bebê estava com saudade de mim — ele afirma, e rio, apertando-o ainda no abraço.
— Por favor, preciso conseguir um bom papel na próxima apresentação. Tenho que ensaiar.
— Eu já falei que pago o papel para você. Se quiser, você dirige toda uma apresentação — ele diz, e rio negando.
— Minha nepo baby favorita — meu irmão diz, aparecendo em seu terno justo. Ele está fazendo advocacia e já estagiando na empresa publicitária da família.
— O que veio fazer aqui? — pergunto, abraçando-o, e ele me levanta do chão rindo.
— Tio Martin veio treinar e peguei uma carona. Daqui, pego carona com nosso pai para irmos para casa.
— Você pode me ajudar? Preciso de alguém para me erguer na dança — peço, e ele n**a com a cabeça.
— Ajuda sua irmã. Eu vou ficar algumas horas aqui gravando conteúdo e depois ver umas coisas no escritório. Faz tudo o que ela pedir — sorrio ao meu pai que tanto me mima, e meu irmão revira os olhos e rosna, mas mesmo assim me acompanha.
— Ravi, eu te amo, maninho — afirmo, ficando nas pontas dos pés e beijando sua bochecha.
Com um braço, ele me levanta, e grudo nele rindo até chegarmos à maravilhosa sala de dança.
Um dos seus lados é totalmente de vidro para o restante da academia ver, mas o outro é coberto de espelhos, com caixas de som vindo discretamente do teto. A enorme barra lateral foi instalada a um pedido meu e é um dos meus lugares favoritos.
Em casa, até ensaio, mas nunca é a mesma coisa. Sempre tem aquela oportunidade de passar na cozinha, ficar na TV, na piscina, dormir em minha cama...
Sou colocada no chão e entrego meu celular ao Ravi, que conecta minha playlist ao Bluetooth do espaço.
Começo a me aquecer, e logo ele se junta a mim, usando sua regata e calça social, descalço e com suas coisas dobradas no canto.
Começo a observar as pessoas que treinam, e um aglomerado chama minha atenção. Algumas pessoas tiram foto com um rapaz:
— Ele é blogueiro? — questiono, apontando com a cabeça, e meu irmão n**a.
— É o novo agenciado da empresa. É uma promessa do Muay Thai. Nosso pai está treinando ele.
Está morando no nosso condomínio, na casa do contrato — é a mansão antiga do nosso pai, e até agora já moraram cinco atletas lá. As festas sempre são animais.
— Ele é bem gatinho — digo, e um dos ciumentos que me protegem me encara com raiva.
— Nem vem, irmã. Eu te proíbo — ele diz, e dou risada de seu ciúmes.
— Vamos ensaiar, vai. Eu preciso que você me segure bem no alto, me levante sob sua cabeça com os braços totalmente esticados. Consegue?
— Vou tentar.
Caminho até o som e coloco "Le Parc" de Philip Glass, uma peça sensual e intensa.
Ajusto minhas sapatilhas de ponta, sentindo a familiaridade do tecido envolvendo meus pés. O espaço ao meu redor se dissolve, e a música começa a preencher a sala.
O som pulsante de cada nota parece guiar meus movimentos, envolvendo-me em um transe quase hipnótico.
Os primeiros movimentos são leves e graciosos, meus braços fluem com a melodia, e meus pés se movem como se estivessem deslizando sobre a superfície da lua.
Sinto cada nota reverberar dentro de mim, uma dança de emoções que se expressa em cada gesto. A música se torna uma extensão do meu corpo, cada acorde uma nova onda de sensações percorrendo minha pele.
Ravi me observa com atenção, esperando o momento certo para me levantar. A aproximação é crítica, e quando o salto chega, ele se esforça, mas não consegue me segurar.
Quase caio no chão, rindo da situação. Tentamos mais três vezes, cada tentativa mais frustrante que a anterior, até que ele desiste:
— Isso é impossível, Sol. Precisas de alguém mais forte, vou tentar chamar nosso pai ok?
— Você tentou maninho, muito obrigada — digo sincera, indo beber água.
É nesse momento que ele aparece. Alto, musculoso, com uma presença que não passa despercebida. Ele se aproxima com um sorriso confiante:
— Olá_ ele diz calmo e sorrio
_Oi_ devolvo a simplicidade e ele sorri
_ qual é seu nome? Sou Alejandro Velasquez — diz, estendendo a mão. Seu sotaque latino-americano é envolvente.
— Solange. Pode me chamar de Sol
_Sol... você dança muito bem, não consegui não ver você naquela sala
_muito origada pelo elogio, mas minha dança seria muito melhor se eu conseguisse treinar essa última parte com alguém que pudesse me segurar
— Eu consigo_ ele diz me fazendo rir
_e você faria isso por alguém que acabou de conhecer?_ pergunto e vejo sua seriedade ao confirmar
_sim, e eu nunca te derrubaria — ele afirma com um brilho nos olhos.
Levanto uma sobrancelha, desafiando-o silenciosamente, e o levo até a sala de dança, chegando ao estúdio, paro em frente ao espelho, olhando para o reflexo de Alejandro ao meu lado:
— Vou te mostrar a coreografia primeiro — digo, ajustando minhas sapatilhas e me posicionando. — mostro o video que tenho e ele sorri
— é uma linda apresentação, mas vamos melhorar ela— ele comenta, seus olhos fixos em mim.
Começo a dançar, mostrando os movimentos com graça e precisão. Cada gesto é uma expressão de emoção, cada passo uma narrativa de paixão e desejo.
Alejandro observa atentamente, quase obcecado, seus olhos seguindo cada curva do meu corpo, cada linha desenhada no ar:
— Agora vem a parte mais crítica — digo, parando diante dele. — Nesse momento, você precisa me erguer e andar comigo como se estivéssemos desenhando um símbolo do infinito no ar.
— Entendi — ele responde, mas vejo a determinação em seus olhos.
— Vou te explicar detalhadamente. Quando eu der o salto, você precisa estar pronto para me segurar firmemente pela cintura. Seus braços devem estar totalmente esticados acima da cabeça, e suas mãos, firmes em minha cintura, mas sem apertar demais. A ideia é que pareça que estou flutuando. Depois, você começa a andar comigo, seguindo uma trajetória em forma de oito.
Alejandro assente, absorvendo cada palavra. Seus olhos não deixam os meus, e posso sentir a intensidade do seu foco.
— Vamos tentar uma vez sem a música — sugiro, posicionando-me novamente. — Lembre-se, é essencial que seus movimentos sejam suaves, mas seguros. Você precisa transmitir confiança para que eu me sinta segura em seus braços.
— Claro, Sol — ele diz, sua voz grave e suave ao mesmo tempo.
Nos preparamos e começo a dança novamente, desta vez com Alejandro participando para minha surpresa. Quando chega o momento crítico, dou o salto e sinto suas mãos firmes em minha cintura, me erguendo com facilidade. Seus braços estão fortes e seguros, e começo a desenhar o símbolo do infinito no ar com nosso movimento sincronizado:
— Isso! Perfeito, Alejandro! — exclamo, sentindo uma onda de excitação e alívio.
Ele sorri, mas seus olhos ainda estão focados, quase obcecados com a precisão e a perfeição do movimento:
— Vamos fazer com a música agora — digo, ligando o som.
Recomeço a dança, sentindo o olhar fixo dele em mim, transformando cada movimento em algo mais sensual. Meus braços desenham curvas no ar, minhas pernas se estendem em linhas perfeitas, e cada passo é uma declaração de desejo silencioso. A proximidade de Alejandro, seu cheiro, sua presença imponente, tudo contribui para intensificar minhas sensações.
Quando o salto chega, Alejandro me segura firmemente. A força e segurança dele são evidentes, e pela primeira vez, sinto que voei. Seus braços ao redor de mim são um suporte inabalável, a eletricidade de seu aperto em mim causa um frio em minha barriga e sorrio com isso.
Guiando-o depois, mostramos uma sincronia perfeita, a dança fluindo como se sempre tivesse sido assim. Cada toque, cada contato, é uma descarga elétrica que percorre meu corpo. Ele me levanta, me gira, nossos corpos se movendo em perfeita harmonia. A sala de dança se torna um palco de emoções cruas e intensas.
Quando a música termina, estou perdida no olhar dele, que me observa de forma possessiva, sem sequer piscar. Seus olhos são um abismo de desejo e intensidade, e sinto meu coração acelerar, minhas respirações se tornarem mais profundas e rápidas.
Nesse momento, meu irmão e meu pai entram na sala, morrendo de ciúmes e mandando que eu me afaste:
— Sol, mantenha distância! — Meu pai ordena, sua voz firme quebrando o encanto.
Alejandro, ainda segurando minha mão, sorri desafiadoramente, seus olhos nunca deixando os meus.
É como se uma corrente invisível nos ligasse, uma tensão palpável preenchendo o ar ao nosso redor. Meus lábios entreabertos, minha pele arrepiada, e meu coração batendo descompassado são testemunhas do turbilhão de emoções que essa dança despertou.
Mas, por ora, tudo o que posso fazer é me afastar lentamente, cada passo uma luta contra o desejo de ficar mais perto dele.