Ponto de Vista de Christina
A viagem até o meu apartamento, que eu quase nunca usava, passou como um borrão. Eu não punha os pés ali havia meses, desde que a mãe do Niall me convidou para morar no casarão da alcateia e planejar o casamento. Que piada aquilo acabou sendo.
Quando cheguei à porta, me enrolei toda com o painel de segurança. A dor percorreu cada centímetro do meu corpo, e cerrei os dentes, me recusando a desmaiar como uma i****a na soleira de casa.
Código errado. De novo. E de novo.
A frustração transbordou. Dei um chute no batente com o calcanhar — um gesto miserável que não serviu para nada além de mandar uma fisgada de dor pela minha perna. Claro. O universo tinha decidido que hoje seria o dia do meu papel principal numa comédia cósmica. Desabei contra a parede e escorreguei até o chão enquanto os soluços rasgavam minha garganta.
Por que todo mundo sempre favorecia a Beatrice?! Eu já não tinha sofrido o bastante? Sempre em segundo lugar na minha própria família, apenas uma substituta no coração do meu companheiro?
Quando eu já estava quase engasgando com o próprio choro, uma voz grave soou atrás de mim:
"É a minha porta que você está atacando aí."
Ótimo. Mais um maldito problema.
"O quê?" rosnei, virando para encará-lo.
O homem parado ali era… devastador. Não bonito no estilo galã como o Niall, mas com um tipo de masculinidade rústica. Alto e forte, com maçãs do rosto marcadas e um maxilar firme. Os cabelos escuros estavam um pouco bagunçados, e aqueles olhos azul-acinzentados eram penetrantes, como se enxergassem minha alma. Parecia o tipo de Alfa que não só vencia batalhas, mas apagava seus inimigos da história por completo.
"Se você pretende arrombar, vou precisar dos dados do seu seguro primeiro", ele disse, totalmente sem expressão.
Minha garganta secou.
"E—eu sinto muito. Achei que este fosse o meu apartamento."
Ele inclinou a cabeça, com um olhar ilegível.
"Dia difícil?"
Meu rosto queimou de vergonha. Ótimo. Rejeitada, machucada e agora parecendo uma completa i****a diante do homem mais deslumbrante que eu já tinha visto.
"Pode dizer que sim", murmurei, me levantando do chão e tentando manter alguma dignidade, mesmo parecendo um guaxinim que acabou de sair de um lixão em chamas.
"Devagar aí, furacão." Ele arqueou uma sobrancelha, indicando a porta do outro lado do corredor. "Acho que aquela ali é a sua."
Furacão? Era para eu ter ficado irritada, mas do jeito que ele falou, meu estômago deu um salto estranho.
"Eu sei onde moro."
"Não foi o que pareceu."
"Tudo bem", murmurei, tentando ajeitar meu vestido destruído. "Obrigada pela aula de geografia."
"Precisa de ajuda com o seu código?"
"O que preciso é que este dia reinicie como um iPhone travado, mas valeu pela oferta."
Caminhei até a minha porta, fingindo compostura e elegância. Como se a mulher surtada que acabara de ter um colapso não fosse eu. Enquanto digitava o código, sentia aqueles olhos intensos acompanhando cada movimento meu. Vamos lá, dedos, andem mais rápido.
Bip — finalmente.
Olhei por cima do ombro. Ele ainda estava me observando, de braços cruzados.
"Desculpa pela sua porta", murmurei.
"Eu sobrevivo."
Fechei a porta e me encostei nela. Aquilo foi humilhante. Meu vizinho devastadoramente bonito provavelmente achava que eu era uma lunática e, honestamente? Ele não estava errado.
Espera — devastadoramente bonito? Merda. Eu realmente estava pirando.
Desabei na cama, exausta. Akira m*l respirava dentro de mim, ferida pela rejeição, com seus sentidos antes afiados agora totalmente embotados.
"Vamos nos curar", sussurrei para ela.
Nenhuma resposta. Ótimo. Até a minha própria loba estava me ignorando.
Não sei quando comecei a me perder por causa dele. Talvez tenha sido na primeira vez em que ele olhou para mim como se eu não fosse suficiente. Descolori meu cabelo até o couro cabeludo arder porque ele disse que eu era sem graça com meu "castanho sem sal". Enfiei meus pés em saltos que me deixavam cheia de bolhas, só para ele zombar: "Por que você está andando como uma girafa recém-nascida? A Beatrice corria de salto."
Me arrastava para a cozinha antes do amanhecer, cozinhando refeições que eu nunca comia, passando camisas que não eram minhas. Quando a alcateia me humilhava, ele não me defendia. Só me lembrava que eu devia agradecer por "me aceitar".
Agora eu percebo — ele nunca me viu de verdade como sua companheira. Sua única. Eu era o projeto dele. A serva dele. Um tampão até ele encontrar o que realmente queria.
Por quatro longos anos, eu fiquei.
O peso dessa verdade me esmagou. Meu peito doía a cada respiração. Que patético ter entregado tudo de mim por um homem que nunca tentou me conhecer. Meu coração exausto precisava descansar. Me encolhi no travesseiro molhado e deixei a escuridão me levar.
Dois dias se passaram antes de eu acordar de novo.
Chamei Akira com cuidado:
"Você está bem, Akira? Consegue me ouvir?"
Akira se mexeu, fraca, na minha mente:
"Chrissy, estou estranha. Não consigo mais sentir o cheiro de nada."
Congelei, tentando captar qualquer aroma. Nada.
"Talvez seja só temporário por causa de toda a dor", disse para Akira, sem saber se estava confortando a ela ou a mim mesma. "Vai voltar depois."
A cauda dela caiu, sem força, na minha mente. Não conseguir sentir cheiros significava que ela não podia identificar possíveis companheiros — uma perda devastadora para qualquer loba. Mas não havia nada que pudéssemos fazer agora.
Deixei que ela descansasse e chequei minhas mensagens. Estranhamente, meus pais não tinham me bombardeado com conexões mentais ou ligações desde o primeiro ataque de fúria.
Esse noivado tinha sido o bilhete dourado deles para uma aliança com a Alcateia Frostpelt. Um casamento com uma das três maiores alcateias do Norte não era algo que eles abandonariam facilmente. Nenhuma das filhas podia herdar a liderança da Alcateia Crescent, mas casar com um Alfa poderoso? Isso garantia o futuro próspero da nossa alcateia.
Suspeito.
Parte de mim se perguntava se Niall tinha dito algo para mantê-los afastados. Talvez até estivesse se sentindo culpado? Improvável. Mais provável que estivesse planejando o próximo movimento.
A campainha estourou minha sessão de autopiedade. E não parou de tocar. Por cinco minutos.
Gemi. Interação social horrível.
Arrastando minha carcaça até a porta, puxei a maçaneta.
Ysolde Carlisle, minha melhor amiga e a única pessoa com direito legal de gritar comigo, estava ali com os olhos semicerrados e duas sacolas de comida. Então o olhar dela caiu no meu rosto.
"O que diabos aconteceu com você? Sério?"
"Estou dando uma reformada na cara — a simetria estava ficando sem graça", respondi com um encolher de ombros preguiçoso, mesmo com cada músculo do meu rosto doendo.
Ela não comprou essa porcaria nem por um segundo. Estendeu a mão e ergueu meu queixo com cuidado para examinar a pele rachada na minha bochecha.
"Quem encostou a mão em você?"
"Entra logo", murmurei, apressando-a — não precisava que o quarteirão inteiro fofocasse sobre minha cara arrebentada.
A porta bateu atrás de nós, e desabei nos braços dela, toda a minha força indo embora. Depois de um tempo, uma única palavra escapou, baixa e quebrada.
"Niall."
Ysolde ficou rígida.
"Nem a p*u", sibilou. "Niall? O Niall que é seu companheiro? O cartaz ambulante de comportamento diplomático perfeito?"
Assenti, sentindo os olhos queimarem.
"Me conta tudo. Não deixa nada de fora."
Então eu contei. A foto da Beatrice. O tapa. A rejeição formal.
Quando terminei, Ysolde parecia pronta para cometer um assassinato.
"Aquele desgraçado", ela sibilou. "E por quê? Por causa da sua irmã maluca que nem está aqui? Juro pela Deusa, Chrissy, a Beatrice podia estar em outro continente e ainda ia dar um jeito de destruir sua vida."
"Talvez seja melhor assim. Pelo menos descobri que tipo de companheiro ele realmente é antes de a gente se casar."
Meu estômago roncou alto.
Ysolde ergueu uma sobrancelha e levantou as sacolas de comida. "Ainda bem que eu vim preparada."
Entre uma garfada e outra, franzi a testa. "Você não acha estranho meus pais não terem ligado? Eles queriam tanto esse casamento, mas agora... nada."
Ysolde deu de ombros. "Devem estar tramando alguma coisa. Seu pai não é do tipo que desiste fácil dos planos dele."
Depois do jantar, Ysolde me empurrou para o banheiro para tomar banho enquanto ela arrumava tudo. Fiquei debaixo da água quente, tentando lavar quatro anos de ilusão.
Pelo vão da porta, ouvi ela ao telefone. Peguei só pedaços.
"i****a completo."
"Que babaca."
"Você não vai acreditar no que ele fez com ela—"
Ela provavelmente estava falando com Zane Carlisle, o irmão dela. Diferente do Niall, Zane tratava as mulheres com respeito.
O jeito como Ysolde escolheu meu lado tão rápido, tão ferozmente, deixou minha garganta apertada. Ela acreditou em mim sem hesitar. Quando todo mundo ficaria do lado do Niall, ela declarou guerra por minha causa. Isso não era pouca coisa. Enfrentar a alcateia do Niall podia trazer problemas sérios para a alcateia pequena da família dela.
Me enrolei na toalha e suspirei. Por que meus pais não podiam me amar assim?
De repente, fui atingida por ondas de dor excruciante, cada uma atravessando meu abdômen como uma facada. Cada choque queimava no meu pescoço, onde a marca do Niall ainda não tinha desaparecido. Caí no chão do banheiro com um grito.
Ysolde arrombou a porta.
"Chrissy! O que aconteceu?"
Eu m*l conseguia falar. "Analgésico... por favor..."
Ysolde me ajudou a levantar e saiu correndo para pegar o remédio. Agarrei meu estômago, mordendo o lábio para não gritar de novo. Isso era diferente da dor da rejeição.
Akira uivava de agonia dentro de mim.
"É traição do companheiro", ela sussurrou, fraca.
"O quê? Mas eu já rejeitei ele—"
"A marca no seu pescoço ainda não sumiu completamente", Akira explicou através da nossa dor.
Sério? Ele me rejeitou e já saiu correndo para se deitar com outra? Não podia ao menos esperar o nosso vínculo quebrar de vez antes de correr para a cama de outra mulher?
Ysolde voltou com os analgésicos e água. Depois que eu engoli tudo e as piores ondas passaram, ela se sentou ao meu lado, com pura fúria queimando nos olhos.
"Aquele desgraçado", ela rosnou.
Assenti, fraca.
"Sabe de uma coisa?" Ysolde se levantou. "Que se dane. Você não devia ter que passar por essa dor sozinha, ele precisa sentir um pouco do próprio veneno."
Olhei para ela sem entender.
"Se veste", ela ordenou. "O Niall não é a última bolacha do pacote, e com certeza não merece o seu luto. A gente vai sair para achar alguém que não precise da foto da ex para funcionar na cama."
Pisquei. "Fui rejeitada e a sua solução é... balada?"
Ela tacou roupas na minha cara. "A minha solução é te lembrar que você é a p***a da Christina Vance, e a rejeição de um Alfa não te derruba."
Olhei para ela. Cada parte de mim queria voltar para a cama e sumir. Mas ficar aqui me afundando enquanto o Niall provavelmente estava comemorando com outra? p***a nenhuma!
"Tá bom", falei, me arrastando para levantar. "Mas se eu desmaiar na pista, você vai ter que me carregar para casa."
Ysolde sorriu, maliciosa. "Confia em mim, hoje você não vai precisar de resgate."