Capítulo 3

1877 Words
  Ponto de Vista de Christina   "Você não acha que eu estou parecendo uma prostituta? Eu realmente preciso usar isso?", resmunguei, puxando a minha saia minúscula que mostraria minha calcinha se eu simplesmente espirrasse.   "Querida, não é vulgar — é ousado e sexy", disse Ysolde, vestida como uma rainha da máfia e firme contra o vento gelado em seus saltos de quinze centímetros. "E não se desvalorize desse jeito."   "Mas isso não é meio...?" Nem terminei antes de uma rajada brutal de vento me estapear. Apertei imediatamente meu casaco de pele indecente ao redor do corpo e me encolhi como um camarão congelado.   Ysolde soltou um gemido. "Chrissy, vamos lá. A gente está indo para o clube de Alcateia mais exclusivo de Highrise City, não para uma expedição no Ártico."   "Eu só estou feliz por não acabar internada com hipotermia hoje à noite, obrigada", retruquei.   Ela revirou os olhos. "Você não tem um casaco de pele? Sabe, aquele que vem naturalmente?", disse, claramente questionando por que uma loba estava reclamando de frio.   Rosnei de volta: "Porque eu estou na forma humana agora!"   Eu achava que a gente teria que esperar na fila como todo mundo. Era justamente por isso que eu estava usando esse casaco de pele. Mas, claramente, subestimei Ysolde.   Ela não tinha a menor intenção de seguir regras.   Com a facilidade de quem já fez aquilo milhares de vezes, ela enfiou uma nota dobrada na mão do segurança, a palma roçando casualmente o peitoral de pedra dele como uma Bond girl que esqueceu o martíni.   Dez segundos. Foi tudo que levou. Estávamos dentro.   Ysolde tinha aquele tipo de beleza que fazia homens esquecerem o nome e a namorada em dois segundos.   Entramos deslizando no Luna's Eclipse. Era o clube mais exclusivo de Highrise City, onde lobos ricos jogavam política por cima de drinks absurdamente caros.   O lugar era denso de calor, perfume e o cheiro efervescente de champanhe.   Arranquei meu casaco assim que pisamos lá dentro, só para receber de Ysolde um olhar que dizia tudo: Você está tentando me humilhar?   Ela entregou o próprio casaco a um garçom que passava com um simples movimento de dedos, como se tivesse contratado o homem pessoalmente.   Tentei copiar o gesto. Falhei miseravelmente. Quase deixei minha bolsa cair.   "Deusa da Lua!", arfei, com os olhos grudados no menu como se ele estivesse assaltando meu cartão.   Ysolde me lançou um olhar de lado e bufou. "Como assim o Niall nunca gastou dinheiro com você? Que mão de vaca."   "Relaxa. Hoje é por minha conta."   Suspirei de alívio. Considerando que fui rejeitada pelo meu companheiro, tive meu casamento cancelado, e meus pais estavam planejando me expulsar do território para virar uma renegada, eu precisava de uma fortuna só para comprar spray de disfarce de cheiro e impedir o Niall de contratar alguém para me matar.   Ignorando os preços, a vista era de elite — Jovens Gammas promissores, futuros Alfas gatos, e um enxame de caras do mercado financeiro que pareciam dar palestras no TED sobre dominar Wall Street usando ternos sob medida.   Sinceramente, era uma sala cheia de exibidos e aspirantes a galã, todos escondidos sob a luz baixa.   Achamos uma mesa perto do bar e o bartender imediatamente travou o olhar na gente.   Bom. Difícil não notar — alto, traços perfeitos, mangas dobradas até os cotovelos só o suficiente para mostrar antebraços bem treinados.   Ele não deveria estar fazendo drinks. Ele deveria estar estrelando anúncios de perfume da Dior ou modelando cueca masculina sexy. Ou, no mínimo, estampando a capa de um romance sobrenatural para shifters.   Talvez fosse por isso que aquele clube era tão caro — até os funcionários tinham que ser perfeitos.   "Dois 75s, uísque", Ysolde pediu antes mesmo de eu encontrar a bebida mais barata no menu. "Bem forte."   E claro, ela não esqueceu de mostrar o sorriso perfeito, com o queixo inclinado só o bastante para dizer: "Ops, nem queria flertar."O bartender alcançou o gim com a maior facilidade. "Noite difícil?"   "Mais pra um desastre nível rejeição," ela disse, apontando o polegar pra mim sem cerimônia. "E vai terminar bem rapidinho."   Lancei um olhar pra ela. "Que bom saber que minha vida pessoal agora é transmissão pública."   Ela deu um tapinha na minha mão. "Querida, esse lugar funciona à base de catástrofes amorosas. Sem decisões ruins, ninguém compraria bebida."   Então se virou e sumiu no meio da multidão, entrando no Modo Rainha Social como se alguém tivesse apertado um botão.   Em menos de dez segundos, fez um varrido visual e girou de volta, apontando para a beira da pista de dança.   "Certo, escuta. Você precisa de um rebote. Alvo A: metro e noventa e poucos, corretor financeiro estilo Manhattan, terno que vale mais que o seu aluguel mensal, corte de cabelo que grita 'meu terapeuta custa mais que o seu carro'. Vai te levar para jantares chiques e depois te dar um ghost por causa da carteira de ações."   Balancei a cabeça. "Não."   Os olhos dela dispararam para uma nova direção. "Alvo B: tipo artista parisiense atormentado. Parece que sobrevive exclusivamente de cigarro e angústia existencial. Vai escrever poesia sobre seus olhos e depois pedir 'emprestado' dinheiro para material de arte que de alguma forma sempre acaba sendo maconha e delivery."   "Passa."   Ela suspirou e apontou de novo. "Tá bom. Alvo C: músico sensível com um 'EP promissor saindo mês que vem'. Tradução — você vai sustentá-lo financeiramente enquanto ele se encontra através da arte pelos próximos dez anos."   Gemi nas próprias mãos. "Ysolde, pelo amor."   Ela não recuou. "Chrissy, você não pode ficar aqui como um enfeite de parede. Esta noite é sobre reiniciar sua vida, não sobre remendar feridas emocionais."   Bem quando ela se preparava para uma quarta rodada de recomendações de rebote, de repente congelou. Era como se alguém tivesse apertado o mudo em todo o seu sistema.   Então, casual demais, ela disse: "Quer ir ao banheiro?"   Estreitei os olhos. "Não?"   "...Ou talvez a gente mude de mesa? A vibe aqui está estranha." O sorriso dela estava tenso.   Vibe estranha? m*l tínhamos sentado há dez minutos, e os drinques tinham acabado de chegar. Pelos padrões de Ysolde, m*l estávamos aquecendo.   Então segui o olhar dela.   Um camarote meio reservado.   Niall.   Ele tinha o braço enrolado em torno de uma mulher. A cabeça dela repousava no ombro dele, a maquiagem impecável, o sorriso polido e sem esforço.   Mas essa não era a pior parte.   Eles estavam se beijando. Beijos profundos, famintos.   A mulher estava sentada no colo dele, o vestido subindo, as mãos de ambos percorrendo os corpos um do outro como se estivessem a segundos de se despir ali mesmo no clube.   Meu estômago revirou. A cena era repugnante, obscena.   Não precisei de mais detalhes sobre quem ela era.   Aquele rosto, nunca esqueceria.   Quatro anos atrás, a mulher generosamente me "presenteou" com o namorado dela como meu companheiro destinado, deixou uma carta comovente e desapareceu para o exterior. Agora estava ali, descaradamente enrolada no colo do meu companheiro, transformando o clube inteiro no palco pessoal da traição deles.   Tinha me dito que havia superado. A gente tinha terminado. Estava feito. Hora de seguir em frente.   Até ouvir o que veio a seguir.   "Honestamente, não achei que ela fosse ter um colapso total por causa de um porta-retrato." A voz de Beatrice pingava falsa piedade enquanto ela se afastava do beijo.   "Coloquei aquela foto onde ela ia ver. Ela ainda não sabe das suas 'viagens de negócios' para a Europa por minha causa. Está na hora de ela ter uma dica, não acha?"   Ela olhou para Niall com adoração. "Querido, sua atuação foi perfeita. Até eu quase acreditei que você se importava com a foto em vez de estar cobrindo a nossa traição."   Niall deu uma risada. "Tinha que parecer chateado. Ela passa todos os dias tentando ser perfeita para mim. Se soubesse que todo o esforço ainda não consegue competir com você, ela perderia completamente o controle."   Beatrice riu suavemente, dando tapinhas no peito dele. "Não se preocupa. Conhecendo a Chrissy, ela provavelmente ainda está tentando consertar as coisas. Ela sempre acredita que se tentar o suficiente, as pessoas vão reconhecer seu valor."   "Quanto mais ela tenta, mais patética fica." Beatrice sorriu. "E eu 'por acaso' voltei para casa. Meus pais não sabem de nada. Ela mesma terminou, então você está isento de culpa."   Niall acenou com a cabeça. "Conversei com os seus pais. O casamento ainda está de pé — só muda a noiva."   Beatrice sorriu em triunfo. "Final perfeito, né? Nunca desisti de você. Só esperei ela se afastar."   Ela se inclinou mais. "Sabe como ela tentou copiar tudo de mim? O cabelo descolorido, as mudanças de estilo, até o jeito de falar? Meu Deus, era hilário ver as tentativas patéticas dela."   Niall bufou. "Igual a uma cópia de liquidação."   "Embora eu achasse que companheiros destinados eram para se amar profundamente?" A voz de Beatrice ficou curiosa. "Vocês dois não deveriam estar...?"   O rosto de Niall escureceu.   Minhas mãos tremiam tanto que m*l conseguia segurar a bebida. As peças estavam se encaixando, e Akira ganhou dentro de mim.   "Ele estava traindo muito antes da rejeição," ela sussurrou fracamente. "É por isso que estamos em tanta agonia."   A percepção me atingiu como um soco no estômago. Quando há infidelidade depois de ser marcada, a i********e com outra pessoa fora do laço causa dor extrema ao parceiro. Mas a distância pode mascarar a dor imediata da traição — ela apodrece no laço em vez disso.   Todas aquelas "viagens de negócios" para o exterior. Todas aquelas vezes que ele visitou Beatrice. O laço de companheiros havia se deteriorado lentamente, acumulando dano que não podíamos sentir por causa da distância.   Quando Niall me rejeitou, aquela dor de rejeição se combinou com meses de trauma de traição acumulado. Estava nos destruindo as duas.   Não era à toa que eu sentia que estava morrendo. Não estava lidando apenas com a rejeição.   Estava lidando com meses de traição oculta finalmente vindo à tona de uma vez.   Beatrice percebeu a expressão sombria de Niall e rapidamente recuou. "Estou só brincando, bobão. Sei que sou a única no seu coração."   As palavras picaram como humilhação disfarçada de brincadeira. Era o tipo de piada que se esperaria num clube de comédia, não da própria irmã e do próprio companheiro. Engraçado, né? Como as pessoas que melhor nos conhecem são as que conseguem cortar mais fundo.   Akira se mexeu dentro de mim, o rosnado baixo e faminto por vingança.   Ysolde estava me implorando para ficar calma, para não fazer nada e******o. Mas a voz dela não passava de ruído de fundo.   Eu não era mais a mesma Christina que engolia o próprio orgulho em troca de elogios.   Me soltei da mão de Ysolde e me virei para o bartender. "O seu melhor champanhe. Coloca na conta de Niall Granger."   O bartender me entregou a garrafa.   Com ela na mão, marchei direto na direção de Niall e Beatrice — o abraço deles tão entrelaçado, tão teatral, que parecia uma cena de novela das três da tarde.   Levantei a garrafa e a esmaguei com toda a minha força.   O vidro se estilhaçou com um estalo agudo. A testa de Niall se abriu instantaneamente, uma linha fina de sangue traçando caminho entre as sobrancelhas dele.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD