Ponto de Vista de Christina
Eu não podia ser filha deles. Só isso justificaria.
Como mais meus próprios pais seriam capazes de me tratar como uma ômega descartável, sendo que carrego o mesmo sangue Crescent que a Beatrice?
Akira, minha loba, rosnou na minha mente. "Eles não merecem a gente, Chrissy."
No instante em que pisoteei para dentro do meu apartamento, desabei na cama. Só me mexi quando meu celular começou a berrar.
Era a Ysolde.
"Você fugiu do jantar de família?" ela disparou antes mesmo que eu pudesse dizer alô. "Seu pai acabou de ligar para o meu perguntando para meio mundo da alcateia Carlisle se você estava escondida comigo."
"Bom, oi para você também", gemi, afundando a cabeça. "E não, não estou escondida. Só fiz um recuo estratégico depois de declarar minha independência."
"O que aconteceu? Espera, não me diga... O Niall fez mais alguma burrice monumental?"
Não esperei que ela começasse a adivinhar; desembuchei tudo de uma vez. A briga definitiva com o Niall.
Meus pais me obrigaram a assumir publicamente uma traição que nunca cometi.
E, sim… também contei sobre a noite de sexo.
Só deixei de fora o pedido de casamento.
Ysolde soltou um uivo tão alto que precisei afastar o celular do ouvido.
"Você teve uma noite de sexo com o seu vizinho?! Aquele que parece ter saído de um outdoor da Calvin Klein? E você não me mandou nem uma foto?"
Coloquei o celular no viva-voz e joguei no sofá.
"Ele não é só gostoso, Ysolde. Ele é um Alfa."
"Um Alfa?!" A voz dela subiu num tom que só cães ou lobisomens conseguiriam ouvir. "De qual alcateia?"
"Não sei. Não exatamente pedi as credenciais da alcateia dele enquanto ele tirava a minha—"
"Nem ouse parar aí, Christina Vance! Detalhes. Agora."
Enterrei o rosto no travesseiro. "Você é a pior melhor amiga da história das amizades lobisomem."
"E você está desviando", ela rebateu.
Sim, eu estava.
Nunca escondi nada de Ysolde. Nem mesmo quando Niall começou a mostrar as cores verdadeiras no ano passado. Nem quando a Beatrice 'acidentalmente' arruinou meu portfólio antes da competição de design.
Mas na noite passada…
Dormi com um homem cuja alcateia não consegui identificar. Só para lavar a memória de Niall da minha pele — por um minuto, uma hora, uma noite. O que fosse necessário para me sentir livre de novo.
"Pelo menos me diz isso," Ysolde pressionou. "Seus lobos se reconheceram? Alguma... atração de companheiros?"
Minha mão foi inconscientemente para o pescoço onde os dentes dele tinham roçado minha pele.
"Não sei," murmurei. "Akira estava... estranhamente quieta."
"Deusa da Lua," Ysolde respirou fundo. "Você precisa descobrir quem ele é."
"O que eu preciso é descobrir como lidar com meus pais tentando me leiloar para o próximo Alfa disponível agora que o Niall me rejeitou."
"Você sabe que sempre tem um lugar na nossa alcateia se as coisas piorarem."
Engoli em seco.
"Obrigada", consegui dizer. "Posso precisar disso antes do que imagina."
Olhei para o relógio e praguejei.
"Preciso ir trabalhar."
Agora que meus pais tinham deixado claro que eu era tão útil quanto um gato sem garras numa caçada, meu emprego era a única coisa que não podia me dar ao luxo de estragar.
Claro que eles acreditavam que eu trabalhava como barista no Ground & Pound.
Na cabeça deles, depois de ser marcada por Niall, eu deveria ficar em casa em tempo integral — uma Luna perfeita, sem ambições além da política da alcateia e, eventualmente, ter filhotes.
Eles não faziam ideia de que eu era, na verdade, a designer de joias em ascensão da Nyx Collective.
A cafeteria era só minha cobertura — minha forma de explicar onde eu sumia todo dia sem revelar que estava fazendo algo que meus pais controladores considerariam abaixo deles.
Arrastei meu corpo exausto até o Ground & Pound, já planejando minha rota de fuga para o estúdio depois.
"Chrissy."
Meu chefe, Benny, me recebeu como se eu fosse oficial de justiça — nervoso, suando, praticamente choramingando.
"Você não precisa vir hoje. Eu estava prestes a te ligar..." Ele encarou o chão como se ele pudesse se abrir e engoli-lo. "Você não está mais na escala."
Minha loba se eriçou. "Como é?"
"Você foi... demitida. Sinto muito mesmo. Eu não queria, mas..." Ele finalmente ergueu o olhar, os olhos arregalados de medo genuíno. "Seu pai passou aqui."
Meu estômago despencou mais rápido que uma pedra num lago.
"Disse que ia fazer todos os lobisomens de Highrise boicotarem a gente se eu te mantivesse no quadro." Benny não conseguia farejar política de alcateia, mas mesmo ele sabia que o Alfa Franklin não era alguém a se contrariar. "Desculpa. Não pude fazer nada."
"Ele é só um Alfa, Benny. Não o Rei Alfa de todas as alcateias."
"Talvez, mas ele tem a alcateia Crescent na palma da mão. E eles são metade da nossa clientela."
Respirei fundo. Gritar com Benny não adiantaria nada. Não era culpa dele.
Antes que Akira pudesse me incentivar a fazer alguma besteira, tipo me transformar ali mesmo e destruir a máquina de espresso, saí bufando.
Eu não odiava aquele emprego. Ser barista era só meu álibi.
O que realmente pagava minhas contas — o que ninguém na minha alcateia sabia, exceto Ysolde — era meu trabalho como designer de joias.
Desde que eu era filhote, meu pai dizia que eu era mediana. Comum. Sem nada de especial. Sempre que eu tentava brilhar, ele me empurrava de volta para a sombra da Beatrice.
Eventualmente, aprendi a me esconder. Enterrei minha ambição, me misturei à multidão.
Então não, não me importava em perder o emprego na cafeteria.
O que me deixava furiosa era que isso era claramente uma jogada de poder. A influência do meu pai estava estampada em tudo aquilo.
Era o castigo dele. A resposta dele a mim rejeitar Niall. Rejeitar o arranjo que teria ligado nossas alcateias. Mas Beatrice já havia tomado meu lugar nesse casamento ridículo. Por que ele simplesmente não me deixava em paz?
Ele estava me mandando uma mensagem: "Você não tem o direito de se afastar dos planos da alcateia. Posso destruir qualquer independência que você pensa ter conquistado com uma única palavra."
Se ele achava que eu voltaria rastejando, de barriga pra cima como costumava fazer, implorando pela aprovação da alcateia...
Podia uivar para a lua.
Eu não era mais a filhinha obediente dele.
Trinta minutos depois, empurrei a porta da frente da casa da alcateia.
Sem bater. Sem me anunciar pelo vínculo mental. Não me importava.
Eu tinha vindo pronta pra começar o segundo round da nossa disputa familiar.
Mas o que encontrei foi bem pior.
Meus pais estavam sentados no sofá, bebendo um vinho vermelho-sangue que valia mais do que meu aluguel, rindo — sim, rindo — com um homem que eu nunca tinha visto.
A cena parecia de catálogo. Parecia que tinham saído direto de um Manual do Jantar Perfeito para Futuros Alfas.
Ele era uma versão barata e pegajosa de um chefe de alcateia à moda antiga. Terno sob medida, camisa aberta demais — revelando uma moita de pelos no peito que parecia colada, tipo enfeite de feriado que deu errado. Tudo nele era exagerado: os dentes artificialmente brancos, o sorriso polido e inútil.
"Querida", minha mãe cantarolou, "venha conhecer o senhor Leonard Shaw, Alfa da alcateia Silver Heights. Você poderia aprender tanto com ele — sobre transformar talento de lobisomem em verdadeiro sucesso de alcateia."
Aquilo me atingiu como uma bala de prata no rosto.
Leonard sorriu de orelha a orelha. Os olhos dele foram direto para o meu pescoço, em busca de marcas de acasalamento.
"Prazer em conhecê-la, Srta. Vance," ele disse. "Espero muito que a gente possa correr juntos em breve. Sempre gosto de levar jovens lobas sob minha asa. Especialmente as sem companheiro e bonitas como você."
Não me dei ao trabalho de esconder a expressão.
Não era nojo. Era o olhar que um lobo dá antes de rasgar uma garganta.
Ele estava praticamente babando.
Conseguia ouvir o lobo dele uivando chamados de acasalamento na cabeça dele.
"Christina," meu pai avisou naquele tom de ameaça, "não seja grossa. Mostre o devido respeito ao Sr. Shaw como Alfa."
Não me movi. Não pisquei.
A risada da minha mãe ecoou, aguda e quebradiça, como uma raposa presa numa armadilha.
"As jovens lobas são tão temperamentais hoje em dia, não são?" ela disse para Leonard, com o tom ensaiado de uma Luna apaziguando um Alfa.
Leonard só deu de ombros. "Gosto de loba cheia de marra. Torna a caçada mais interessante."
Pois é, e eu gosto de caçadores que não usam balas de prata. Mas nem todo mundo tem o que quer na vida.
E meu pai — o mesmo homem que, dias atrás, tinha me dito para "deixar que ele cuidaria de tudo" — agora balançava a cabeça para Leonard, parecendo um funcionário de hotel de quinta categoria esperando por uma gorjeta gorda.
Foi aí que a ficha caiu.
Aquilo não era uma apresentação formal.
Era uma oferta.
Eu era o sacrifício colocado na vitrine naquela noite.
Aquela palhaçada não tinha nada a ver com me apresentar a um "macho Alfa promissor", mas sim com a negociação de uma nova aliança entre alcateias. Eu estava sendo anunciada ali como uma mera reprodutora, que por acaso vinha com um belo dote de brinde.
Quando Leonard finalmente foi embora, virei para encará-los.
"O que diabos foi aquilo?"
Minha mãe ergueu a taça de vinho e deu um gole triunfante.
"Aquilo", ela disse, "é seu futuro companheiro."