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1496 Words
Não fazia ideia de quanto tempo aqueles disparos estavam acontecendo, parecia que fazia horas. Estava encolhida num canto do sofá encarando a porta em minha frente, com a impressão que se aproximavam cada vez mais dali. Não se ouvia nada além daqueles disparos e a televisão que estava quase em seu volume máximo. No outro sofá, Luara parecia bem concentrada no filme que estava passando na televisão, parecia até alheia aos disparos que estavam ocorrendo. Ainda queria saber como ela se mantinha tão calma numa situação tão desesperadora como aquela. Quando uma rajada de tiros soa ao que parece na calçada da casa, levanto rapidamente, me colocando em pé ao lado do sofá. Com meu movimento brusco, Luara desvia a atenção do aparelho e me olha com o cenho franzido e, depois para a porta, aonde os disparos continuavam. Sem se alarmar, ela pega sua bolsa que não estava muito longe dela e tira de lá uma arma. Sim, uma arma. - Você tem uma arma? - digo abismada, quando ela a carrega com um movimento, notando detalhes rosas na mesma. - Você não tem uma? - Ela pergunta se aproximando da porta, não ousando sair, atenta ao que acontecia na rua. - Claro que não! Estou presa aqui, nunca Christian me daria uma arma! - Nem mesmo se fosse para me proteger, já que poderia usar contra ele mesmo. Ainda com o cenho franzido, ela me olha com a expressão confusa. - Do que você está falando? - Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, mais disparos ecoam e me agacho o máximo que posso no chão, protegendo a minha cabeça com as mãos. Meu coração neste momento, já estava ainda mais disparado e a minha respiração saia entre cortada. Me sentia a beira do pânico e da histeria. Não percebo quando Luara pega seu celular, apenas me dou conta de que andava de um lado para o outro com os olhos fixos no portão. - Atende, p***a. Vai. Atende - murmurava baixo, o cenho ainda franzido, como se estivesse esperando o pior - Merda! - Ela joga o celular no sofá, segurando com ainda mais firmeza a arma em sua mão. - Nós vamos morrer - digo baixo, ainda pressionando minhas mãos com força contra a minha cabeça - Nós vamos morrer - Repito como um mantra. Eu estava quase tendo essa certeza. - Cala a boca - Ela grita comigo, visivelmente irritada - Ninguém aqui vai morrer. E por ser mulher, achei que tivesse mais coragem. Como eu explicaria para ela, que não cresci em um ambiente como aquele? Que os tiroteios que vi, eram todos pela televisão e que meus pais tinham uma enorme aversão a lugares como aqueles e, talvez eu os entendia por quê, estava completamente vunerável, desprotegida e à mercê de bandidos. Uma verdadeira mistura aterrorizante. Eu admirava Luara, admirava toda aquela coragem que ela estava tendo naquele momento, acreditando que poderia nos proteger com aquela arma mas, a verdade era que ela não conseguiria e acabaríamos mortas. Quando começo a rezar e a chorar, consigo fazer com que ela pare de andar de um lado para o outro. - Para com isso. - Eu quero que Deus me perdoe por tudo. - Tudo bem. Mas tem que fazer isso logo agora? Abro meus olhos com as lágrimas escorrendo em meu rosto, deixando o quão assustada eu estava. - Eu posso morrer dentro de alguns minutos, quero poder pedir perdão antes que seja tarde demais. Ela revira os olhos impaciente. - Onde foi que o Christian achou você? - diz baixo, soltando o ar dos pulmões, balançando a cabeça de um lado para o outro. Como assim? Ela não sabia de toda a história que eu tinha com ele? Ou estava apenas se fazendo de egípcia? Me encolho novamente quando ouço mais disparos, como se estivessem dentro daquela casa. Continuo rezando, pedindo à Deus para salvar a minha alma e para não permitir que eu fosse para o purgatório, já havia sofrido demais naquela terra, não queria ter que sofrer mais. - Mais que p***a! - Ouço Luara gritar novamente, abro meus olhos mais uma vez, pronta para lhe dizer que cada um tinha sua fé, que entendia que ela acreditava que aquela arma iria nos ajudar, quando noto Christian e Rafael entrando as presas na casa. No instante seguinte, percebo que ambos apertavam determinadas áreas de seus corpos e apenas depois, percebo que estavam feridos, graças aos pingos de sangue no chão. Levanto lentamente, olhando fixamente para ambos, sem ter ideia do que fazer. - Que p***a, Christian - diz Luara ainda irritada. - Me pegaram desprevinido - Christian franze o cenho de dor, com a mão apertando a parte lateral de seu abdomên. - Rafa - digo com a voz urgente me aproximando, estendendo minhas mãos, notando que as mesmas tremiam - Você está baleado. Um sorriso trêmulo surge em seu rosto. - Não foi nada - sussurra, apertando o braço esquerdo. - Claro que foi! Você está sangrando. Você pode morrer! - Tira essa ideia fixa de morte da sua cabeça e vai atrás de algum pano para estancar esse sangue - diz Luara completamente impaciente, colocando a sua arma na cintura. - Pano - Repito, me afastando rapidamente, correndo para a cozinha, pegando dois panos de prato em um dos armários, voltando o mais rápido para a sala, não hesitando em pressionar um dos panos no braço de Rafael, sob o olhar incrédulo de Christian - Está doendo? - pergunto baixo, sustentando o olhar de Rafael que estava fixo em mim. - Não muito - diz ele no mesmo tom, parecendo hipnotizado. Então haviam mentindo, ao dizer que levar um tiro doía. - Me dá isso aqui - diz Luara, pegando bruscamente o outro pano, erguendo a camiseta de Christian, avaliando o estado do ferimento, antes de pressionar - Vai ter que ir no hospital, tirar essa bala. Ele a olha pelas pálpebras semicerradas. - Você não consegue tirar não? Poderia me anestesiar daquele jeito que só você sabe - Era impressão minha ou ele estava flertando com ela baleado? Christian conseguia ser inacreditável. - Tenho cara de enfermeira por acaso, Christian? - Ela questiona séria, pressionando com mais força o local, causando dor nele - Você precisa de um médico. Ele solta o ar dos pulmões, revirando os olhos. - Liga para o Matias - diz por fim. - E o Rafa? - digo olhando para Luara - Ele não tem que ir também para o hospital? - Ela se levanta, tirando o pano do braço dele, avaliando o estado. - Tem a saída da bala, não está tão feio quanto do Christian. Aqui poderia facilmente ser resolvido com uma linha e uma agulha - Rafael olha para mim, balanço a cabeça de um lado para o outro, me afastando deles. - Não. Nem pensar - digo no mesmo instante - Nunca costurei nada na minha vida e agora este seria o pior momento para aprender. - Não sou louco de deixar você fazer isso com meu irmão - diz Christian, causando um breve silêncio - Ele vai comigo. Olho para Rafael que tinha um meio sorriso em seu rosto. - Vou ficar bem, Laura. Não foi nada. Christian fuzila o irmão com o olhar, como se desacreditasse no que estava ouvindo. Eu não tinha culpa de Rafael sempre foi diferente dele, se ele sempre foi gentil. - Eu queria poder ir com você. - Mas não pode - diz Christian alto o bastante para que eu entendesse - Você deve ter alguma coisa para fazer nessa casa - Apesar das minhas tarefas estarem sob controle, ainda precisa cozinhar para Christian. - Já entendi - Dessa vez, foi a vez de Rafael encarar o irmão, causando um breve clima tenso na sala. - Vamos lá, vocês dois, antes que percam todo o sangue dos corpos de vocês - diz Luara, pegando em ambas as mãos e os “puxando” para levantar do sofá. Pelo menos ela parecia que se dava bem com os dois, era algo até bonito de se ver. Um dia já estive no lugar dela, já tive a admiração dos dois e a amizade. Ao se levantar, Rafael para na minha frente e como antigamente, puxa meu nariz com os dois dedos, me fazendo sorrir de imediato. - Tenta não surtar - Assinto ainda sorrindo, desejando só ter nós dois ali para eu poder abraçá-lo com força. - Não me faça ter que chamar você, Rafael - diz Christian, saindo da casa batendo os pés com Luara logo atrás. - Nos vemos depois - Ele sussurra para mim, piscando um dos olhos, antes de os seguirem, me deixando quase completamente sozinha naquela casa, já que Lord estava sentado na sacada, atento a tudo que estava acontecendo. Com um suspiro, olho para o cachorro e giro meus calcanhares, deixando a sala em direção da cozinha com meus pensamentos em Rafael.
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