A casa estava em silêncio quando chegaram.
A música do baile parecia distante agora, como se tivesse ficado em outra vida.
Sofia m*l conseguia andar sozinha. Gabriel a levou até o quarto, sentou ela devagar na cama. Ela estava quente do álcool, do choro contido, da noite inteira engolida.
— Fica sentada — ele disse, firme, mas baixo. — Vou pegar água.
Ela assentiu, mas quando ele virou, segurou a mão dele.
— Não vai… — pediu, a voz arrastada, frágil.
Gabriel parou.
— Sofia…
— Fica só um pouco — ela insistiu. — Minha cabeça tá girando.
Ele respirou fundo e sentou ao lado dela.
Pegou o copo d’água e colocou na mão dela.
— Bebe devagar.
Ela obedeceu, mas derramou um pouco no queixo. Riu sem graça.
— Tô ridícula, né?
— Não — ele respondeu rápido demais. — Você só exagerou.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, olhando pro chão.
— Você ficou com raiva… — disse de repente.
— Fiquei com medo — ele corrigiu.
Ela levantou o rosto, os olhos brilhando demais.
— Medo de quê?
Gabriel travou.
— De você se machucar.
Ela balançou a cabeça, um sorriso triste nos lábios.
— Não é só isso…
Ele sentiu o coração acelerar.
— Não começa, Sofia.
— Eu já comecei — ela murmurou.
A proximidade era perigosa. Ele sentia o cheiro do cabelo dela, o calor do corpo, a respiração irregular.
— Você fica diferente quando eu danço — ela continuou, a voz baixa. — Quando eu rio… quando alguém me olha.
— Porque o mundo não presta — ele respondeu seco.
— Ou porque você não suporta dividir — ela disse, sem acusar. Só constatando.
Silêncio.
O mais pesado de todos.
— Você bebeu demais — ele falou, tentando encerrar.
— Talvez — ela respondeu. — Ou talvez eu só tenha parado de ter medo de dizer algumas coisas.
Ela se inclinou um pouco, apoiando o braço no colchão. O rosto deles ficou perto demais.
— Sofi… — ele sussurrou, a voz falhando pela primeira vez. — Não faz isso comigo.
— Fazer o quê? — ela perguntou.
— Me olhar assim.
Ela engoliu seco.
— Eu não sei mais como te olhar diferente.
Aquilo foi quase a confissão.
Gabriel fechou os olhos, lutando contra tudo.
— Se você soubesse o quanto eu me odeio por pensar coisas que não devia… — ele murmurou, sem perceber que falou alto.
Ela ouviu.
O coração dela bateu forte.
— Pensar o quê? — perguntou, num fio de voz.
Ele abriu os olhos, o olhar escuro, intenso… e assustado.
— Esquece — disse rápido, se levantando. — Você não tá bem. Amanhã a gente conversa.
Ela segurou o braço dele, fraca, mas decidida.
— Gabriel… — a voz dela quebrou. — Não me deixa sozinha com isso.
Ele sentiu o mundo parar.
Por um segundo — só um — pensou em dizer tudo.
Pensou em admitir.
Pensou em atravessar a linha.
Mas soltou o braço devagar.
— Dorme — disse, firme, mas com dor. — Amanhã passa.
Ela assentiu, os olhos marejados.
— Boa noite…
— Boa noite.
Ele saiu do quarto como se estivesse fugindo.
E Sofia deitou com o coração em chamas, sabendo que algo tinha sido dito… mesmo sem palavras.
Gabriel encostou na parede do corredor, respirando pesado.
Porque naquela madrugada, eles chegaram perto demais de uma verdade que não podia existir.
E agora…
Não havia mais como fingir que era só imaginação.
Na manhã seguinte, Sofia acordou com a cabeça pesada.
O corpo ainda sentia o resto da bebida, a memória da noite vinha em flashes confusos. Ela respirou fundo e foi direto pro banho, tentando organizar os pensamentos debaixo da água quente.
— Droga… — murmurou, desligando o chuveiro.
Só então percebeu.
Esqueceu a toalha.
Ficou parada por um segundo, pensando.
— Gabriel? — chamou, meio sem voz. — Gabriel?
Silêncio.
— Ele deve ter saído… — falou pra si mesma.
Com cuidado, abriu a porta do banheiro e saiu rapidamente pelo corredor, tentando alcançar o armário onde ficavam as toalhas.
Foi quando deu de cara com ele.
Gabriel estava ali.
Parado.
Os olhos arregalaram no mesmo instante.
— Sofia— — ele disse, travando no meio da palavra.
Ela congelou.
O rosto dela queimou na hora.
— Desculpa! — falou rápido, virando o corpo de lado instintivamente. — Eu chamei você… você não respondeu… eu esqueci a toalha, eu não sabia que você tava em casa.
O silêncio ficou ensurdecedor.
Gabriel virou o rosto na mesma hora, tenso, visivelmente sem saber onde colocar as mãos.
— Calma — disse, a voz mais baixa do que pretendia. — Fica aí.
Ele tirou a própria camisa e estendeu pra ela sem olhar.
— Veste isso.
Sofia pegou rápido, o coração disparado, e se cobriu.
— Desculpa… de verdade — repetiu, constrangida.
Gabriel respirou fundo, foi até o armário, pegou uma toalha e entregou a ela, ainda evitando encará-la.
— Aqui.
— Obrigada… — ela respondeu baixo.
Os dois ficaram em silêncio por um segundo a mais do que o necessário.
— Eu vou sair — ele disse, se afastando. — Se troca com calma.
Sofia assentiu, sem coragem de levantar o olhar.
Quando a porta do quarto fechou, ela encostou a testa na parede.
— Que vergonha… — sussurrou.
No corredor, Gabriel parou.
Ficou ali, imóvel, tentando recuperar o controle da respiração.
Porque, mesmo tendo desviado o olhar…
Mesmo tentando agir certo…
Aquela imagem tinha ficado.
E ele sabia, com um peso no peito que não dava mais pra negar:
Algumas coisas, uma vez vistas,
não desaparecem mais da mente.
E agora…
o controle estava mais frágil do que nunca.