troca de tiros intenso e a correria

1531 Words
Gabriel parou o carinho na hora. Devagar, levantou o rosto e olhou pra ela como se tivesse ouvido algo impossível. — Sofia… — chamou baixo. — Olha pra mim. Ela obedeceu, insegura, mordendo o lábio. — Você achou mesmo que eu ia amar menos? Ele passou a mão no rosto dela com cuidado, depois voltou a pousar a mão na barriga, sentindo o movimento da bebê. — Amor… — a voz saiu firme, carregada de verdade. — Eu não sonhei com um filho. Eu sonhei em ter você viva do meu lado. O resto… veio como presente. Ela sentiu os olhos arderem. — Eu só tive medo… — confessou. — Medo de não ser suficiente. De decepcionar você de alguma forma. Gabriel soltou um meio sorriso triste. — Você tem noção do quanto isso dói de ouvir? Ela engoliu seco. — Eu passei a vida inteira achando que amor era algo que eu precisava merecer. — ele continuou. — Que eu só podia querer aquilo que não fosse fraqueza. E aí você vem… e me dá uma filha. Ele inclinou o corpo e beijou a barriga dela com reverência. — Uma menina. — repetiu. — Que vai me ensinar tudo que eu nunca soube sentir. Sofia chorou em silêncio. — Eu tenho medo do mundo pra ela… — ele confessou, pela primeira vez abrindo essa ferida. — Mas não medo de amar. Isso eu já sei que vou fazer até doer. Ela passou a mão no cabelo dele. — Você não vai mudar comigo? Ele ergueu o rosto de novo, os olhos escuros intensos. — Eu vou mudar, sim. — respondeu. — Mas pra melhor. Porque agora eu tenho duas razões pra viver… e nenhuma pra te soltar. Ele puxou Sofia pra mais perto, abraçando ela e a barriga ao mesmo tempo, como se quisesse fundir os três. — E escuta bem isso… — murmurou no ouvido dela. — Se eu fui feito pra proteger alguém nesse mundo, é vocês duas. Minha mulher… e minha filha. Sofia respirou fundo, finalmente deixando o medo ir embora. — Então promete que vai me dizer quando eu começar a inventar coisa na minha cabeça? Ele sorriu de canto. — Prometo. — disse. — E prometo também que, se um dia alguém fizer você ou ela duvidar do próprio valor… essa pessoa aprende o que é medo de verdade. Ela riu entre lágrimas. — Dramático. — Apaixonado. — ele corrigiu, beijando a testa dela. E ali, sentados na cama, com a mão dele firme na barriga e o coração dos dois batendo no mesmo ritmo, Sofia entendeu: Ela não estava carregando só uma menina. Estava carregando a redenção de um homem inteiro. A barriga de Sofia já pesava como o próprio mundo. Com oito meses, levantar da cama era um esforço, respirar fundo às vezes doía, e Gabriel não desgrudava dela nem quando precisava sair. Por isso tinha contratado uma mulher pra cozinhar, cuidar da casa, fazer companhia, pra Sofia nunca ficar sozinha. Naquela noite, Gabriel estava lá em cima, no alto do morro, reunido com os homens. O rádio chiava. O clima estava errado desde cedo. E então… o primeiro tiro ecoou. Depois outro. Depois vários. O som seco, próximo demais. Sofia sentiu o coração disparar. Levou a mão à barriga instintivamente. — Calma… — sussurrou pra si mesma. — Calma, meu amor… o papai tá lá… A troca de tiros ficou intensa, rajadas, gritos abafados, correria. O som vinha de todos os lados, como se o morro inteiro estivesse em guerra. — Meu Deus… — ela murmurou, tentando pegar o celular com as mãos tremendo. Foi quando aconteceu. Um estouro diferente, mais alto. A parede da sala explodiu em estilhaços. O tiro atravessou como se a casa fosse papel. A funcionária, que vinha correndo em direção ao quarto, caiu no chão antes mesmo de gritar. Silêncio. Depois, o cheiro de pólvora. Sofia gritou. — NÃO! — a voz saiu rasgada. O pânico tomou conta dela de uma vez só. — Gabriel… — ela chorava, tentando respirar. — Gabriel, por favor… Sem pensar, Sofia desceu da cama com dificuldade, o corpo pesado, a barriga puxando. Cambaleou, quase caiu, apoiou-se na parede. Outro disparo lá fora. Ela se encolheu no canto do quarto, sentando no chão com esforço, puxando as pernas como conseguia, abraçando a barriga com os dois braços. — Fica quietinha… — sussurrou pra bebê, chorando. — A mamãe tá aqui… a mamãe tá aqui… Cada tiro fazia ela se encolher mais. O celular escorregou da mão. Ela tentou ligar de novo, mas os dedos não obedeciam. — Atende… atende… — implorava. Lá em cima, Gabriel sentiu o mundo rachar quando ouviu pelo rádio: — Chefe… a casa foi atingida. — Tem gente ferida lá embaixo. O sangue dele gelou. — SOFIA?! — ele gritou no rádio, fora de si. — RESPONDE, p***a! MINHA MULHER TÁ LÁ! Sem esperar resposta, Gabriel saiu correndo, empurrando quem estivesse no caminho. — Segura essa merda aqui! — berrou pros homens. — SEGURA! Ele desceu o morro como um animal ferido, a arma na mão, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito. Enquanto isso, Sofia sentia algo diferente. Uma dor. Forte. Baixa. — Não… — ela gemeu, respirando com dificuldade. — Agora não… por favor… Ela sentiu a barriga endurecer. O pânico virou terror puro. — Gabriel… — chorou alto, a voz falhando. — Amor, vem logo… por favor… Lá fora, a troca de tiros começava a diminuir. Dentro da casa, Sofia estava sozinha, no chão, tremendo, tentando proteger a própria vida e a da filha. E o destino, mais uma vez, testava até onde aquele amor conseguiria sobreviver. A dor veio de novo. Mais forte. Sofia arquejou, apertando a barriga com as duas mãos, o corpo todo tremendo. — Não… não agora… — sussurrou, desesperada. — Aguenta só mais um pouquinho, meu amor… Ela sentiu um líquido quente escorrer pelas pernas. O pânico virou desespero absoluto. — Não… — a voz saiu em um choro quebrado. — Gabriel… eu tô com medo… Do lado de fora, os tiros cessavam aos poucos. Sirenes distantes. Gritos. Ordens sendo dadas. Mas dentro da casa, o silêncio era ensurdecedor, cortado apenas pela respiração ofegante dela. Sofia tentou se arrastar até a cama, mas o corpo não obedecia. Outra contração veio, fazendo ela gritar de dor, abafando o som contra o próprio braço pra não chamar atenção de ninguém lá fora. — Meu Deus… — chorou. — Alguém… por favor… A porta da casa foi arrombada segundos depois. — SOFIA! — a voz de Gabriel ecoou como um tiro dentro da casa. Ele entrou como um furacão, arma em punho, os olhos procurando loucamente. Quando viu o corpo da funcionária no chão, o estômago virou. Mas nada, nada, preparou ele pra ver Sofia encolhida no canto do quarto. — Amor! — ele caiu de joelhos na frente dela. — Eu tô aqui, eu tô aqui… Ela levantou o rosto, os olhos cheios de lágrimas e pavor. — Gabriel… tá doendo… eu acho que… — a voz falhou. — Eu acho que ela quer nascer… O mundo dele desabou. — Não, não… calma… — disse, tentando manter a voz firme enquanto o coração explodia. — Olha pra mim. Respira comigo. Ele largou a arma no chão, puxou Sofia com cuidado extremo pro colo, sentindo o corpo dela quente, tenso demais. — Chama o médico! — ele gritou pro rádio preso ao colete. — AGORA! TRAZ A p***a DE UMA AMBULÂNCIA PRA CÁ! Sofia se agarrou à camisa dele, cravando os dedos. — Eu tô com medo… — chorou. — Não me deixa… Gabriel encostou a testa na dela, os olhos ardendo. — Eu nunca deixei. — a voz saiu rouca. — E não vou deixar agora. Outra contração veio. Sofia gritou, o corpo se curvando. — Amor, me escuta… — ele falou, quase implorando. — Você é forte. Você já sobreviveu a coisa pior. Aguenta mais um pouco por mim… pela nossa filha. Ela respirava como podia, o rosto molhado de lágrimas. — Se… se acontecer alguma coisa comigo… — tentou dizer. — NÃO. — Gabriel interrompeu na hora, a voz saindo perigosa, quebrada. — Não fala isso. Você fica. Eu não sei viver sem você. Sirene. O som mais bonito que ele já tinha ouvido. — Tá chegando! — alguém gritou da porta. Gabriel pegou Sofia no colo com cuidado absoluto, como se ela fosse feita de vidro. — Aguenta só mais um pouco, meu amor… — sussurrou no ouvido dela enquanto a levava pra fora. — A nossa menina não vai nascer em meio à guerra. Ela vai nascer porque escolheu ficar. Sofia apertou o rosto no pescoço dele, chorando, sentindo o coração dele bater forte, desesperado. — Eu te amo… — ela conseguiu dizer. — Eu amo você… — ele respondeu. — Mais do que a minha própria vida. As luzes da ambulância iluminavam o morro quando eles chegaram. E naquela noite, entre sangue, medo e amor cru, o destino mais uma vez colocou Gabriel de joelhos — não diante da violência, mas diante da vida que ele quase perdeu e que agora precisava salvar.
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