a dor dificil

414 Words
Depois de algumas semanas, veio a alta. O médico falou palavras técnicas, repouso, cuidado emocional, acompanhamento… mas Gabriel só ouviu uma coisa: ela ia pra casa. Em casa, tudo mudou. Ele desacelerou o mundo pra caber no ritmo dela. Acordava antes, preparava comida leve, deixava os remédios separados nos horários certinhos. Ajudava no banho quando ela aceitava. Cobria quando ela tremia. Ficava em silêncio quando ela não conseguia falar. Sofia estava ali… mas ao mesmo tempo não estava. Passava horas sentada na cama, olhando pro nada. Às vezes segurava a barriga vazia sem perceber. Às vezes chorava baixinho, escondida, achando que ele não via. Mas ele via tudo. Uma noite, ele entrou no quarto e a encontrou encolhida, abraçando um travesseiro, os olhos vermelhos. — Amor… — chamou baixo. Ela não respondeu. Gabriel sentou na beira da cama, com cuidado, e puxou ela devagar pro peito. Não forçou palavra. Só ficou ali, respirando junto. — Eu sei que dói. — disse depois de um tempo. — Dói em lugares que não sangram… e isso é pior. Ela finalmente falou, a voz fraca: — Eu me sinto vazia, Gabriel. Como se algo tivesse sido arrancado de mim… e junto levou um pedaço de quem eu era. Ele fechou os olhos, sentindo a dor dela como se fosse dele. — Você não é fraca por isso. — disse firme. — Você perdeu um filho. Você quase perdeu a vida. Você perdeu sonhos. Qualquer um cairia. Ela se afastou um pouco, os olhos marejados. — E se eu nunca mais for a mesma? Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — Então eu vou amar essa nova versão sua. — respondeu sem hesitar. — Mesmo quebrada. Mesmo triste. Mesmo silenciosa. Eu fico. Ela começou a chorar de verdade ali. Um choro profundo, engasgado, que parecia preso há semanas. Gabriel abraçou forte, embalando como se ela fosse pequena outra vez. — Você não precisa ser forte comigo. — sussurrou. — Aqui você pode desmoronar. Os dias seguiram assim. Ela comia pouco. Dormia m*l. Às vezes afastava o toque. Às vezes se agarrava a ele como se tivesse medo de sumir. E Gabriel permanecia. Não exigia sorriso. Não cobrava melhora. Não pedia tempo. Cuidava dela como quem paga uma dívida com o destino. Porque ele sabia: Ela não estava quebrada. Ela estava de luto. E ele ficaria ali, todos os dias, até que ela voltasse a respirar sem dor — ou até aprender a respirar apesar dela.
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