A porta do carro bateu forte.
Sofia entrou primeiro, tremendo de raiva. Gabriel veio logo atrás, fechando a porta com força demais.
O silêncio durou três segundos.
— VOCÊ NÃO TEM DIREITO! — Sofia explodiu, virando-se pra ele. — Você não manda mais em mim! Não manda na minha vida, no meu corpo, no que eu faço pra sobreviver!
Gabriel segurou o volante com força.
— Sobreviver dançando pra desconhecido? — ele gritou de volta. — Se expondo daquele jeito?!
— EU NÃO TINHA OPÇÃO! — ela berrou, as lágrimas caindo. — Você me tirou tudo! Meu chão, minha confiança, meu amor! Você me deixou vazia!
Ele virou o rosto pra ela, os olhos vermelhos.
— Eu fiz isso pra te proteger!
— PROTEGER COMO?! — ela riu, histérica. — Me fazendo me sentir descartável? Me vendo quebrar e não fazendo nada?!
O ar dentro do carro ficou pesado demais.
— Você me matou por dentro, Gabriel! — ela bateu no próprio peito. — E agora quer bancar o dono?
— EU TE AMO! — ele gritou antes de conseguir se conter.
Silêncio.
O tipo de silêncio que corta.
Sofia parou. O choro travou na garganta.
— Não… — ela sussurrou. — Não fala isso agora.
— Eu te amo desde sempre! — ele continuou, a voz quebrando. — E ver você naquele palco… me enlouqueceu!
— Então por que me rejeitou?! — ela gritou de volta. — Por que me empurrou pra longe?!
Eles estavam ofegantes. Muito perto. Perto demais.
O ódio virou dor.
A dor virou saudade.
A saudade virou algo perigoso.
Sofia empurrou o peito dele com força.
— Eu te odeio! — disse chorando.
— Eu também. — ele respondeu rouco.
E foi ali.
Não planejado.
Não bonito.
Não calmo.
Eles se beijaram.
Um beijo quebrado, de raiva e necessidade. Duro. Desajeitado. Como quem tenta respirar depois de muito tempo submerso.
Sofia se afastou primeiro, assustada com o que sentiu.
— Para… — sussurrou, a mão tremendo no peito dele. — Para agora.
Gabriel obedeceu na hora.
Respirando forte. Olhos fechados. Corpo em guerra consigo mesmo.
— Isso não podia ter acontecido… — ela disse, encostando a testa no vidro.
— Eu sei. — ele respondeu, a voz em frangalhos. — Mas aconteceu.
O carro ficou parado.
O mundo lá fora seguiu.
E dentro, nada mais estava intacto.
Eles tinham cruzado uma linha.
E agora…
não dava pra fingir que não.