Meses se passaram.
Por fora, tudo parecia em ordem: a casa protegida, o morro sob controle, Gabriel mais presente, mais atento. Mas por dentro… Sofia estava desmoronando em silêncio.
Toda vez que o ciclo chegava, era como se o chão abrisse sob os pés dela.
Ela contava os dias. Recontava. Fazia contas na cabeça de madrugada. Ia ao banheiro sozinha, trancava a porta, sentava no chão frio e chorava sem fazer barulho. Chorava de medo.
Medo de não conseguir engravidar de novo.
Medo de ter perdido sua única chance.
Medo de falhar com ele.
A perda ainda morava nela — no corpo, no útero, na alma. Cada lembrança do hospital, do sangue, do silêncio depois dos tiros, voltava como um castigo.
Ela começou a se afastar sem perceber.
Dormia menos. Comia pouco. Evitava o espelho. Evitava o toque dele nos dias em que a esperança morria outra vez.
Gabriel percebeu.
Ele sempre percebia.
Numa noite, ele entrou no quarto e encontrou Sofia sentada na cama, abraçando os joelhos, o olhar vazio. O quarto estava escuro, só a luz do corredor entrava fraca.
— Sofia… — a voz dele saiu mais baixa do que o normal.
Ela tentou sorrir. Falhou.
— Não vem… — ela sussurrou. — Se você chegar perto, eu vou quebrar.
Isso gelou o sangue dele.
Gabriel se aproximou devagar, ajoelhou na frente dela e segurou o rosto dela com firmeza, mas cuidado.
— Olha pra mim.
Ela resistiu, mas obedeceu. Os olhos estavam inchados, vermelhos, cheios de culpa.
— Fala. — ele ordenou, mas a voz tremia. — O que tá te matando desse jeito?
Ela respirou fundo… e desabou.
— Eu não consigo, Gabriel… — a voz saiu quebrada. — Eu não consigo engravidar de novo. Já faz meses. Meses! — ela bateu a mão no próprio ventre. — Meu corpo falhou. Eu falhei. Eu perdi nosso bebê… e agora eu não consigo te dar outro.
As lágrimas caíam sem controle.
— E se eu não puder? — ela chorava. — E se eu nunca mais puder? Você merece um herdeiro. Um filho. Alguém pra continuar tudo isso… e eu…
Ela levou a mão à boca, sufocando o choro.
Gabriel ficou imóvel por dois segundos.
Dois segundos perigosos.
Então ele se levantou de uma vez, puxou Sofia contra o peito com força, quase bruta, como se quisesse protegê-la do próprio pensamento.
— Cala a boca. — ele disse rouco. — Cala a boca agora.
Ela tremeu.
— Nunca mais fala isso. Nunca mais fala que você falhou.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos, os olhos escuros, intensos, cheios de algo quase violento — amor misturado com dor.
— Você não é um útero. — ele disse devagar. — Você é a mulher que eu amo. A mulher que sobreviveu ao inferno. A mulher que eu escolhi.
Ela chorava tanto que m*l conseguia respirar.
— Se nunca mais vier um filho… — ele encostou a testa na dela. — Eu continuo sendo seu. E você continua sendo minha. Entendeu?
Ela balançou a cabeça, insegura.
— Mas dói… — ela sussurrou. — Parece que meu corpo me traiu.
— Não traiu. — ele respondeu firme. — Ele tá machucado. Assim como a gente. E machucados levam tempo.
Ele a deitou devagar na cama, subiu sobre ela sem peso, só presença, só proteção. Beijou a testa, os olhos, as lágrimas.
— A gente vai tentar quando você estiver pronta. — ele murmurou. — Sem pressão. Sem medo. E se vier… veio. Se não vier… eu mato o mundo inteiro por você do mesmo jeito.
Ela soltou um soluço que virou riso fraco.
— Você é doente…
— Por você, eu sou tudo. — ele respondeu, sério.
Ela se agarrou a ele como se fosse a última âncora.
E naquela noite, não foi sobre sexo.
Foi sobre dor, posse, medo e amor escuro — daquele que não promete finais felizes, mas promete nunca ir embora.
Os meses seguintes viraram um ciclo c***l.
Sofia passou a conhecer o próprio corpo como quem estuda um campo de batalha. Ela marcava dias no calendário, baixava aplicativos, fazia contas silenciosas. Quando o período fértil chegava, algo dentro dela mudava.
Era medo misturado com esperança.
Desespero misturado com desejo.
Nessas noites, ela sempre o procurava.
Gabriel percebia antes mesmo dela falar.
Ela chegava mais perto. Sentava no colo dele sem dizer nada. Passava os dedos pelo pescoço, pelo maxilar, respirava o cheiro dele como se precisasse daquilo pra sobreviver.
— É hoje… — ela sussurrava, quase sempre com vergonha. — Eu tô no período.
Gabriel nunca riu. Nunca reclamou. Nunca fez parecer obrigação.
Mas por dentro, aquilo o destruía.
Ele a puxava pra si, firme, dominante, mas o olhar era cheio de cuidado.
— Você não precisa se provar pra mim. — ele dizia baixo. — Não precisa me procurar como se estivesse devendo algo.
Ela sempre respondia a mesma coisa:
— Eu quero, Gabriel. — os olhos brilhavam, intensos. — Eu quero você… e quero tentar.
Então ele aceitava.
Porque também queria.
Porque também sonhava.
Eles se entregavam com intensidade, mas havia algo diferente: Sofia estava tensa, presa na própria cabeça. Às vezes o corpo dela travava no meio, os olhos enchiam de lágrimas do nada.
— Desculpa… — ela murmurava, se culpando até pelo próprio corpo. — Eu tô nervosa.
Gabriel parava na hora.
Segurava o rosto dela, obrigava ela a olhar pra ele.
— Não chora comigo. — ele dizia firme, mas com a voz quebrada. — Eu não te toco pra te ferir.
Ele beijava devagar, desacelerava tudo, transformava urgência em cuidado. Mas mesmo assim, quando acabava, Sofia ficava em silêncio, olhando pro teto, a mão no próprio ventre como se pedisse perdão ao corpo.
Depois vinham os dias de espera.
Ela se tornava mais quieta. Mais sensível. Qualquer atraso virava esperança. Qualquer dor virava pânico. E quando a menstruação vinha…
Ela se trancava no banheiro.
Gabriel a encontrava sentada no chão, abraçando as pernas, o rosto molhado de lágrimas.
— De novo não… — ela repetia. — De novo não…
Ele a pegava no colo sem pedir permissão, levava pra cama, deitava com ela contra o peito.
— Você tá se machucando. — ele dizia numa dessas noites, a voz pesada. — Tá transformando amor em tortura.
Ela chorava em silêncio.
— Eu tenho medo de você se cansar… — confessou uma vez. — Medo de eu não conseguir te dar isso.
Gabriel ficou sério. Muito sério.
— Escuta bem o que eu vou te dizer. — ele falou, segurando o rosto dela com força suficiente pra fazê-la prestar atenção. — Se você engravidar amanhã ou nunca… eu continuo aqui. Mas se você continuar se punindo desse jeito, eu vou te perder viva.
Aquilo doeu mais do que qualquer negativa.
Aos poucos, ele começou a mudar o jogo.
Quando o período fértil chegava, ele não esperava ela pedir. Ele a procurava primeiro, sem falar de datas, sem falar de tentativas.
— Hoje eu só quero você. — ele dizia no ouvido dela. — Não um ventre. Não uma promessa. Você.
E Sofia, aos poucos, começou a reaprender a sentir prazer sem culpa.
Mas o medo ainda morava ali.
Silencioso.
Escuro.
E ambos sabiam: aquele processo ainda ia cobrar um preço alto antes de dar qualquer resposta.