Quando tudo desanda

392 Words
Sofia tentou seguir. Acordava cedo. Vestia a roupa de trabalho. Sentava na frente do computador. Mas a mente não ficava. As palavras embaralhavam. Os números sumiam. O corpo estava lá — ela não. O chefe chamou uma vez. Depois outra. Na terceira, não houve paciência. — Você não rende mais, Sofia. — disse seco. — Tá desligada. Sinto muito. Ela assentiu. Não chorou ali. Não implorou. Saiu com a caixa nas mãos e um vazio no peito. Naquela noite, sentada na cama, contas espalhadas pela mesa, Sofia fez algo que jurou nunca fazer. Aceitou o que apareceu. Um clube noturno. Música alta. Luzes baixas. Dança. — É só dançar. — disseram. — Ninguém encosta. Ela precisava pagar aluguel. Comer. Respirar. Na primeira noite, colocou a roupa curta, amarrou o cabelo e entrou no palco com o coração disparado. Não dançava pra provocar. Dançava pra sobreviver. Mas o sorriso não chegava aos olhos. Gabriel soube dois dias depois. Soube da pior forma: um comentário atravessado, uma risada errada, um nome dito baixo demais. — A Sofia tá dançando lá no Eclipse… — alguém comentou sem pensar. O copo na mão de Gabriel estilhaçou. — Onde? — a voz saiu baixa. Mortal. — No… no clube, chefe… Ele não ouviu o resto. Levantou tão rápido que a cadeira caiu pra trás. — Ninguém fala esse nome de novo. — rosnou. — Ninguém. O ar ficou pesado. Dentro dele, algo explodiu. Não era raiva só. Era medo. Culpa. Posse doentia que ele odiava sentir. — Eu destruí ela… — murmurou, passando a mão no rosto. — Eu destruí. Naquela noite, Gabriel perdeu o controle como não perdia há anos. Quebrou coisas. Gritou ordens. Castigou erro pequeno como crime. O morro sentiu. Porque quando Gabriel sangrava por dentro, todo mundo pagava. Sofia dançava sob as luzes quando sentiu o arrepio. O tipo de arrepio que não vem da música. Olhou ao redor. Não o viu. Mas sentiu. O coração acelerou sem motivo. Ela terminou o turno exausta, o corpo pesado, a alma vazia. Do lado de fora, a noite parecia mais fria. E em algum lugar da cidade, Gabriel respirava fundo, tentando decidir se a deixava viver… ou se quebrava o mundo pra puxá-la de volta. — Eu não vou perder você assim… — disse no escuro. — Nem que eu vire o pior de mim.
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