Sofia tentou seguir.
Acordava cedo.
Vestia a roupa de trabalho.
Sentava na frente do computador.
Mas a mente não ficava.
As palavras embaralhavam.
Os números sumiam.
O corpo estava lá — ela não.
O chefe chamou uma vez.
Depois outra.
Na terceira, não houve paciência.
— Você não rende mais, Sofia. — disse seco. — Tá desligada. Sinto muito.
Ela assentiu.
Não chorou ali.
Não implorou.
Saiu com a caixa nas mãos e um vazio no peito.
Naquela noite, sentada na cama, contas espalhadas pela mesa, Sofia fez algo que jurou nunca fazer.
Aceitou o que apareceu.
Um clube noturno.
Música alta.
Luzes baixas.
Dança.
— É só dançar. — disseram. — Ninguém encosta.
Ela precisava pagar aluguel.
Comer.
Respirar.
Na primeira noite, colocou a roupa curta, amarrou o cabelo e entrou no palco com o coração disparado.
Não dançava pra provocar.
Dançava pra sobreviver.
Mas o sorriso não chegava aos olhos.
Gabriel soube dois dias depois.
Soube da pior forma:
um comentário atravessado,
uma risada errada,
um nome dito baixo demais.
— A Sofia tá dançando lá no Eclipse… — alguém comentou sem pensar.
O copo na mão de Gabriel estilhaçou.
— Onde? — a voz saiu baixa. Mortal.
— No… no clube, chefe…
Ele não ouviu o resto.
Levantou tão rápido que a cadeira caiu pra trás.
— Ninguém fala esse nome de novo. — rosnou. — Ninguém.
O ar ficou pesado.
Dentro dele, algo explodiu.
Não era raiva só.
Era medo.
Culpa.
Posse doentia que ele odiava sentir.
— Eu destruí ela… — murmurou, passando a mão no rosto. — Eu destruí.
Naquela noite, Gabriel perdeu o controle como não perdia há anos.
Quebrou coisas.
Gritou ordens.
Castigou erro pequeno como crime.
O morro sentiu.
Porque quando Gabriel sangrava por dentro,
todo mundo pagava.
Sofia dançava sob as luzes quando sentiu o arrepio.
O tipo de arrepio que não vem da música.
Olhou ao redor.
Não o viu.
Mas sentiu.
O coração acelerou sem motivo.
Ela terminou o turno exausta, o corpo pesado, a alma vazia.
Do lado de fora, a noite parecia mais fria.
E em algum lugar da cidade,
Gabriel respirava fundo, tentando decidir
se a deixava viver…
ou se quebrava o mundo pra puxá-la de volta.
— Eu não vou perder você assim… — disse no escuro. — Nem que eu vire o pior de mim.