Sofia saiu antes do sol nascer.
Uma mochila pequena.
Pouca roupa.
Nenhuma despedida.
A casa ainda dormia — ou fingia dormir.
Ela passou pela sala devagar, como quem anda num lugar sagrado que vai deixar pra sempre. Tocou o batente da porta, respirou fundo, e saiu.
Sem olhar pra trás.
Porque se olhasse…
não iria.
Horas depois...Gabriel acordou com um vazio estranho.
Não foi barulho.
Não foi intuição.
Foi ausência.
Ele levantou da cama já chamando:
— Sofia?
Silêncio.
Foi até o quarto dela.
Cama arrumada.
Fria.
A gaveta aberta. O perfume que ela usava ainda no ar, como uma afronta.
Ele ficou parado no meio do quarto por longos segundos.
Depois tudo escureceu.
— NÃO… — a voz saiu rouca, quebrada.
Desceu as escadas de dois em dois. Abriu a porta com força. Olhou a rua vazia, como se ela fosse aparecer correndo de volta.
Nada.
O chão sumiu.
Ele socou a parede.
Uma.
Duas.
Três vezes.
A mão sangrou, mas ele não sentiu.
— Eu mandei você ficar… — murmurou, perdido.
Naquele dia, Gabriel não foi atrás dela.
Porque o orgulho falou mais alto.
Porque o medo também.
Porque ele acreditou que, se desse tempo, ela voltaria.
Ela não voltou.
Os dias passaram.
E algo morreu em Gabriel.
Ele parou de sorrir.
Parou de beber socialmente.
Parou de ouvir.
O morro sentiu primeiro.
Onde antes havia ordem dura, agora havia terror silencioso.
— Chefe, o cara pediu conversa… — disse um dos homens, hesitante.
Gabriel nem olhou.
— Não peço conversa. — respondeu frio. — Resolvo.
O homem foi trazido.
Chorando. Tremendo.
— Eu só atrasei uma vez, chefe…
Gabriel se aproximou devagar.
Olhos vazios.
— Sofia atrasava. — disse baixo. — Mas sempre voltava.
Ninguém entendeu.
Ele levantou a mão.
— Agora você não volta.
O grito ecoou pelo barraco.
Naquele dia, o morro entendeu:
Gabriel não era mais líder.
Era sentença.
Ele ficou mais c***l.
Mais rígido.
Mais imprevisível.
Mulher nenhuma entrava mais na casa.
— Chefe, por quê? — alguém perguntou um dia.
— Porque eu já perdi a única que importava.
Ele passou a punir erros pequenos como crimes capitais.
A exigir silêncio absoluto.
A não tolerar risadas perto dele.
E à noite…
À noite, ele ia até o quarto vazio.
Sentava na cama dela.
Segurava a camiseta esquecida.
— Você foi embora de mim… — sussurrou no escuro. —
Mas ela não estava ali pra ouvir.
O segredo continuava enterrado.
O amor, transformado em ódio.
E o morro pagava o preço.
Porque quando um homem perde tudo
sem nunca ter tido a verdade,
ele não vira vilão.
Vira monstro funcional.