O dia em que Sofia foi embora

437 Words
Sofia saiu antes do sol nascer. Uma mochila pequena. Pouca roupa. Nenhuma despedida. A casa ainda dormia — ou fingia dormir. Ela passou pela sala devagar, como quem anda num lugar sagrado que vai deixar pra sempre. Tocou o batente da porta, respirou fundo, e saiu. Sem olhar pra trás. Porque se olhasse… não iria. Horas depois...Gabriel acordou com um vazio estranho. Não foi barulho. Não foi intuição. Foi ausência. Ele levantou da cama já chamando: — Sofia? Silêncio. Foi até o quarto dela. Cama arrumada. Fria. A gaveta aberta. O perfume que ela usava ainda no ar, como uma afronta. Ele ficou parado no meio do quarto por longos segundos. Depois tudo escureceu. — NÃO… — a voz saiu rouca, quebrada. Desceu as escadas de dois em dois. Abriu a porta com força. Olhou a rua vazia, como se ela fosse aparecer correndo de volta. Nada. O chão sumiu. Ele socou a parede. Uma. Duas. Três vezes. A mão sangrou, mas ele não sentiu. — Eu mandei você ficar… — murmurou, perdido. Naquele dia, Gabriel não foi atrás dela. Porque o orgulho falou mais alto. Porque o medo também. Porque ele acreditou que, se desse tempo, ela voltaria. Ela não voltou. Os dias passaram. E algo morreu em Gabriel. Ele parou de sorrir. Parou de beber socialmente. Parou de ouvir. O morro sentiu primeiro. Onde antes havia ordem dura, agora havia terror silencioso. — Chefe, o cara pediu conversa… — disse um dos homens, hesitante. Gabriel nem olhou. — Não peço conversa. — respondeu frio. — Resolvo. O homem foi trazido. Chorando. Tremendo. — Eu só atrasei uma vez, chefe… Gabriel se aproximou devagar. Olhos vazios. — Sofia atrasava. — disse baixo. — Mas sempre voltava. Ninguém entendeu. Ele levantou a mão. — Agora você não volta. O grito ecoou pelo barraco. Naquele dia, o morro entendeu: Gabriel não era mais líder. Era sentença. Ele ficou mais c***l. Mais rígido. Mais imprevisível. Mulher nenhuma entrava mais na casa. — Chefe, por quê? — alguém perguntou um dia. — Porque eu já perdi a única que importava. Ele passou a punir erros pequenos como crimes capitais. A exigir silêncio absoluto. A não tolerar risadas perto dele. E à noite… À noite, ele ia até o quarto vazio. Sentava na cama dela. Segurava a camiseta esquecida. — Você foi embora de mim… — sussurrou no escuro. — Mas ela não estava ali pra ouvir. O segredo continuava enterrado. O amor, transformado em ódio. E o morro pagava o preço. Porque quando um homem perde tudo sem nunca ter tido a verdade, ele não vira vilão. Vira monstro funcional.
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