oque quase foi dito

546 Words
dois anos se passou ... Um certo dia O pai deles adoeceu e os dois foram chamados... Ele começou a tossir forte, o peito subindo e descendo com dificuldade. Sofia apertou a mão dele com cuidado. — Calma, pai… não fala agora. Descansa, tá? — a voz dela saiu trêmula, mas firme. Ele balançou a cabeça em negação, os olhos marejados, desesperados. — Eu… preciso… — tentou dizer. Gabriel deu um passo à frente instintivamente, parando ao lado da cama. Não tocou em Sofia. Não ousou. Mas a presença dele era pesada, quase física. — Pai, o médico falou pra o senhor não se esforçar — Gabriel disse, a voz grave, contida. — Depois o senhor fala. O velho respirou com dificuldade, o olhar indo de Sofia para Gabriel… e voltando. Como se implorasse tempo. Como se pedisse perdão. — Vocês… — murmurou. — Me desculpem… Uma nova crise de tosse o interrompeu. Sofia passou a mão nos cabelos dele, os olhos cheios d’água. — Tá tudo bem, pai. A gente tá aqui. — Ela não olhou para Gabriel, mas sentia ele ali. Sentia demais. A enfermeira entrou às pressas. — Ele precisa descansar agora. Todos pra fora, por favor. Sofia relutou, mas soltou a mão do pai devagar. Antes de fechar os olhos, ele segurou o pulso dela com uma força inesperada. — Filha… — sussurrou. — Se eu não conseguir… A frase morreu. O ar ficou pesado demais. No corredor, o silêncio gritava. Sofia encostou na parede, os braços cruzados sobre o próprio corpo, como se estivesse se segurando inteira. Gabriel ficou a alguns passos de distância. Dois anos. E ainda doía como se fosse ontem. — Ele tá m*l… — Sofia disse baixo, sem encará-lo. — Tá. — Gabriel respondeu. Só isso. Ela respirou fundo. — Obrigada por vir. — Eu viria de qualquer jeito. Silêncio de novo. Ela finalmente levantou o olhar. Os olhos dele estavam diferentes. Mais fundos. Mais escuros. Cansados. — Você… mudou — ela disse, quase num sussurro. Ele deu um meio sorriso que não chegou aos olhos. — Você também. — Pausa. — Tá feliz? A pergunta saiu antes que ele conseguisse segurar. Sofia hesitou. — Tô sobrevivendo. Aquilo doeu mais do que um “não”. Ele assentiu lentamente. — Eu também. Os dois ficaram ali, separados por centímetros e por um abismo inteiro de coisas não ditas. Gabriel queria tocar. Sofia queria correr. Mas nenhum dos dois se moveu. — Se precisar de alguma coisa… — ele começou. — Eu sei. — ela interrompeu, firme. — Sempre soube. Ela passou por ele, sentindo o perfume que conhecia de olhos fechados. O corpo respondeu antes da razão. O coração bateu descompassado. Gabriel fechou os olhos por um segundo. Não agora. Nunca. Naquela noite, o pai acordou confuso. Chamou por nomes antigos. Chorou em silêncio. E tentou, mais uma vez, falar. — Não são… — murmurou, a voz fraca. — Vocês não… A enfermeira ajustou os aparelhos. — Senhor, descanse. Não fale agora. As palavras morreram de novo. O segredo ficou ali, preso entre um coração fraco e um tempo c***l. Enquanto isso, do lado de fora… Dois filhos sofriam por um erro que nunca cometeram. E o destino, paciente, esperava o momento certo para explodir tudo.
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