dois anos se passou ...
Um certo dia O pai deles adoeceu e os dois foram chamados...
Ele começou a tossir forte, o peito subindo e descendo com dificuldade.
Sofia apertou a mão dele com cuidado.
— Calma, pai… não fala agora. Descansa, tá? — a voz dela saiu trêmula, mas firme.
Ele balançou a cabeça em negação, os olhos marejados, desesperados.
— Eu… preciso… — tentou dizer.
Gabriel deu um passo à frente instintivamente, parando ao lado da cama. Não tocou em Sofia. Não ousou. Mas a presença dele era pesada, quase física.
— Pai, o médico falou pra o senhor não se esforçar — Gabriel disse, a voz grave, contida. — Depois o senhor fala.
O velho respirou com dificuldade, o olhar indo de Sofia para Gabriel… e voltando. Como se implorasse tempo. Como se pedisse perdão.
— Vocês… — murmurou. — Me desculpem…
Uma nova crise de tosse o interrompeu.
Sofia passou a mão nos cabelos dele, os olhos cheios d’água.
— Tá tudo bem, pai. A gente tá aqui. — Ela não olhou para Gabriel, mas sentia ele ali. Sentia demais.
A enfermeira entrou às pressas.
— Ele precisa descansar agora. Todos pra fora, por favor.
Sofia relutou, mas soltou a mão do pai devagar.
Antes de fechar os olhos, ele segurou o pulso dela com uma força inesperada.
— Filha… — sussurrou. — Se eu não conseguir…
A frase morreu.
O ar ficou pesado demais.
No corredor, o silêncio gritava.
Sofia encostou na parede, os braços cruzados sobre o próprio corpo, como se estivesse se segurando inteira.
Gabriel ficou a alguns passos de distância.
Dois anos.
E ainda doía como se fosse ontem.
— Ele tá m*l… — Sofia disse baixo, sem encará-lo.
— Tá. — Gabriel respondeu. Só isso.
Ela respirou fundo.
— Obrigada por vir.
— Eu viria de qualquer jeito.
Silêncio de novo.
Ela finalmente levantou o olhar.
Os olhos dele estavam diferentes. Mais fundos. Mais escuros. Cansados.
— Você… mudou — ela disse, quase num sussurro.
Ele deu um meio sorriso que não chegou aos olhos.
— Você também. — Pausa. — Tá feliz?
A pergunta saiu antes que ele conseguisse segurar.
Sofia hesitou.
— Tô sobrevivendo.
Aquilo doeu mais do que um “não”.
Ele assentiu lentamente.
— Eu também.
Os dois ficaram ali, separados por centímetros e por um abismo inteiro de coisas não ditas.
Gabriel queria tocar.
Sofia queria correr.
Mas nenhum dos dois se moveu.
— Se precisar de alguma coisa… — ele começou.
— Eu sei. — ela interrompeu, firme. — Sempre soube.
Ela passou por ele, sentindo o perfume que conhecia de olhos fechados. O corpo respondeu antes da razão. O coração bateu descompassado.
Gabriel fechou os olhos por um segundo.
Não agora.
Nunca.
Naquela noite, o pai acordou confuso.
Chamou por nomes antigos. Chorou em silêncio.
E tentou, mais uma vez, falar.
— Não são… — murmurou, a voz fraca. — Vocês não…
A enfermeira ajustou os aparelhos.
— Senhor, descanse. Não fale agora.
As palavras morreram de novo.
O segredo ficou ali, preso entre um coração fraco e um tempo c***l.
Enquanto isso, do lado de fora…
Dois filhos sofriam por um erro que nunca cometeram.
E o destino, paciente, esperava o momento certo para explodir tudo.