O depois que dói mais

454 Words
Sofia tentou. Tentou sair. Tentou beijar outros homens. Tentou se convencer de que o corpo acompanharia a decisão da cabeça. Mas não acompanhava. Sempre travava. Sempre faltava algo. Sempre faltava ele. Naquela noite, ela bebeu mais do que devia. E foi parar onde tudo começou. A antiga casa no morro. A porta estava destrancada. Gabriel estava na sala, sentado no sofá, um copo na mão, o olhar perdido. Já tinha bebido o suficiente pra baixar a guarda — não o bastante pra esquecer. Quando a viu, ficou de pé num pulo. — O que você tá fazendo aqui, Sofia? — a voz saiu tensa. — Você sabe que a gente não pode… Ela fechou a porta atrás de si. — Eu cansei. — disse baixo. — Cansei de fingir. Cansei de me guardar pra ninguém. Ele passou a mão no rosto. — Não faz isso comigo. — Eu quero você. — ela disse, se aproximando. — Só você. Gabriel tentou dizer não. Mas quando ela o beijou, não houve mais palavra alguma. O beijo não foi bonito. Foi urgente. Carregado de tudo que eles esconderam por anos. Ele segurou o rosto dela como se tivesse medo de que sumisse. — Sofia… — murmurou, entrecortado. Ela não respondeu. Apenas o puxou pela mão. A porta do quarto se fechou. E o mundo ficou do lado de fora. A manhã chegou cedo demais. Sofia acordou primeiro. Ficou olhando Gabriel dormir, o peito subindo devagar, o rosto cansado. Ele acordou logo depois. O silêncio foi imediato. — Isso… — ele começou, sentando na cama, passando a mão pelos cabelos. — Eu… Ela respirou fundo. — Eu não queria que a minha primeira vez fosse com ninguém além de você. Gabriel congelou. Virou pra ela devagar. — Foi… sua primeira vez? Os olhos dele se encheram d’água. — Eu fui intenso demais… — disse com culpa crua. — Me perdoa, Sofia. Ela tocou o rosto dele com cuidado. — Ei. — sorriu triste. — Foi incrível. Do jeito que eu sempre imaginei… com você. Ele fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, estava decidido — e destruído. — E agora… — a voz saiu baixa — a gente precisa se afastar. Ela assentiu. — Eu sei. Sofia se levantou, vestiu a roupa em silêncio. Antes de sair, voltou até ele. — Eu vou embora, Gabriel. Pra longe. — disse firme. — Mas eu vou guardar essa noite comigo pra sempre. Ela se inclinou, beijou a testa dele. — Eu te amo. Ele não respondeu. Porque se falasse, não deixaria ela ir. Sofia saiu. Gabriel ficou sentado na cama, sozinho, sentindo o peso do que viveram. Eles tinham se dado tudo… justamente quando não podiam ficar com nada.
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