Sofia tentou.
Tentou sair.
Tentou beijar outros homens.
Tentou se convencer de que o corpo acompanharia a decisão da cabeça.
Mas não acompanhava.
Sempre travava.
Sempre faltava algo.
Sempre faltava ele.
Naquela noite, ela bebeu mais do que devia.
E foi parar onde tudo começou.
A antiga casa no morro.
A porta estava destrancada.
Gabriel estava na sala, sentado no sofá, um copo na mão, o olhar perdido. Já tinha bebido o suficiente pra baixar a guarda — não o bastante pra esquecer.
Quando a viu, ficou de pé num pulo.
— O que você tá fazendo aqui, Sofia? — a voz saiu tensa. — Você sabe que a gente não pode…
Ela fechou a porta atrás de si.
— Eu cansei. — disse baixo. — Cansei de fingir. Cansei de me guardar pra ninguém.
Ele passou a mão no rosto.
— Não faz isso comigo.
— Eu quero você. — ela disse, se aproximando. — Só você.
Gabriel tentou dizer não.
Mas quando ela o beijou, não houve mais palavra alguma.
O beijo não foi bonito.
Foi urgente.
Carregado de tudo que eles esconderam por anos.
Ele segurou o rosto dela como se tivesse medo de que sumisse.
— Sofia… — murmurou, entrecortado.
Ela não respondeu.
Apenas o puxou pela mão.
A porta do quarto se fechou.
E o mundo ficou do lado de fora.
A manhã chegou cedo demais.
Sofia acordou primeiro.
Ficou olhando Gabriel dormir, o peito subindo devagar, o rosto cansado.
Ele acordou logo depois.
O silêncio foi imediato.
— Isso… — ele começou, sentando na cama, passando a mão pelos cabelos. — Eu…
Ela respirou fundo.
— Eu não queria que a minha primeira vez fosse com ninguém além de você.
Gabriel congelou.
Virou pra ela devagar.
— Foi… sua primeira vez?
Os olhos dele se encheram d’água.
— Eu fui intenso demais… — disse com culpa crua. — Me perdoa, Sofia.
Ela tocou o rosto dele com cuidado.
— Ei. — sorriu triste. — Foi incrível. Do jeito que eu sempre imaginei… com você.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, estava decidido — e destruído.
— E agora… — a voz saiu baixa — a gente precisa se afastar.
Ela assentiu.
— Eu sei.
Sofia se levantou, vestiu a roupa em silêncio.
Antes de sair, voltou até ele.
— Eu vou embora, Gabriel. Pra longe. — disse firme. — Mas eu vou guardar essa noite comigo pra sempre.
Ela se inclinou, beijou a testa dele.
— Eu te amo.
Ele não respondeu.
Porque se falasse, não deixaria ela ir.
Sofia saiu.
Gabriel ficou sentado na cama, sozinho, sentindo o peso do que viveram.
Eles tinham se dado tudo…
justamente quando não podiam ficar com nada.