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Depois de devorar a maioria da pizza, noto estar sendo examina por um Rafael deslumbrado com minha nova capacidade de comer além da conta.
– Cara ainda bem que não estamos namorando mais, não sei se conseguiria te sustentar doce, você virou um dragão – seu tom brincalhão me alegra. Sem pensar muito busco a primeira arma de combate, o próprio travesseiro que serve de mesinha para a caixa de pizza em meu colo, jogo com força em sua face debochada. Abre uma careta falsa de dor e rimos por alguns minutos sem parar.
– Agora eu como por dois, antes não comia nem por um só se quer.
– Imagino que eu deva ter colocado bem uns três bebês ai dentro, porquê isso não é normal.
– Às vezes eu penso isso também...
– Pensa? – Levanta a sobrancelha loira curioso e preocupado – e os exames que as grávidas fazem e "páh" como estão?
– Já dei início ao pré-natal, mas ainda não tive coragem de ver os ultrassons ou os resultados, esperei por você pra isso! E lógico o bebê está bem e saudável. O médico sempre deixou isso bem claro. Foi minha única preocupação até agora.
– Sério? – As duas “bolitas” de vidro verde se acendem numa alegria não mais contida. – Fico feliz por ter pensado em mim, isso quer dizer...
– Que você é o pai do bebê.
– Só isso? – Demora algum tempo formulando sua frase. Queria ouvir seu pensamento e poder entender o que sentia. Mas você nunca foi de falar abertamente.
O menino levanta e caminha até janela, parece procurar no vão da noite escura algo que o faça enxergar além do pouco o qual deixo em exibição. Assim como esse quarto, fechado, está o meu coração. Por mais que ele já seja íntimo e tenha seu acento reservado, obriguei a todos que ocupam alguma vaga a ficarem sobre seus pés, apenas para enfileirar de maneira correta os devidos lugares.
Os ombros caídos, me fazem imaginar à faceta que virou o rosto rebelde. Tenho alguma dificuldade para levantar da cama de estatura baixa. Quando consigo realizar a manobra, alcanço seu corpo imóvel e envolvo as costas largas com meus braços. Num abraço curto e amigável. O cheiro de Rafael nunca mudará, mesmo sem a camiseta o perfume cítrico está impregnado em cada mínimo pedaço da pele dourada.
– Preciso resolver meu relacionamento antes de pensar em outra coisa. Antes de se quer pensar na gente. Estou com Telles.
– Você só esqueceu de avisar isso a ele – brigando numa inconstância as palavras saem arrastada da sua boca.
– Do que está falando? – O frio se instala nas palmas da minha mão.
– Esquece – se vira para analisar meu rosto paralisado.
– Como se fosse fácil não é mesmo? Esquecer...
– Deixe toda essa hipocrisia porta a fora. Quem é você pra falar que é fácil ou não esquecer? – Examino o pesar das promessas não cumpridas que juramos um ao outro.
– Dói né?
– c****e Layla já chega. Será que apenas uma única vez na vida gastaremos um dia sem brigar? – Termina sua frase e procura meu corpo para um abraço. Recuo um passo para traz.
– Quantas vezes eu quis te esquecer! Sabe quantas vezes? Não! Não sabe! E sabe por que? Estava muito ocupado comendo todo tipo de mulher que aparecesse em sua frente, enquanto eu chorava por você! – Algumas palavras não esperam permissão, apenas saem cortando tudo a sua frente.
– Eu mudei, mudei por amor...
– Eu também mudei por amor Rafael, mudei por amor a Thor Telles, – seu gogó se move como se tivesse sido obrigado a engolir algo amargo – mudei por amor a mim. Mudei por amor a meu bebê. É injusto que espere que eu me renda novamente ao nosso sentimento imaturo, quando tudo que eu quero é crescer sem nos magoar. Sim eu te amo! E isso parece que nunca vai mudar, porquê pro bem ou para o m*l tu é parte da minha história. Mas o personagem principal agora sou eu.
O que saiu da minha boca magoou o menino em grau superior. Das esmeraldas verdes a qual tanto idolatrava caiu uma única gota salgada, gota que não durou muito tempo, por que o seu criador desorientado usou a parte de trás da mão para limpa-la duramente. Sua boca se abriu pronto para verbalizar toda sua raiva, novamente se fechou contendo-a.
A porta do quarto se fecha bruscamente, nem me dou conta do momento em que o anjo atravessou-a veloz.
Os meus pés me guiam para fora atrás do loiro.
–Rafael... – Grito.
–Vá para dentro Layla, depois volto para te buscar.
– Onde vai?
– Só vou dar uma volta, sei lá. – Já está adentrando no banco do carro n***o, a fumaça sobe junto com a poeira, quando o carro acelerado se distância levo a mão ao peito.
Foi quase abstrata tamanha dor que eu senti. Se existisse algum cordão umbilical entre o menino loiro dono das covinhas mais estonteantes a quais já me permitiram olhar, fora cortado por ambos os dois adultos dessa relação conturbada e inexistente.
– Não me queira, por que pensa que eu seria diferente.
– Mas você é doce.
– Obrigada por me chamar de esquisita.
– O diferente nem sempre é r**m. – Rouba um beijo casto e afasta meus cabelos desgovernados pelo vento para trás da orelha. – Vou te amar além da vida, eu juro...
– Você fala tão convicto de si anjo, que eu quase acredito!
– Devia acreditar, ninguém é tão sincero falando essas coisas de menininha quanto eu! – Pende seus lábios no meu, o seu gosto é tão doce quanto meu apelido.
– Gosto tanto de você.
– Um dia eu vou escutar tanto a frase "eu te amo” saindo dessa boquinha linda, terei que usar fones de ouvido para conter o enjoo. – Estar nos braços de Rafael Austin podia ser nivelado a estar voando em densas nuvens de algodão, lugar tão alto que somente suas belas asas poderiam me levar, como num sonho, mas real.
– Melhor do que escutar é sentir, não é?
– Eu sinto, vou sentir pra onde quer que eu vá Lay, foi exatamente por isso que ainda não enlouqueci, seu amor me manteve de pé...
– Qual o motivo de tanto romantismo?
– Eu sonhei que te perdi, foi doloroso suficiente pra nunca se quer cogitar a hipótese, a partir de agora serei o melhor pra você.
– Eu acredito na gente... Pra sempre...
As memórias que rodam minha cabeça são distintas de quaisquer que sejam as suas perspectivas. De nenhuma forma posso oferecer o que espera, sou apenas o que tenho, fora dos padrões e cheia de deslizes.
Levei anos para aprender a me amar, quase joguei tudo fora novamente, nenhuma regra consistiria na destruição do meu prometido. Ou do meu ex-prometido, talvez meu deva sair da frase.
Esse amor é grande o suficiente, para ser negado em prol do outro?
Se comparados um é toque, pele, voz, arrepios e o outro? O destino. HÁ como fugir disso? Posso olhar por detrás dos beijos e distinguir os nossos medos em comum? n**o seu amor se vinhesse com ele o arrependimento. n**o ainda mais forte se ele não arrancar me os pés do chão e levar para as estrelas. Um tão escuro quanto a noite, outro radia mais que o dia.
Escuro e luz, amantes fadados a viver separados, porquê um distingue do outro e quando esse vem, aquele se vai.
Quero deixa-lo, e pedir para que me deixe. Implorar para que não me ame. Mas enlouqueço com a possibilidade. Perder é como ter uma parte de ti jogada no abismo profundo do esquecimento.
Se engane se achar que meu amor não é divido, integro e puro! Um dentro do outro interligados é como o sol do meio dia, exposto a ele é impossível não se queimar.
Essa noite apenas rolei na cama do motel, de um lado pro outro, as cobertas pareciam grossas, mas foram frias demais para me aquecer. Meu bebê não mexeu, meus olhos arderam e chorei a perca de algo que nem ao menos sabia se tinha realmente ido.
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Antes mesmo que fosse possível raciocinar a porta abrindo, o loiro já começa falar em disparada. Resolvendo apagar a noite de ontem por opção.
– Trouxe café da manhã, o suficiente pra você aguentar uma hora de viagem de volta pra Longuine, ou seja, muita! – Brinca em tom sutil. Austin tinha dessas, de apenas deixar pra lá. Sei que guardava dentro de si a dor e que talvez mais cedo ou mais tarde o sofrimento poderia emergir e explodir. No entanto ele sabia muito bem a como se fingir de forte, eu admirava-o por isso.
Abro um grande sorriso, m*l me importando com a comida, a ansiedade em saber do seu paradeiro deixou meu estômago embrulhado. Corro para ele, junto meus braços ao seu pescoço nos juntando.
– Não some assim nunca mais! Que bom que você está bem.
– Não por muito tempo, se continuar a me enforcar. – Emana carinho de sua voz, penso em solta-lo, mas sou agarrada pela cintura. O menino beija minha bochecha conforme faz uma curva troncha acertando com sua boca minha barriga, pela primeira vez o filho se revira para o pai. A emoção toma conta dos nossos olhos, Rafael sussurra – ele mexeu pra mim, mexeu, meu bebê chutou a cara do papai. – Acaricio seu rosto abobalhado.
– Acredito que foi pela comida.
– Você nem está com fome, me atacou ao invés das minhas sacolas.
As palavras foram substituídas por sorrisos.
Depois de me alimentar muito bem. Rafael me obrigou a acompanha-lo até uma loja. Segundo ele tinha visto algo que não podia deixar de comprar. Com certeza pensei que seria um jogo para seu Xbox. Imagine a minha surpresa ao entrarmos em uma loja repleta de coisas para bebês. E pasmem a pessoa a ser controlada a comprar era ele.
– Nós nem sabemos o s**o, como vamos levar uma manta rosa Rafael?
– Vamos levar as duas então! Pronto. – A vendedora o encarava com os olhos brilhantes, soltava pequenos suspiros. A mim ela não notará, apenas quando a mão do homem conduzia minha cintura pela loja, ainda assim a olhada era de puro desdém.
Como alguém pode sentir ciúmes de algo que nem mesmo é seu? Quase ousei perguntar isso para a moça ruiva com olhos claros, não me aprofundei no detalhamento do seu rosto. E por incrível que pareça, nem mesmo Rafael se importou com a comissão de frente aparentemente enorme e chamativa.
– Meias, podemos comprar meias e tocas de lã!
– Tenho minhas dúvidas se titia Luana não irá querer fazer todas com as próprias mãos.
– Luana é meu amor, não minha escrava doce, por favor...
– Você e sua paixão platônica, por uma mulher vinte cinco anos mais velha – rimos da brincadeira.
O homem parece uma dona de casa compulsiva, olhando roupinha após roupinha.
– Pelo menos por ela sou correspondido – dá de ombros.
– Por mim também... – Finge não escutar a última frase, e agradeço porquê ali morreu mais uma discussão sem fundamento. Recuso a me entregar a Rafael novamente com Thor tomando conta dos meus sonhos. Posso sentir o seu toque sobre mim, o seu corpo grande e quente, tão protetor, o sorriso genuíno. – Vamos embora?
– Tudo bem, tenho uma reunião as 13:00 e não posso me atrasar. – Vira em direção a vendedora e sorri bonito pra ela quando percebe o belo pacote. Posso notar a mulher se segurar para não cair ali mesmo. – Vamos levar tudo!
– Tem roupa rosa e azul anjo.
– Tudo bem podemos dar a alguém depois de descobrirmos o s**o. E vamos fazer isso logo.
– Acho que nada que eu faça vai te conter, então que seja. Vamos levar tudo... – repito a frase para a vendedora, a qual continua parece desenhar o rosto de Rafael em sua mente.
Reviro meus olhos, acelerando os passos na intenção de dar espaço para Austin pegar seu telefone. Apesar do sentimento de posse a qual sou governada. Já cansei de prendê-lo a mim, pelo menos quando outro me prende.
Resolvo esperar no caixa olhando chupetinhas e seus diversos formatos de bico, isso seria interessante, levaria uma ortopédica para o bebê, li na internet que essas sãos as melhores. Mães de primeira viagem tem a internet como aliada para todos os momentos, já até baixei alguns programas sobre a gestação no meu celular, e pelos cálculos que fizemos, o meu bebê já está quase formadinho.
– Essas todas de silicone são melhores para esterilizar.
Levo a mão ao peito pulando com o susto da proximidade da voz em meus ouvidos.
– Caramba Rafael!
– Nossa, o que eu fiz dessa vez?
– Me assustou, como sabe essas coisas de bebês?
– Internet, pai de primeira viagem! Por que eu te assustei tem alface no meu dente?
– Você devia estar paquerando aquela vendedora! – Brigo em tom baixo. Nem mesmo eu consigo me entender estou com ciúmes? Ou com raiva porque ele se negou a fazer o que achei que faria? Disfarço abrindo um largo sorriso mentiroso na face quando a ruiva se aproxima.
– Eu prefiro paquerar a mãe do meu filho. – Seus braços serpenteiam meu corpo juntando ao seu quando as mãos acariciam minha barriga.
– Então chispa! Por quê a mãe do seu filho tem namorado. – O loiro não se move, muito menos se afasta, se quer se abala, apenas aspira o cheiro da minha nuca, fazendo com que o arrepio nasça maldosamente.
– Não estou cheirando bem, é um misto de vomito com motel barato. – Digo pelo fato do meu vestido vinho lavado com sabonete do banheiro do motel, ter sido vítima de um ataque de vômito. – Me solte – dou uma tapinha leve no seu braço – e vá pagar a conta.
Não temos problemas em passar o cartão black do menino. A moça ruiva sorridente do caixa embala as nossas compras, noto na televisão atrás dela imagens que tem uma consequência agressiva dentro de mim. Seguro com força as lágrimas nos olhos. Levo a mão a boca contendo o grito angustiante. Austin percebe o estado de choque e me puxa para si.
– Shiii! Vai ficar tudo bem... ele te ama, só parece perdido.
Pela primeira vez eu duvidei dos sentimentos de Thor Telles por mim!
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