Começo

1647 Words
Arkady percebeu o momento exato em que ela decidiu sair. Não foi anunciado. Não houve despedidas. Apenas um leve deslocar do corpo, um passo para trás, depois outro, até que ela se afastou do salão como quem escapa sem ser notada. Ele observou enquanto atravessava as portas de vidro que levavam ao jardim, o tecido leve do vestido florido contrastando com o luxo rígido do ambiente que deixava para trás. Ele deveria ter ido embora. Pensou nisso por um segundo inteiro. Então a seguiu. Não de forma óbvia. Não apressado. Apenas acompanhando à distância, como fazia em situações muito diferentes daquela. O jardim era amplo, iluminado por luzes baixas e discretas, planejadas para realçar as esculturas e o pequeno chafariz central. A música do salão chegava abafada ali fora, quase irreconhecível. Ela caminhou alguns metros antes de se sentar em uma das mesas de pedra próximas ao chafariz. Cruzou as mãos no colo e ficou observando a água cair em ciclos lentos, hipnóticos. Não parecia ansiosa. Nem inquieta. Apenas… presente. Arkady parou a alguns passos de distância. Observou. O modo como ela respirava. O jeito como inclinava levemente a cabeça, como se estivesse ouvindo algo além do som da água. Ele se aproximou devagar. — Lindo, não é? A voz dele soou baixa, controlada, quase respeitosa. Ela o olhou rapidamente. Um movimento curto, instintivo. Não houve susto. Apenas surpresa. Em seguida, assentiu com um leve aceno de cabeça, os olhos retornando ao chafariz. Arkady acompanhou o olhar dela. — Uma escultura rara do século dezoito — acrescentou. — Veio da França, se não me engano. Ela voltou a encará-lo, dessa vez por um segundo a mais. Parecia… sem graça. Como se não soubesse exatamente o que fazer com aquela informação. O silêncio entre eles não era desconfortável, mas carregado de algo novo, indefinido. Ela mexeu levemente os dedos, depois as mãos, como se ensaiasse uma resposta que nunca chegava pela voz. Arkady percebeu. Não pela ausência de som. Mas pelo cuidado excessivo com os gestos. — Qual é o seu nome? — perguntou, sem pressionar. Ela inspirou fundo. Levantou as mãos com delicadeza e começou a gesticular. Os movimentos eram fluidos, contidos, claros. Não havia pressa. Nem teatralidade. Apenas comunicação. Arkady observava com atenção absoluta. Anya. Ela apontou para si mesma, repetiu o gesto, e então fez outro sinal, mais lento, mais explicativo. Muda. Não s***a. — Anya… — disse Arkady, em voz baixa, assim que ela terminou. — Eu entendi. Ela congelou. Os olhos se arregalaram levemente, o corpo ficando tenso por um breve instante. Não de medo. De surpresa genuína. Pouquíssimas pessoas entendiam. Menos ainda se davam ao trabalho. Arkady ergueu as mãos, repetindo o gesto que ela fizera segundos antes. Anya. Depois outro, firme, claro. Eu entendi. O silêncio entre eles se transformou. Não era mais vazio. Era compartilhado. Ela piscou algumas vezes, como se precisasse confirmar que aquilo estava mesmo acontecendo. Um sorriso pequeno — quase invisível — surgiu em seus lábios, rápido demais para ser chamado de alegria, mas real o suficiente para existir. Arkady sentiu algo apertar em seu peito. — Eu aprendi há alguns anos — explicou, sem saber por que sentia a necessidade de justificar. — Por causa de um acordo que deu errado. Não disse mais nada. Não precisava. Ela assentiu lentamente, aceitando aquela informação como aceitava tudo: sem perguntas desnecessárias. Seus olhos voltaram ao chafariz por um instante, depois retornaram para ele. Ela gesticulou novamente. Você não parece gostar de festas. Arkady quase sorriu. — Não gosto — respondeu. — E você? Ela fez um pequeno movimento negativo com a cabeça. Depois, um gesto simples, quase triste. Aqui é barulhento demais. Arkady entendeu o peso daquilo. O som não estava apenas nos ouvidos. Estava nos olhares, nas intenções, nas expectativas. O salão era um lugar c***l para alguém como ela. Ele olhou em direção às portas de vidro por um segundo. Depois voltou-se para Anya. — O jardim é mais silencioso — disse. — Costumo preferir assim. Ela o observou com atenção renovada. Como se estivesse, naquele instante, enxergando algo além da superfície. Algo que ninguém mais parecia notar. Anya fez um último gesto, hesitante. Por que você veio atrás de mim? Arkady demorou a responder. Não porque não tivesse palavras. Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, não tinha certeza da verdade. — Porque você saiu — disse, por fim. — E eu ainda não queria ir embora. Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos. Não havia julgamento ali. Nem expectativa. Apenas compreensão silenciosa. A água do chafariz continuou a cair. E, naquele jardim frio, Arkady Volkov teve a estranha sensação de que algo havia começado — não com uma ordem, nem com violência, mas com um gesto simples de mãos que se entendiam. Arkady sabia exatamente o que acontecia com mulheres como Anya. Não era suposição. Era experiência. Aquelas que não se encaixavam, que não falavam demais, que não sabiam se vender, que não serviam como moeda clara de troca… eram descartadas com facilidade assustadora. Primeiro vinham os silêncios constrangedores, depois os “acordos necessários”. Famílias as empurravam para longe como quem se livra de um problema incômodo. Algumas acabavam em bordéis que se disfarçavam de clubes privados. Outras desapareciam em cidades onde ninguém fazia perguntas. As menos afortunadas terminavam nas ruas, invisíveis, quebradas, esquecidas. Anya não sobreviveria a isso. Arkady ficou de pé no jardim por mais alguns minutos depois que ela retornou ao salão, observando a água do chafariz cair sem interrupção. Em algum momento, voltou para dentro, pegou um copo de uísque — não vodca — e encostou-se próximo ao bar, longe do centro da festa. Bebeu devagar. Não pelo gosto. Pelo tempo. O silêncio dela não saía de sua mente. Não como fragilidade, mas como algo perigoso demais para aquele mundo. Pessoas silenciosas ouviam demais. Aprendiam demais. E, por isso mesmo, eram as primeiras a serem esmagadas. Ele não sabia por que se importava. Só sabia que se importava. Ao longe, viu Viktor Kolesnikov conversando com dois homens mais velhos, postura rígida, olhar atento. Um homem tentando manter algo sob controle enquanto o chão começava a ceder sob seus pés. Arkady reconhecia aquele tipo de desespero disfarçado. Protegida, Aleksandr dissera. Arkady sabia ler melhor as entrelinhas. Anya não estava sendo protegida. Estava sendo adiada. Quando deixou a festa naquela noite, não olhou para trás. Já tinha decidido. Na manhã seguinte, São Petersburgo amanheceu coberta por um cinza espesso. A neve fina acumulava-se nos parapeitos, e o frio cortava a pele com precisão cirúrgica. Arkady atravessou os corredores da mansão do irmão como fazia desde sempre — sem ser anunciado, sem pedir permissão. O escritório de Aleksandr ficava no último andar. Portas de madeira escura. Janelas amplas demais para alguém que entendia de verdade o conceito de segurança. O Pakhan estava de pé, observando a cidade, um copo de café intacto sobre a mesa. — Você chegou cedo — comentou, sem se virar. Arkady fechou a porta atrás de si. — Não dormi. Aleksandr finalmente se voltou, sobrancelhas arqueadas com leve curiosidade. Conhecia o irmão o suficiente para saber que aquilo não era comum. Arkady não perdeu tempo. — Eu quero me casar com Anya. O silêncio que se seguiu foi pesado. Aleksandr piscou uma vez. Depois outra. O choque não foi teatral. Foi real. — A muda? — perguntou, incrédulo. — Arkady… com tantas mulheres disponíveis… — Nenhuma delas serve — interrompeu, a voz firme. Aleksandr soltou uma risada curta, sem humor, passando a mão pelo rosto. — Você está me dizendo que, de todas as opções possíveis, escolheu justamente a filha problemática de Viktor Kolesnikov? Arkady não desviou o olhar. — Sim. — Ela não fala — insistiu o irmão, como se aquilo encerrasse qualquer discussão. — Não foi criada para esse mundo. m*l aparece em público. É um risco. — Justamente. Aleksandr estreitou os olhos. — Desde quando você escolhe riscos desnecessários? Arkady aproximou-se da mesa, apoiando as mãos sobre a madeira escura. — Desde que você decidiu que eu precisava me casar. O irmão ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando. Arkady conhecia aquele olhar. Aleksandr já não pensava como irmão. Pensava como Pakhan. — Viktor vai interpretar isso como fraqueza — disse Aleksandr. — Vai achar que você se afeiçoou. — Viktor não interpreta nada — Arkady respondeu. — Ele aceita. — E se não aceitar? Arkady deu de ombros. — Então ele perde a filha de qualquer maneira. O peso daquelas palavras pairou no ar. Aleksandr suspirou fundo, caminhando até a janela novamente. — Você não costuma se apegar — disse, mais baixo. — Por que agora? Arkady demorou a responder. — Porque ela não pertence a esse jogo — disse, por fim. — E porque ninguém mais vai protegê-la. Aleksandr virou-se devagar. — Você não protege ninguém, Arkady. — Eu sei — respondeu. — Mas posso impedir que ela seja destruída. O irmão o encarou por longos segundos. Havia surpresa, sim. Mas também cálculo. O casamento resolveria mais de um problema. Kolesnikov ficaria sob controle. Arkady cumpriria seu papel. A Bratva ganharia estabilidade. — Você entende o que isso significa? — perguntou Aleksandr. — Uma esposa muda. Todos vão olhar. Todos vão comentar. — Deixe que olhem. — Ela vai viver na sua casa. Carregar seu sobrenome. Ser associada a tudo o que você é. Arkady não hesitou. — Melhor comigo do que com o resto do mundo. O silêncio se alongou novamente. Aleksandr respirou fundo. — Muito bem — disse, finalmente. — Se é isso que você quer… faremos do jeito certo. Arkady assentiu uma única vez. Ao sair do escritório, sentiu algo estranho se acomodar em seu peito. Não era alívio. Não era dúvida. Era a certeza perigosa de que acabara de mudar o destino de alguém — e, talvez, o seu próprio. E Anya ainda não fazia ideia.
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