Depois de alguns minutos no carro de Raquel, ouvindo minha amiga tagarelar sobre seu noivo médico perfeito, chegamos ao Maison Rubra. Uma fila de carros se formava à nossa frente, e os convidados desembarcavam em um tapete vermelho repleto de fotógrafos de revistas e jornais e alguns paparazzis de blogs de fofocas. Ainda estávamos longe da entrada, mas eu já conseguia ver as mulheres que chegavam. Todas ricas, agarradas nos braço de seus maridos milionários e usando vestidos de grife. Apertei a bolsa clutch em meu colo, nervosa. Não era a primeira vez que eu era convidada para um evento tão importante, entretanto, eu sempre ficava nervosa com a possibilidade de deixar transparecer que eu não pertencia ao mesmo universo de todas aquelas pessoas. Para elas, era natural saber diferenciar os garfos e colheres e as taças de vinho. Eu vinha de um lugar onde qualquer colher servia e os copos eram de plástico pois os copos de vidro eram reservados para o Natal e ano novo.
Raquel pareceu ter notado minha ansiedade, pois tirou uma das mãos do volante e segurou firme em meu ombro, com aquele sorriso dócil que me fazia sentir culpada por não ser tão boa amiga assim.
— Você é a mulher mais linda daqui — Minha estilista soou extremamente sincera. Andamos mais alguns centímetros e outra família rica posou no tapete vermelho. — E é a única usando uma peça original Raquel Devêroux.
Sorri para ela, tentando parecer mais "obrigada por ser minha amiga" e menos "obrigada por esfregar na minha cara sua grife de roupas, queridinha".
— Farei questão de falar o seu nome para todos os entrevistadores.
Voltei a olhar para o tapete vermelho, onde mais um casal com a conta bancária mais cheia que o Oceano Atlântico sorria para as fotos. Eu conhecia a maioria daquelas pessoas, pois parte do meu trabalho é estar atualizada sobre a vida quase secreta da elite brasileira. Eu sabia exatamente qual escola aquelas famílias escolhiam matricular seus filhos, sabia onde encontravam os melhores e mais confiáveis empregados domésticos e sabia sobre seus investimentos mais bem sucedidos. Uma mulher esperta observa a vida de quem ela quer se assemelhar. Faz parte do meu estudo.
Alguns minutos depois, o carro de Raquel estacionou em frente ao tapete vermelho. Todos os fotógrafos estavam em posição para registrar a chegada do próximo convidado da festa. Olhei minha maquiagem e meu cabelo no espelho uma última vez. Raquel me encarou, deu uma piscadela e destracou a porta do carro. Era, enfim, meu momento de brilhar.
Abri a porta do carro lentamente, na intenção de causar certo suspense e ansiedade nos paparazzis. Primeiro, posicionei elegantemente meu pé direito na calçada, para conseguir apoio e equilíbrio, e, em seguida, saí do veículo deslumbrantemente. Posicionei-me no tapete vermelho, uma mão na cintura e a outra exibindo a bolsa da MiuMiu. Num primeiro momento, percebi uma única expressão nos rostos dos fotógrafos: admiração. Antes que pudesses me fotografar, pareciam querer ter uma imagem mental exclusiva de mim. Me olhavam de cima abaixo, com uma mistura de desejo e respeito. Depois de alguns longos segundos embasbacados com a minha presença — algo que, confesso, estou acostumada a causar nas pessoas —, uma profusão de flashes veio em minha direção. Tornou-se difícil para mim caminhar até a entrada do evento.
— Ao vivo! Viviane Beltrão, a socialite mais cobiçada do Rio de Janeiro, acaba de chegar à inauguração do Maison Rubra aqui em Copacabana!
— Uma das presenças VIP´s que acaba de chegar à festa, Viviane Beltrão, desfila pelo tapete vermelho nesse exato momento!
— Viviane, é verdade que sua empresa acaba de fechar um acordo com o hotel Maison Rubra?
— Aqui, Viviane! A sua foto com a Kim Kardashian é verdadeira ou inteligência artificial?
— Viviane, é verdade que você passará a representar a empresa da Virgínia internacionalmente?
Vários urubus vieram até mim com seus microfones e câmeras. O que torna uma mulher mais sábia e mais inteligente do que as outras é saber a hora de falar e a hora de ficar calada. Decidi ignorar todos os repórteres que fossem de emissoras irrelevantes ou sensacionalistas, quero que saibam que conseguir uma entrevista comigo é um luxo que eles não conseguirão.
— Viviane, meu nome é Letícia e eu sou representante da Vogue Brasil! Quem assinou o vestido que você está usando esta noite? —Olhei para uma jornalista baixa, com cabelos desgrenhados e óculos grandes demais para seu rosto. Quando ouvi o nome da Vogue, não pude evitar abrir um sorriso ainda melhor. é sobre isso ue estou falando: uma mulher relevante sabe com quem deve falar, e eu não seria considerada inteligente se não soubesse que nunca se joga fora a oportunidade de falar com a Vogue Brasil.
— Essa é uma peça exclusiva do ateliê Raquel Devêroux — Exibi o decote nas costas e passei a mão delicadamente pela gola alta que estava sendo enfeitada por um lindo e original colar de pérolas. — Minha costureira, estilista e amiga nas horas vagas. A mais competente de toda a América Latina.
— E essa bolsa clutch que você está usando, o que pode nos dizer sobre ela? — Letícia fez mais uma pergunta, enquanto ainda anotava minha fala em seu pequeno caderninho.
— Essa bolsa é uma edição limitada da MiuMiu. Uma das poucas no Brasil. — Passei a mão pela bolsa de couro vermelho rubi, sentindo o poder e a exclusividade que aquele simples acessório me trazia. — Eu poderia estar completamente nua, e, ainda assim, me sentiria a mais bem vestida daqui apenas com essa bolsa.
Letícia riu, terminando de escrever, e me encarou pela primeira vez desde que me interrogou.
— Muito obrigada, senhora Viviane. A sua entrevista sairá na próxima edição da revista, e com certeza eu vou receber um bônus da minha chefe por conseguir te entrevistar — A garota parecia tão honesta e agradecida que eu senti pena. Eu poderia dar a ela alguma inormação confidencial da minha vida apenas para ver aqueles enormes olhos castanhos brilharem de alegria pensando na recompensa que ganharia da revista por publicar um artigo exclusivo sobre mim. Nesse momento, questionei se a minha humanidade ainda existia, pois apenas uma pessoa que não aprendeu a jogar fora seus resquícios de ser humano cometeria tal idiotice. — Podemos tirar uma foto exclusiva sua para a página?
— Quem diz não à Vogue?
A esse ponto, estávamos na porta de entrada do hotel. A entrada do hotel impunha respeito antes mesmo de exibir o conteúdo que guardava ali dentro. As portas eram feitas de madeira maciça, com detalhes entalhados que denunciavam o cuidado minucioso do trabalho artesanal. Posei em frente à porta, me sentindo apagada pela imponência e luxo que um simples objeto inanimado transmitia. Ignorei esse sentimento, afinal, que tipo de pessoa compete com um objeto?
Dei meu melhor sorriso, contido, porém, elegante, e o fotógrafo fez a foto. Letícia veio até mim uma última vez, sendo fuzilada pelos olhares invejosos de todos os jornalistas que estavam ali.
— Obrigada, senhora Beltrão.
Me limitei a olhá-la sem muito afeto, e as portas duplas se abriram para a minha entrada.
Enfim, era meu momento de realmente marcar o ambiente com minha ilustre presença.