O sinal toca, segundos mais tarde o portão azul der ferro abre e os alunos começam a sair.
Procuro Renata entre os alunos, olhando com atenção cada criança que saia.
Até que a vejo se aproximar da porteira e sorri ao me notar.
- Mãe! – diz correndo até mim, abraçando minha cintura – Você veio cedo hoje.
Havia aproveitado que Maurício não havia voltado da audiência e saído faltando meia hora para às cinco.
- Como foi hoje na escola? – Renata era uma das poucas crianças que estudavam dois turnos.
O motivo para estudar dois turnos, era por não haver ninguém que a buscasse meio dia e pela longa distância que ela teria que percorrer para voltar para casa.
- Tirei 7 na prova de matemática.
- Da próxima vez, consegue tirar mais.
- Uma menina só que tirou 10.
- Mais um motivo para se esforçar mais da próxima vez.
Ela fica em silêncio por algum tempo. O olhar quase que perdido em meio aos pensamentos.
- Queria que meu cabelo fosse liso – diz de repente, me fazendo franzir o cenho.
- Qual o problema com seu cabelo? – Adorava os cachos pequenos dela, com o comprimento até o meio das costas. Gostava de associar a uma juba de leão, pelo volume e o poder que transmitia.
- Não gosto dele.
Aquelas três palavras me puxaram com força para o passado. Um tempo no qual doía quando vó Marta ia pentear meus cabelos e que o desejava liso por ser mais fácil e mais bonito.
Sempre fui apaixonada por cabelos lisos, desde pequena. Era meu sonho, ter um cabelo que fosse até o final das minhas costas.
As poucas crianças de cabelos lisos que conhecia naquela época, me faziam ter inveja, sem ao menos eu saber o que era inveja.
Me lembro bem de quando estava na 4° série. Havia uma menina branca, loira, cujos cabelos eram lisos; que sempre se sentava na minha frente.
Quase não prestava atenção na aula mas, sempre na beleza dos seus cabelos.
Uma vez, no ápice da inveja, até tramei mentalmente em cortar seus cabelos com uma tesoura de papel.
Só anos mais tarde, quando tive um corte químico por causa de um erro da cabeleireira, fui me apaixonar e valorizar a textura do meu cabelo. Entendendo toda a história por trás dele.
- Não tem nada de errado com seu cabelo, Renata – digo atraindo seu olhar – Seu cabelo é lindo e deveria estar feliz.
Ela volta a olhar para frente com a expressão séria.
Abro o pequeno portão de ferro algum tempo depois, permitindo que passe em minha frente mau humorada.
- Vocês chegaram cedo – Vó Marta comenta, colocando água quente no coador do café.
- Sai mais cedo – digo deixando a bolsa de lado.
- O que aconteceu com a Renata? – pergunta quando a mesma vai direto para o quarto.
- Está chateada com o cabelo.
- Não vejo problema no cabelo dela.
- Foi o que disse – suspiro cansada, sorrindo lentamente – Adivinha quem passou no concurso da defensoria pública?
Ela n**a com a cabeça, entretida com o café.
- Não sei, Gabi – Continuo olhando para ela, até que me olha e sua expressão se torna de surpresa – Você? Você passou no concurso?
- Passei!
- Minha filha! Que maravilha! Que Deus abençoe você! – Ela solta a panela, me abraçando com força – Era o que você mais queria.
- Era mesmo.
- Você merece – Continuamos ali abraçadas, até que vô Alceu entra na cozinha.
- Por quê todo esse choro? – pergunta sério.
Vó Marta se vira para ele sorrindo.
- Gabi passou no concurso.
- Isso não quer dizer nada para mim. Já fez o café?
- Já. Está aqui.
Ele pega uma xícara no armário, se servindo.
- Pelo menos agora vai conseguir fazer igual sua irmã e sair de casa.
Vó Marta volta a olhar para ele, agora sem o sorriso de felicidade de segundos atrás.
- Esta casa também é delas, Alceu.
Ele resmunga algo baixo, antes de ir para a sala.
- Não liga para seu avô. Tem dias que ele está atacado e não consegue ficar feliz por ninguém – diz afagando meu braço – Então agora vai sair do escritório do seu Maurício?
- Vou esperar terminar o mês.
Ela assenti, começando a preparar o jantar.
- Suas irmãs vão ficar feliz com por você.
Sei que iriam. Sempre lutamos juntas por nossos sonhos.
Naquela noite, depois do jantar e de lavar a louça, sento na mesa da cozinha com o processo do detento Marco Oliveira Silva, acusado de associação ao tráfico e por tráfico de drogas, pois era o chefe da quadrilha que dominava o morro da Rocinha.
Puta merda.
Seguro minha cabeça com as mãos, sem acreditar que meu primeiro caso era de um traficante.
Em sua defesa, Marco alegou que chegou a ser um dos chefes do tráfico na Rocinha mas que, depois de ter sido preso, deixou de ser traficante, dizendo por fim, que não se aprendia de ser traficante.
Ele só podia estar de brincadeira com minha cara.
Marco estava preso no Presídio Federal do Rio de Janeiro e iria ser levado a julgamento dentro de quinze dias.
- Só vai comer isso, Gabi? – Vó Marta pergunta na manhã seguinte, quando só me sirvo de dois dedos de café e um pouco de leite.
Não havia pães para todo mundo e Renata já estava comendo um.
Ainda faltava Gio, que estava atrasada, isto devido ao horário que chegou na noite passada. Afirmo isto, pois já estava deitada algum tempo quando ouvi ela pela casa.
- Tenho que ir no presídio.
- Minha nossa Senhora da Conceição – Ela faz o sinal da cruz – Tome cuidado, minha filha.
- Tá tudo bem, vó – Me aproximo beijando seu rosto – Vamos, Rê.
Renata termina de tomar o café com leite levantando.
- Não está esquecendo de nada, Renata? – Dona Marta pergunta, quando a menina faz menção de sair da cozinha.
Ela sorri, voltando.
- Tchau, bisa.
- Se comporte e preste atenção na aula – diz beijando a cabeça dela.
No caminho para a escola, mando uma mensagem para Maurício dizendo que iria chegar um pouco mais tarde.
Ele só visualiza.
Precisei ir para o terminal, pegar mais dois ônibus e andar praticamente quinze minutos para chegar no presídio federal.
Me aproximo da guarita, sorrindo sem mostrar os dentes para o guarda atrás do vidro.
- Bom dia. Sou advogada do detento Marco Oliveira – Pego minha carteirinha da OAB, notando a confusão estampada na cara dele – O Nem 157 – suspiro.
- Entendi – diz liberando a porta ao lado.
Outro guarda vem na minha direção e preciso explicar tudo novamente, para em seguida ser levada para uma sala, na qual fui orientada a ficar completamente nua, onde uma agente revista até meu cabelo que, naquele dia estava solto.
Um pequeno espelho é colocado na minha frente e preciso me agachar em cima dele, para verificar se não havia nada em meu útero.
Todos os procedimentos que já estava esperando.
Por último e finalmente, após assinar um documento, sou conduzida a outra sala, onde me sento em uma cadeira para esperar meu cliente.
Minutos mais tarde, a porta novamente abre e um homem de uniforme azul-escuro entra. Erguendo a cabeça quando fica diante da mesa e reconheço os olhos pelos quais jurei nunca mais esquecer.