Eu não queria mais pedaços soltos, fragmentos de histórias distorcidas para se encaixarem nos interesses do meu pai. Cansei de ser moldada para ser um presente, uma peça no tabuleiro dele. Precisava ouvir a verdade, diretamente da boca de Luca.
— Quero que você me conte. — Minha voz saiu firme, apesar do nó na garganta. — Estou cansada de ser usada, de ser protegida como uma extensão dos planos do meu pai. Não quero mais documentos ou meias-verdades. Eu quero ouvir de você.
Luca me olhou por um longo tempo. Eu pude ver o conflito dentro dele, o peso do que estava prestes a dizer. Mas, acima de tudo, eu vi algo que nunca encontrei nos olhos de nenhum homem antes: proteção.
—Senta aqui comigo. — Ele disse, batendo levemente no sofá ao lado dele.
Obedeci, sentando ao seu lado sem desviar os olhos dos dele. Meu coração batia rápido, e minhas mãos estavam frias, mas mantive a expressão impassível. Então ele começou a falar, sua voz compartilhou algo que eu não consegui definir:
— Isso começou muito antes de você imaginar. Antes mesmo de o meu pai morrer, ele já estava sendo ameaçado. Pequenos avisos no começo, olhares estranhos, mensagens anônimas. Até que os membros da Bratva cruzaram nossos limites. O território que sempre foi nosso começou a ser invadido.
Ele fez uma pausa, como se revivesse cada momento em sua mente.
— Seu pai, tentando conter o caos, propôs uma aliança. A Cosa Nostra e a Família Real Britânica, juntas. — Luca soltou uma risada sem humor. — Mas essa aliança foi só uma ilusão. Eles não nos deram lealdade. Deram ao Don da Bratva a localização exata da casa da minha família.
Meu estômago revirou. Eu já sabia que meu pai era um estrategista, que sempre jogava com vantagens ocultas, mas ouvir aquilo...
— Meu pai foi morto numa emboscada. — Luca contínuo, os olhos fixos em algum ponto distante. — Eu e Matia passaram meses tentando juntar os pedaços, procurando respostas. Quando encontramos os homens que fizeram isso... nós os interrogamos até conseguirmos algo concreto.
Ele não entrou em detalhes para que eu entendesse o que "interrogamos" queria.
— Foi quando recebemos informações da polícia. Mensagens, ligações rastreadas. Tudo apontava para um único nome.
Ele me olhou nos olhos antes de dizer.
— O conselheiro pessoal do seu pai.
Senti o ar me faltar por um instante. Conhecia aquele nome. Sabia exatamente quem era.
— Não... — Minha voz saiu num sussurro.
Mas não havia como negar. Tudo faz sentido agora. As sombras, os segredos, as decisões inexplicáveis que meu pai tomava.
— Eu sei que é difícil. — Luca disse, mais suave agora. — Mas você precisa saber. Agora que sabe, o que vai fazer com essa verdade?
Engoli em seco, meu coração batendo descompassado. Toda a minha vida, sempre me disseram quem eu era, o que deveria fazer, como deveria agir. Mas, pela primeira vez, eu tinha o poder de escolher.
E eu sabia exatamente qual seria a minha resposta.
Luca me observava em silêncio, seus olhos avaliando cada mínima minha ocorrência. Eu ainda tentei processar tudo, as peças se encaixavam de forma brutal na minha mente, mas ele não me deu tempo para respirar.
— Eu sei por que seu pai propôs esse casamento. — Sua voz era baixa, carregada de um veneno que me fez estremecer. — Ele não quer uma aliança, Elena. Ele quer terminar o que começou. Ele quer me matar e levar tudo o que é meu.
Minha respiração ficou presa na garganta. Meu pai sempre foi ambicioso, mas… será que ele realmente planejou tudo desde o início?
Luca inclinou o corpo aprimorado para frente, sua presença dominando o espaço entre nós.
— Mas isso não vai acontecer. — Ele declarou com uma certeza c***l. — Diferente do seu pai, eu não tenho piedade. Nem dele, nem de ninguém. E se você me trair ou escolher o lado errado, também não tenho de você.
Meu coração martelou forte contra o peito, não de medo, mas de algo muito maior. A realidade estava me esmagando, uma verdade que eu nunca quis encarar: eu nunca fui uma filha. Eu fui um plano. Um meio para um fim.
— Isso é… — Minha voz falhou. Fechei os olhos por um segundo, tentando encontrar coerência no caos. — É muita coisa para pensar. Eu m*l consigo imaginar algo assim. Minha vida inteira, tudo o que eu fui ensinada, tudo o que eu fiz… no fim, eu nunca tive escolha. Eu fui criada para ser isso.
O peso daquelas palavras me atingiu com força. Eu era apenas uma peça no jogo do meu pai.
Luca ficou em silêncio por um momento, mas então sentiu o calor de sua mão cobrindo a minha. Seu toque era firme, decidido. Quando olhei para ele, não vi frieza ou brutalidade. Vi uma promessa.
— Se você escolher ser leal a mim, Elena… — Seus dedos apertaram os meus com determinação. — Então eu queimarei até o inferno por você, se for preciso.
Eu prendi a respiração.
— Mas uma coisa eu te prometo. — Ele contínuo, sua voz grave e definitiva. — Nunca mais ninguém vai te controlar. Nunca mais.
As palavras dele se espalharam dentro de mim como um incêndio. Eu não sabia o que fazer com elas ainda, mas pela primeira vez, algo dentro de mim sugeriu que talvez, só talvez, eu pudesse ser mais do que apenas um plano.