Eu a vejo antes que ela me veja. Elena está ali, no meio do meu escritório, segurando aquela pasta como se fosse a única coisa que a mantivesse de pé. Meu sangue ferve. Ela não deveria estar aqui. Ninguém deveria estar aqui. Mas é ela. E aqueles papéis... aqueles papéis que eu guardei por anos, escondidos até de mim mesmo, estão agora em suas mãos.
— O que você está fazendo aqui?
Minha voz soa mais áspera do que eu pretendia, mas não consigo ajudá-lo. Ela se vira, os olhos arregalados, como uma presa acuada. Os papéis voam pelo chão, e eu vejo a confusão, o medo, a curiosidade em seu rosto. Ela gagueja algo sobre insônia, sobre não conseguir dormir. Insônia? É essa a desculpa que ela me dá?
— Então você achou que seria uma boa ideia bisbilhotar? — Pergunto, avançando em sua direção. Cada passo que dou parece ecoar no silêncio da sala. Ela se agarra aos papéis como se fossem sua salvação, como se eu fosse arrancá-los de suas mãos a qualquer momento. E talvez eu devesse. Mas há algo em sua expressão que me faz parar.
— Entregue-os — digo, estendendo a mão. Minha voz é firme, mas há uma tensão nela que eu não consigo disfarçar.
Ela balança a cabeça, os olhos brilhando com uma determinação que eu não esperava.
— Não. Conte-me a verdade. Eu mereço saber.
Eu rio, um som seco e sem humor.
— Isso não diz respeito a você, Elena.
— Eu serei sua esposa — ela rebate, a voz tremendo, mas firme. — É meu direito saber.
Eu paro. Ela está certa, e isso me irrita. Mas também... também há algo nela, algo que me faz querer contar. Algo que me faz querer que ela entenda. Um sorriso involuntário surge no meu rosto, e eu me aproximo mais, sentindo o perfume dela invadir minhas narinas. É doce, como flores silvestres, mas há uma força por trás dele, algo que me atrai de uma forma que eu não consigo explicar.
Ela está contra a escrivaninha agora, e eu sinto a pulsação dela acelerar. Está tão perto que posso sentir o calor de seu corpo. Só mais um passo, e eu poderia beijá-la. Mas não. Eu resisto. Coloco as mãos nos bolsos, tentando manter o controle.
— Está bem — digo, finalmente. — Você quer a verdade? Então aqui está. O seu pai, Elena, foi o mandante da morte do meu pai."
Ela estremece, como se eu tivesse batido nela. Os olhos se enchem de lágrimas, mas ela não as deixa cair. Em vez disso, ela me encara, e há algo em seu olhar que me faz sentir... exposto.
— Como você sabe disso? — Ela pergunta, a voz quase um sussurro.
— Matias e eu descobrimos — respondo, evitando os detalhes. — Há anos. Foi por isso que o casamento foi arranjado. Para selar a paz. Para garantir que sua família pagaria pelo que fez."
Ela balança a cabeça, como se tentasse negar o que eu estou dizendo.
— Meu pai... ele nunca... Precisa me contar tudo. Eu preciso saber!
— Ele fez. — interrompo, minha voz mais dura do que eu pretendia. — E agora você está aqui. E eu... eu não sei o que fazer com você.
— Como você descobriu?
Elena deixa os papeis sobre a mesa, o choque tomando seu rosto por completo, me levando a crer que ela não fazia ideia disso;
— É uma longa história, e ainda não se é digna de confiança para que saiba.
Ela se vira, me olhando com o rosto tomado de decepção.
— Não sou digina? Estou presa à você! A está casa e essa maldita família e quer questionar a minha confiança?
— Um casamento não é sinal de confiança, apenas contrato. Se quer ser digna disso então terá que provar que não está aqui como espiã. Que está família é a sua escolha e onde estará sua lealdade.
— Como?
— Saberá em breve.
Ela olha para mim, e há algo em seu olhar que me faz querer abraçá-la e afastá-la ao mesmo tempo.
Mas eu não faço nenhum dos dois.
Em vez disso, eu me afasto, sentindo o peso da verdade entre nós.