Doces Lágrimas Silenciosas e Vizinhos que Protegem

2709 Words
— Eu vi. A voz de Kihyun ao seu lado acabou fazendo com que Yoongi se assustasse minimamente, estava deveras concentrado nas correções que estava fazendo em um artigo para o dia seguinte, a história contada ali era muito interessante, ao ponto de fazer o Min se desligar do mundo, se importando mais com o que estava lendo do que com as correções em si, e não havia de que se preocupar, o artigo estava praticamente perfeito. — O que você viu? — perguntou tentando entender o que o amigo estava falando. — Você chegando hoje mais cedo, eu estava na cafeteria e consegui ver muito bem o rosto do motorista do carro que te deixou aqui. — um sorrisinho esperto surgia no rosto do Yoo, que de longe era a pessoa que mais torcia para que Yoongi encontrasse alguém, e não deixava que nenhuma oportunidade passasse, qualquer interação do Min com qualquer homem já era motivo de estardalhaço do mesmo — Ele é muito bonito, estão saindo? Em certos momentos isso chegava a irritar Yoongi, que já havia dito várias vezes que não estava interessado em se relacionar com ninguém no momento, e que demoraria a se interessar por um companheiro. Mas naquele momento, um sorriso discreto surgiu entre os lábios do Min, um ato involuntário, só pelo simples fato de relembrar a carona agradável que havia ganhado essa manhã. — Não há nada entre mim e Hoseok, ele é apenas um amigo que me deu uma carona. Yoongi sabia que aquele assunto estava apenas começando, quando Kihyun colocava algo na cabeça, não sairia facilmente, ainda mais quando se tratava da vida amorosa do Min. Yoo Kihyun para sempre daria uma de cupido para cima do amigo, e só descansaria em paz quando Yoongi estivesse com alguém. — Ter um amigo já é um avanço, velho ranzinza. — e por mais estranho que pudesse parecer, velho ranzinza era um apelido carinhoso — Mas você faltou ontem, você nunca falta, estava com ele? Kihyun havia tocado num ponto que estava começando a incomodar, a língua do Min coçava para compartilhar com alguém o que estava acontecendo, e não havia ninguém melhor do que seu único amigo de verdade no trabalho. Não que as pessoas não conversassem muito com Yoongi no ambiente de trabalho, era Yoongi que não conversava com as pessoas ali. — Na verdade eu estava mesmo com ele, mas não é nada disso que você está pensando, seu pervertido com carinha de criança. — parou por um momento, queria encontrar as palavras certas para falar aquilo, era um assunto importante, era O Assunto, algo que mexia com todos os detalhes de sua vida — Vou adotar um menino, Kihyun, e Hoseok está me ajudando com isso. O queixo do Yoo veio ao chão, o mais novo procurou qualquer indicio de brincadeira no rosto do Min, o que não encontrou, o deixando ainda mais incrédulo de tudo. Algo ali não se encaixava, algo ali o atordoava, quando se despediu de Yoongi na sexta-feira passada, se despediu de um rapaz que preferia ficar sozinho e ter seu espaço, e não de um homem que desejava adotar uma criança. Seja lá o que tenha acontecido no final de semana, deveria ter sido muito bom. — Está falando sério? — foi a única coisa que seu cérebro conseguiu formular naquele momento. — Estou. — o Min respondeu, pondo um pequeno sorriso em seus lábios, um daqueles sorrisos que havia aprendido com Hoseok, um sorriso de esperança, desses que aparecem quando você quer acreditar que algo parece ser impossível — Encontrei um garoto perdido na rua, estou apaixonado por ele, quero que ele seja meu filho. — E esse garoto não tem família? — Os pais dele morreram em um incêndio, e o garoto foi rejeitado pelo restante da família, ele não tem ninguém, e eu quero ser alguém pra ele. — o olhar sonhador do Min começava a ficar borrado, como se prendesse a todo custo uma lágrima que queria sair. — Entendo porque quer adotá-lo, boa sorte. Kihyun conhecia os verdadeiros motivos da compaixão do amigo, havia muito mais coisas envolvidas do que um simples apego, Yoongi sabia exatamente o que era ser rejeitado por pessoas que amava, mas isso era assunto para outro capítulo, outro momento. Voltou a se concentrar em seu trabalho, não poderia perder mais tempo com conversas paralelas, tinha muito trabalho pela frente, além de que também ansiava por terminar a sua leitura do artigo e conhecer o final da história. Ficara tão perdido ali novamente, que só se dera conta de que o tempo havia passado quando sentiu a vibração de seu celular, era uma mensagem de Hoseok o convidando para almoçarem juntos, ou melhor, informando de que chegaria em breve para leva-lo para almoçar, Yoongi apenas respondeu um “Tudo bem”, que secretamente era acompanhado por um sorriso. Hoseok sempre o fazia sorrir. — Vamos almoçar? — novamente era Kihyun. Yoongi não queria abandonar o amigo, mas ao mesmo tempo não queria leva-lo junto, e não era por uma questão de não querer que Kihyun conhecesse Hoseok, o problema estava em Kihyun não saber se comportar e acabar revelando coisas que Hoseok ainda não precisava saber. — Se importaria de não almoçar comigo hoje? — o Min não conseguia esconder seu pequeno constrangimento, sabia que o amigo se animaria com aquilo mais do que era saudável se animar — Hoseok está vindo me buscar para almoçarmos juntos. Kihyun abriu mais um de seus sorrisos maliciosos, o que já era o esperado. — Já estão até almoçando juntos e ainda me diz que não há nada entre os dois? — o mais novo arqueou uma das sobrancelhas, com sua típica expressão de quem estava sem certo — Bom almoço pra vocês. — o Yoo deu as costas seguindo seu caminho para fora — E Yoongi! — o chamou, obtendo sua atenção rapidamente — Não o afaste de você. A frase de Kihyun poderia receber vários tipos de sentidos, mas Yoongi preferiu não pensar nisso no momento. Organizou sua mesa antes de sair, conferindo se sua carteira estava no bolso. Saiu do prédio depois de cumprimentar brevemente algumas pessoas que sentiram sua falta no dia anterior, a maioria só queria saber o motivo para sanar suas curiosidades. Hoseok estava parado ao lado de seu carro, o dia parecia ter esfriado ainda mais, e a prova disso era que Hoseok não havia tirado seu jaleco, deixando ainda as mãos nos bolsos buscando se aquecer. Yoongi analisava em sua mente como tudo no Jung parecia combinar com ele mesmo, o seu estilo, o seu emprego, e até mesmo seu modelo de carro contribuíam para que Hoseok aparentasse ser alguém muito bom. Bom demais para mim. Estranhamente aquela frase circundou sua mente, Hoseok era a melhor pessoa que chegou a conhecer, quase como um anjo que simplesmente brotara em sua vida, e ainda se perguntava os motivos que o levavam a ser tão legal consigo. Yoongi tinha dificuldades em obter amigos, e ter um amigo como Hoseok era algo que jamais poderia imaginar, e por dois segundos inteiros, o Min se perguntou se isso era suficiente, se era apenas a amizade de Hoseok que queria. — Você fica muito bem de branco. — Yoongi não queria ter elogiado, mas aquilo acabou escapando, como um pensamento alto. — Eu sei que sou maravilhoso. — era típico suas formas de resposta, o que fazia Yoongi ter certeza de que Hoseok era bastante acostumado com esse tipo de elogio. Ao contrário de si, que sentia-se em pânico ao receber elogios de pessoas. Entrou no carro do Jung, o que chegava a ser clichê e engraçado. O carro de Hoseok era branco, assim como nos contos de fada onde o príncipe encantado salva sua princesa montado em um cavalo branco. E talvez seja essa a imagem que alguns homens tenham tido de Hoseok, enquanto o esperavam na porta de casa, um príncipe, com direito ao sorriso hipnotizante e tudo. Mas isso chegava a ser deprimente em alguns momentos, principalmente quando parava para se comparar com a princesa que Hoseok estava indo salvar. Tinha medo de que o felizes para sempre não existisse no final. Os dois acabaram por ir almoçar em um restaurante ali perto, um lugar bonito e confortável, com inúmeros casais sentados nas mesas ao redor, e só de sentir o cheiro que circundava por ali, Yoongi já sentia seu apetite abrir. Não imaginava que estava com tanta fome, e seu pedido não foi nada discreto. Até o garçom daquele lugar parecia ser mais bonito do que os convencionais. — Você costuma almoçar aqui? — o Min não resistiu perguntar. — Raramente, por que? — Parecia que você e o rapaz que nos atendeu já se conheciam. Yoongi estava prestes a conhecer mais um lado de Hoseok, um lado que sutilmente ele já havia lhe apresentado, mas agora conheceria a veracidade disso. O Jung desviou seu olhar para a cozinha por breves momentos, até que visse novamente o rapaz. — Nós já saímos uma vez. Foi a única coisa que ele disse, e poderia não significar nada. O problema é que significou, saber daquilo incomodou Yoongi, não de uma forma ciumenta, e sim de uma forma constrangedora, Hoseok saia com pessoas, se divertia, vivia sua vida, ao contrário do que o Min fazia. Hoseok era seu oposto, o que o fazia se perguntar porquê o Jung ainda estava ali perdendo seu tempo com ele. Jung Hoseok seria apenas seu amigo, ou o iludia? — Seokjin me ligou. — as falas de Hoseok o incomodavam ainda mais — Pedi para que ele descobrisse o motivo de Minhyuk ter sido rejeitado pela família. Yoongi endireitou-se na cadeira, aquele assunto lhe interessava, e por aquele momento tentaria esquecer do ciúme que começava a se formar em seu peito. Por que sentia ciúmes de Seokjin? Isso era algo que nem fazia sentido. — E o que ele descobriu? — Não muita coisa. Mas o que descobriu chega a ser doentio. — suspirou — Minhyuk tem gostos femininos, Yoongi, e por isso ambas as famílias de seus pais acreditam que ele vá crescer e se tornar homossexual, seus avós não querem uma criança gay em casa. Era chocante. Como poderiam rejeitar uma criança indefesa apenas por um preconceito bobo? Isso era c***l, fazia seu estômago embrulhar, nem sequer havia comido direito e já perdera todo o seu apetite. Não se conteve, e pela segunda vez em um curto período de tempo, Yoongi chorou. Chorou por conhecer essa dor, e de forma involuntária passar a sentir tudo novamente. Aquela mesma dor, daquele mesmo dia, uma dor que vinha cada vez mais forte, rasgando seu coração em pequenos pedacinhos. Eles não tinham o direito de fazer isso com aquela criança, eles não tinham o direito de fazer aquilo com ele. — Yoongi, você está bem? Tentava enxugar suas lágrimas, mas não conseguia, era evidente demais o seu conflito interno, Hoseok via claramente tudo o que se passava, e perguntar se estava bem era a pergunta chave para fazer tudo se alastrar ainda mais. Yoongi era um péssimo mentiroso, assim que abrisse a boca revelaria o quanto estava destruído por dentro. — Não estou mais com fome. — foi a única coisa que saiu da boca do Min. Hoseok pediu a conta para que pudessem ir embora, não conseguiria mais ficar ali com Yoongi daquela maneira, e precisava urgentemente resolver aquilo, era culpa sua Yoongi estar daquele jeito, não deveria ter contado algo daquele tipo naquele momento, nem sequer fazia ideia do quanto o Min estava fragilizado. Min Yoongi, por mais que aparentasse ser forte, era frágil por dentro, e estava passando por um dos momentos mais complicados de sua vida, e no fundo, Hoseok sabia que enquanto Minhyuk não voltasse para Yoongi, o Min continuaria em sua versão mais frágil. — Vamos embora. — o Jung se permitiu segurar a mão de Yoongi, que apenas deixou que Hoseok o guiasse até a saída. Hoseok o colocou de volta no carro, seus planos no momento envolviam procurar uma rua com pouco movimento para que pudessem conversar em paz, por mais que Yoongi ainda estivesse muito frágil, ele precisava colocar aquilo pra fora, o Min estava escondendo alguma coisa, e enquanto escondesse isso, Hoseok sabia que ele ainda choraria. Encontrou uma rua pequena, que mais se parecia com um beco e tão estreita e deserta que era, o que era perfeito. Ficaram em silêncio com por alguns segundos, enquanto Hoseok ouvia Yoongi respirar pesado e tentar com todas as suas forças parar de chorar. Estava começando a se sentir ridículo por deixar que Hoseok visse todo o seu lado frágil e fraco. — Yoongi, o que está acontecendo? — o Jung lhe indagou. Yoongi ficou em silêncio. — Por favor, nós já conversamos sobre isso, pode me contar o que quiser. — Hoseok tentava o encorajar da forma que podia. Mas Yoongi continuou em silêncio. Hoseok também ficou em silêncio, até que finalmente o Min pudesse pensar melhor, e abrir a boca em pequenos murmúrios, até palavras pudessem ser formuladas por ele. — Eu também fui rejeitado pela minha família, Hoseok, pra eles é como se eu estivesse morto, eu não existo para os meus pais e nem para os meus irmãos, sou só uma sombra vagando sozinha por aí. — confessar aquilo doía demais, o fazia lembrar de todo o seu passado infeliz e de todas as lágrimas que derramou sozinho — E pelo mesmo motivo. Hoseok já imaginava que fosse algo assim, nada nos faz compreender melhor a dor do outro, do que já ser uma dor conhecida. Yoongi já sentiu a dor de Minhyuk, e era por isso que a dor vinha em dobro, sofria pelo menino e sofria por ele mesmo. Podia ver a pele pálida do Min ficar cada vez mais vermelha pelo choro, e suas mãos tremiam de medo, Yoongi estava a ponto de ter um ataque de pânico. — Meus pais jamais puderam aceitar o fato de que eu gostava de garotos, eles me odeiam por ser diferente. — continuou a falar, a voz cada vez mais perdida no meio de seu choro, ficando cada vez mais difícil de Hoseok entender o que ele estava falando, tendo que se aproximar mais de seu rosto para que pudesse ouvir — Eles me chamaram de aberração, disseram que para eles estou morto, e pediram para que eu nunca mais voltasse, e se eu os visse na rua, atravessasse para o outro lado. Isso era c***l demais, Hoseok agora podia compreender a fragilidade de Yoongi naquele momento, aquela ferida ainda estava aberta, ainda sangrava, e o pequeno Min sofria dia a dia sempre que se recordava de sua verdadeira situação. Não havia nada pior do que ter que passar seus dias sozinhos, foram muitos natais sentado na sala, foram muitos aniversários assoprando a vela sozinho. Yoongi foi rejeitado da maneira mais radical possível, sendo cortado da família como se nunca tivesse existido, e ninguém tinha mais permissão de tocar em seu nome. A lei entre a família Min era agir como se Yoongi fosse apenas uma mancha no retrato de família que estava sobre a mesinha da sala. — Hoseok, eu não tenho ninguém, eu preciso de Minhyuk, pois a cada dia que se passa eu me sinto cada vez mais morto. Agora era a vez do coração de Hoseok se partir, o Jung segurou Yoongi pelos ombros e o puxou para seu colo sem esperar sua permissão. E Yoongi estava tão frágil e tão quebrado que não conseguiu lutar contra esse ato, simplesmente deixou que Hoseok o acomodasse em seu corpo e o abraçasse, compartilhando consigo seu calor e suas forças. Yoongi entendeu aquilo como um ato de proteção, Hoseok queria protege-lo, e Yoongi precisava ser protegido de si mesmo. Se agarrou ao corpo do Jung e afundou sua cabeça no peito do mesmo, deixando que mais lágrimas silenciosas molhassem a roupa branca do dentista, sem se importar com o tempo que havia passado, ele só queria ser protegido, só queria dividir com alguém aquela dor que já não aguentava mais sentir sozinho. — Você não está sozinho, Yoongi, você tem a mim.  
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