A RUA ESTREITA DEMAIS

898 Words
Lorrany sabia que algo estava errado antes mesmo de abrir o portão. A casa estava silenciosa demais. Não havia televisão ligada. Não havia música baixa da mãe. Não havia passos no corredor. Silêncio absoluto. Ela entrou devagar. — Mãe? Nenhuma resposta. A sala estava arrumada. Até demais. Ela caminhou até a cozinha. Vazia. Foi quando ouviu a voz dele, vindo do quintal. — Então é esse o tipo de homem que você está trazendo para perto da minha casa? Ela fechou os olhos por um segundo. Geraldo estava sentado em uma cadeira plástica, copo na mão. Mas não parecia bêbado. Parecia lúcido. E irritado. — Eu não trago ninguém para sua casa — ela respondeu fria. — Ah, não? — Ele riu sem humor. — Homem rico, carro preto, terno caro… acha que eu não percebo? Ela sentiu o estômago apertar. — Ele é hóspede do hotel. — E você acha que eu sou i****a? Ela não respondeu. Porque qualquer palavra poderia virar combustível. Ele levantou-se lentamente. — Homens assim não olham para mulheres como você sem querer algo. Ela se aproximou um passo. — E homens como você sempre presumem que tudo é sobre controle. O olhar dele escureceu. — Eu só não quero você envergonhando essa casa. Ela riu, seca. — Essa casa? Você não sustenta nada aqui. O silêncio que veio depois era perigoso. Ele se aproximou demais. Perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro de álcool misturado com ameaça. — Eu posso muito bem conversar com esse seu empresário. Explicar como as coisas funcionam aqui. O sangue dela gelou. — Você não vai se aproximar dele. — Ou o quê? Ela manteve o queixo erguido. Mas por dentro, o medo antigo tentava se infiltrar. — Ou eu faço você sair daqui definitivamente. Ele riu. Mas não era diversão. Era desafio. — Você acha que ele vai bancar sua valentia? Ela não respondeu. Mas foi nesse momento que faróis iluminaram o portão. Luz forte demais para aquela rua estreita. O carro parou. Preto. Impecável. O coração dela despencou. Não. Não ali. A porta do carro se abriu. Nikólaos desceu. Sem pressa. Sem hesitação. O terno escuro contrastava absurdamente com o chão de terra irregular. Ele fechou a porta com calma. E caminhou até o portão. Geraldo ficou imóvel. Confuso por um segundo. Depois irritado. — Eu falei para não se envolver — Lorrany murmurou entre os dentes. — Eu não me envolvo — ele respondeu baixo, antes de olhar diretamente para Geraldo. — Eu resolvo. O ar pareceu ficar mais pesado. Nikólaos não levantou a voz. Não fez ameaças. Apenas ficou ali. Presença pura. — Posso ajudar? — perguntou, educado. Geraldo ajeitou os ombros, tentando parecer maior do que era. — Essa é minha casa. Nikólaos inclinou levemente a cabeça. — Então o senhor deve prezar pela segurança dela. A frase era suave. Mas carregada. — Ela não precisa de segurança — Geraldo rebateu. Nikólaos olhou para Lorrany. E naquele segundo, ela percebeu que ele estava esperando permissão. Não era imposição. Era escolha. Ela respirou fundo. Orgulho ou segurança? Independência ou apoio? Ela deu um passo para o lado. — Ele é investidor do hotel. Foi o máximo que conseguiu dizer. Nikólaos entendeu. Voltou o olhar para Geraldo. — Então imagino que o senhor compreenda a importância de manter relações profissionais intactas. O silêncio que se instalou não era comum. Era estratégico. Geraldo engoliu seco. Porque pela primeira vez… Ele não era o homem mais dominante no espaço. — Eu só estava tendo uma conversa com minha enteada — ele disse. Nikólaos assentiu. — Conversas devem ser respeitosas. O tom não subiu. Mas havia uma promessa implícita ali. E Geraldo percebeu. Ele deu um passo para trás. Depois outro. — Não quero problemas. — Excelente — Nikólaos respondeu calmamente. — Nem eu. O clima foi quebrado apenas pelo som distante de um cachorro latindo na rua. Lorrany estava rígida. Tensa. Irritada. Quando Geraldo entrou na casa novamente, Nikólaos finalmente se virou para ela. — Eu disse para não vir — ela sussurrou. — Eu sei. — Você podia ter piorado tudo. Ele a encarou de perto. Mas sem tocar. — Eu só apareci. Ela respirava rápido. — Eu não preciso que apareça. Ele observou o modo como as mãos dela tremiam levemente. Ela estava controlando. Sempre controlando. — Talvez não precise — ele disse baixo. — Mas também não precisa enfrentar tudo sozinha. A frase desarmou. Porque não era sobre posse. Era sobre escolha. Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, o olhar estava menos defensivo. — Ele não vai mudar. — Então você muda. — Não é tão simples. Ele aproximou-se meio passo. Ainda sem tocar. — Nada na sua vida parece simples. O silêncio entre eles agora era diferente. Não tensão física. Mas vulnerabilidade crua. — Eu não quero que você resolva minha vida — ela disse. — Eu não quero resolver. — Então o que quer? Ele demorou. E quando falou, foi sincero. — Quero que você saiba que não está sozinha. Mesmo que finja muito bem. O coração dela apertou. Porque ninguém nunca tinha dito isso. Sem cobrança. Sem segundas intenções visíveis. Só presença. O vento da noite passou entre eles. E pela primeira vez… Ela não sentiu medo. Sentiu apoio. E isso era infinitamente mais assustador. Porque confiar era sempre o primeiro passo para se machucar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD