Lorrany não lembrava a última vez em que tomou café da manhã sem pressa.
Sem olhar o relógio.
Sem calcular quanto dinheiro ainda faltava para pagar contas.
Sentada na varanda do apartamento de Nikólaos, observando a cidade acordar lentamente, ela quase podia fingir que sua vida era simples.
Normal.
Mas normalidade nunca durava muito.
— Meu motorista vai levá-la ao trabalho — disse Nikólaos atrás dela.
Ela virou imediatamente.
— Não precisa disso.
Ele apoiou o ombro na porta de vidro.
— Precisa, sim.
— Nikólaos…
— Lorrany.
O modo como ele pronunciava seu nome sempre a fazia perder um pouco da firmeza.
— Até sabermos quem estava observando você, eu não vou arriscar.
Ela suspirou.
Parte dela queria discutir.
A outra… gostava perigosamente da sensação de cuidado.
— Você sempre manda assim?
— Apenas quando estou preocupado.
Silêncio.
E aquela palavra novamente mexeu com algo dentro dela.
Preocupado.
Não interessado.
Não possessivo.
Preocupado.
Ela terminou o café e levantou-se.
— Então o senhor bilionário vai aparecer no hotel hoje?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Sou o possível comprador. Preciso observar tudo.
— Inclusive funcionárias?
O sorriso dele surgiu devagar.
— Principalmente uma.
Lorrany revirou os olhos, tentando esconder o calor no rosto.
Minutos depois, o carro a deixou na entrada dos funcionários.
Mas assim que desceu…
Sentiu.
Olhares.
Sussurros.
Algo estava errado.
Clara praticamente correu até ela.
— Mulher, onde você tava ontem?!
— Dormindo?
— Dormindo ONDE?
Antes que Lorrany respondesse, percebeu dois colegas cochichando enquanto olhavam diretamente para ela.
E então viu.
Na tela do celular de uma recepcionista.
Uma foto.
Seu coração despencou.
Era ela.
Entrando no carro de Nikólaos na noite anterior.
O ângulo distante denunciava claramente que alguém havia observado escondido.
— Não acredito… — murmurou.
— Estão dizendo que você já virou amante do novo dono — Clara sussurrou indignada.
O estômago de Lorrany revirou.
🤢🤢🤢🤢🤢🤢🤢
A velha sensação voltou.
A mesma da escola.
Risos escondidos.
Julgamentos.
Humilhação.
Ela respirou fundo.
Não iria fugir.
Não mais.
Caminhou até o balcão.
Ergueu o queixo.
E começou a trabalhar como se nada estivesse acontecendo.
Mas então…
Palmas lentas ecoaram pelo saguão.
Elegantes.
Calculadas.
Helena.
Alta.
Impecável.
Vestido caro abraçando o corpo perfeito.
O sorriso venenoso surgiu ao encarar Lorrany.
— Impressionante como algumas pessoas sobem rápido na vida, não é?
O saguão silenciou.
Lorrany já entendeu.
Aquilo era público.
Planejado.
— Não entendi — respondeu calmamente.
Helena aproximou-se.
— Uma simples atendente… e de repente passando noites com o senhor Kyriakos.
Alguns funcionários prenderam a respiração.
— Deve ser… talento especial.
Risos baixos surgiram.
O passado tentou esmagá-la novamente.
A vergonha queimou.
Mas algo era diferente agora.
Lorrany não era mais a adolescente humilhada.
Ela apoiou as mãos no balcão.
Sorriu.
— Engraçado — respondeu — porque eu também estava tentando entender como alguém tão elegante consegue parecer tão desesperada por atenção.
O ar congelou.
Helena perdeu o sorriso por um segundo.
— Cuidado com o tom.
— Eu sempre tenho — disse Lorrany. — Principalmente quando alguém tenta me diminuir pra se sentir maior.
O silêncio virou tensão pura.
E foi nesse momento que uma voz masculina grave ecoou atrás delas.
— Algum problema aqui?
Nikólaos.
O saguão inteiro ficou imóvel.
O olhar dele passou por Helena…
pelos funcionários…
até parar em Lorrany.
E algo perigoso brilhou em seus olhos ao perceber o constrangimento no ambiente.
Helena sorriu falsamente.
— Apenas uma conversa entre funcionárias.
Nikólaos não respondeu.
Apenas caminhou até Lorrany.
Parando ao lado dela.
Perto demais.
Protetor demais.
— Então acredito que a conversa terminou.
A mensagem foi clara.
Definitiva.
E pela primeira vez…
Lorrany não se sentiu sozinha diante de todos.
Mas enquanto Helena se afastava, seus olhos prometeram guerra silenciosa.
E Nikólaos percebeu imediatamente:
Aquilo não tinha acabado.
Tinha apenas começado.
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