O GREGO NO LOBBY

955 Words
O salto do sapato de Lorrany ecoava firme pelo mármore do saguão. Postura ereta. Queixo levemente erguido. Controle absoluto. O Hotel Imperial não aceitava falhas — e ela menos ainda. — Conferiram a suíte presidencial? — perguntou sem diminuir o ritmo. — Sim, gerente. Está impecável. Impecável não era suficiente. Ela mesma verificou cada detalhe: flores trocadas, champanhe no gelo, iluminação ajustada, aroma suave no ambiente. O hóspede daquela noite não era qualquer um. Nikólaos Stavros. Empresário grego. Investidor internacional. Frio nos negócios. E extremamente reservado. — Ele já chegou? — perguntou à recepcionista. — O carro acabou de entrar na garagem. O ar pareceu mudar. Lorrany não acreditava em energia… mas acreditava em presença. E algo dizia que aquele homem teria presença. Minutos depois, as portas de vidro se abriram. Primeiro entrou o segurança. Depois ele. Alto. O tipo de homem que não precisa levantar a voz para ser notado. Terno escuro sob medida. Ombros largos. Passos lentos e seguros. Mas não foi o porte que chamou atenção de Lorrany. Foi o olhar. Não apressado. Não invasivo. Observador. Como se ele registrasse cada detalhe antes de decidir qualquer coisa. Ela caminhou até ele. Profissional. Controlada. — Senhor Stavros. Seja bem-vindo ao Imperial. Ele a encarou por um segundo a mais do que o necessário. Não no corpo. Nos olhos. Como se avaliasse algo além da aparência. — Senhorita…? — Lorrany Albuquerque. Gerente geral. Um pequeno arquear de sobrancelha. Ele não esperava aquilo. Provavelmente imaginou uma gerente mais velha. Ou mais maleável. — Impressionante — disse ele, com leve sotaque carregando cada sílaba. Ela manteve o tom neutro. — Nosso objetivo é oferecer excelência. Ele quase sorriu. — Eu não estava falando do hotel. Ela sustentou o olhar. Não desviou. Não corou. Não se encolheu. — Sua suíte está pronta. Ela fez um gesto sutil indicando o elevador privativo. Durante o trajeto, o silêncio era espesso. Não desconfortável. Mas carregado. Quando as portas do elevador se fecharam, o espaço pareceu menor. Ele estava próximo. Muito próximo. O perfume dele era amadeirado. Intenso. Mas Lorrany se recusou a reagir. Ela já tinha visto homens como ele. Ricos. Confiantes. Acostumados a conseguir tudo. O que ele não sabia… É que ela não era algo que se conseguia. A porta da suíte se abriu. Ela entrou primeiro, explicando detalhes técnicos, serviços exclusivos, horários personalizados. Ele andava pelo ambiente como quem avalia território. — Você administra tudo isso sozinha? — perguntou. — Eu lidero uma equipe. — Mas quem decide é você. Não era pergunta. Ela virou-se para ele. — Sim. Um silêncio breve. Ele se aproximou da janela panorâmica. A vista da cidade iluminada refletia no vidro — e também no olhar dele. — No meu país — começou ele — mulheres como você não costumam estar à frente de negócios dessa magnitude. Ela cruzou os braços. — Então o senhor deveria investir mais no meu país. O canto da boca dele se moveu. Primeira reação verdadeira. — Você não se intimida. — Não vejo motivo. Ele se aproximou mais. Agora a distância entre eles era mínima. Mas não havia toque. Só tensão. — A maioria das pessoas muda o tom quando descobre quem eu sou. — Eu já sei quem o senhor é. — E não se impressiona? Ela sustentou o olhar mais uma vez. — Títulos não me impressionam. Caráter, talvez. O silêncio que veio depois não era comum. Era denso. Desafiador. E pela primeira vez em muito tempo, Nikólaos Stavros sentiu algo inesperado: Interesse real. Não físico. Não imediato. Curiosidade. — Você sempre fala assim com seus hóspedes? — ele perguntou. — Apenas com os que testam meus limites. Ele deu um passo mais perto. O suficiente para que o ar entre eles esquentasse. Mas ele não tocou. Não invadiu. — Eu não testo limites. — Todo homem poderoso testa. Os olhos dele escureceram. Mas não de raiva. De admiração. — Talvez você seja a primeira que não tenha medo de mim. Ela inclinou levemente o rosto. — Talvez o senhor ainda não tenha me dado motivos. Desafio. Puro. O telefone dela vibrou. Ela se afastou um passo, quebrando a tensão. Mensagem da mãe. “Ele voltou.” O estômago dela se contraiu. Mas o rosto permaneceu neutro. Nikólaos percebeu. — Algo errado? — Nada que interfira no seu conforto. Ele observou o modo como os dedos dela apertaram levemente o celular. Controle demais. Para alguém que dizia que estava tudo bem. — Senhorita Albuquerque. Ela ergueu os olhos. — Se algo estiver errado… eu não tolero que problemas pessoais afetem minha equipe. Ela quase sorriu. — Não sou sua equipe. Um segundo de silêncio. Ele se aproximou outra vez. Mais devagar. Mais atento. — Ainda não. O coração dela bateu mais forte. Mas sua postura não mudou. — Aproveite sua estadia, senhor Stavros. Ela se virou para sair. Mas antes que alcançasse a porta, ele falou: — Lorrany. O modo como ele disse seu nome soou diferente. Mais baixo. Mais direto. Ela parou. — Você não parece alguém que aceita ajuda. Ela não se virou completamente. — Porque eu não aceito. — Todo mundo precisa de alguém em algum momento. Agora ela o encarou. Olhos firmes. Mas com algo escondido. — Eu aprendi cedo a não depender de ninguém. Ele a observou sair. E enquanto a porta se fechava… Nikólaos sabia de uma coisa com absoluta certeza: Ele não queria conquistá-la. Queria entender por que uma mulher tão jovem carregava o peso de quem já sobreviveu demais. E lá fora, no corredor silencioso… Lorrany respirava fundo, tentando controlar a tempestade interna. Porque pela primeira vez… Um homem não tinha olhado para seu corpo. Tinha olhado para suas defesas. E isso era infinitamente mais perigoso.
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