Melina
Tudo já estava combinado, Tyler pousaria em Los Angeles ao meio da manhã e me faria uma "surpresa" no fim das aulas. Estávamos na véspera das férias de verão e como grande parte dos alunos da faculdade iria voltar para as suas cidades natais, durante esse período, eu não os veria até o fim da estação.
Apesar da ideia inicial ser de revelar a identidade do meu noivo apenas no altar, burocraticamente falando, não funcionaria devido aos convites. E eu não aguentaria a especulação por mais tempo. Aproveitaria o feliz último dia de aula para desfilar com Tyler pela faculdade e fazer com que todos os alunos calassem a boca, pelo menos esse era o meu desejo.
Alguns dos meus colegas de faculdade seriam, sim, convidados para a cerimonia, mas a lista contava com um número estratégico e reduzido de nomes. Eram pessoas que podiam melhorar a minha relação com a popularidade, dentro do meio acadêmico. Mas eu sabia que nem todos os nomes convidados compareceriam, afinal, estariam de férias, longe da Califórnia.
Quanto ao meu reencontro com Tyler, eu sabia que seria desconfortável. Ele foi o meu melhor amigo durante a infância e, no processo que o tornou o meu noivo arranjado, Tyler também virou um completo desconhecido para mim. Eu tentei, busquei pela privacidade, queria poder estar com ele antes de precisar atuar na frente de toda a faculdade.
Aquela seria nossa revelação para o mundo, mas de certa forma, também era uma revelação para nós mesmos. Era o ponto final das mentiras que inventavam no meu nome, eu esperava me livrar daquela parte dos meus problemas. A minha mente dizia, a todo o tempo, que eu deveria fazer cara de paisagem, sorrir e fingir que não estava nervosa com o reencontro, que teoricamente era uma surpresa. As pessoas não podiam desconfiar que tudo era uma armação.
A possibilidade de ser uma surpresa real, nem nunca foi cogitada. Eu provavelmente teria um ataque cardíaco, se os meus pais me colocassem num jogo de atuação, na frente de tanta gente, sem antes me avisarem e me prepararem. Eu provavelmente estragaria tudo.
Eu conferia as mensagens, no meu celular, a cada cinco minutos. A frequência das minhas conversas com Tyler diminuiu gradativamente, com o passar dos anos. Antes da farsa oficialmente começar, só nos falávamos em datas importantes, como Natal e aniversários e, com certa raridade, trocávamos mensagens perguntando se tudo estava bem.
Não sei o que nos levou a tratar os detalhes do casamento por e-mail, talvez seja porque era por lá que eu me comunicava com as organizadoras. Fazia algum tempo desde a nossa última troca de mensagens, quando eu recebi um curto "Te vejo amanhã", enviado na noite anterior, provavelmente no horário em que Tyler estava embarcando.
Eu me tornei mais fechada, desde que começamos a mentir. Não compartilhava muitos detalhes da minha vida pessoal, não era tão ativa nas redes sociais e não dava liberdade para que os meus amigos mexessem no meu celular. Eu me tornei mais cautelosa com os meus objetos pessoais, mais reclusa e cuidadosa com os meus segredos. Uma das minhas desculpas para toda essa prevenção era evitar que alguém flagrasse alguma mensagem, foto ou vídeo constrangedora, de um relacionamento a distância que precisava ser cultivado por métodos menos tradicionais.
Naquele momento, eu revezava o meu olhar entra a tela do celular e a aula de direito civil. No primeiro, a minha conversa com Tyler estava aberta, esperando por uma resposta minha. O auditório da faculdade estava lotado, por isso eu deveria tomar cuidado com a posição do celular, para não me expor para as pessoas sentadas nas cadeiras acima da minha.
Eu tinha em mãos um celular desbloqueado, cheio de segredos, e uma melhor amiga curiosa ao meu lado. Não houve um dia em que acordei livre do peso na consciência de mentir para Cara, de esconder uma parte tão grande da minha vida dela.
— Você não está prestando atenção na aula, não é? — ela perguntou ao meu lado. Dei de ombros, tentando agir naturalmente ao responder:
— Tomei um daqueles remédios para alergia, que me deixam sonolenta. Estou com dificuldade de focar— menti.
— Eu te passo as minhas anotações, depois— levantou o caderno, mostrando os seus confusos rabiscos, que com o tempo aprendi a decifrar. Abri um sorriso agradecido, era a última aula do semestre, eu teria tempo para correr atrás do prejuízo, durante as férias.
Antes que eu pudesse desviar, novamente, o meu olhar para o celular, ele vibrou nas minhas mãos. A reação se espalhou pelo meu corpo, numa tremedeira que eu precisei disfarçar. A ideia de tomar o antialérgico não me pareceu r**m, naquele momento. Pelo menos eu ficaria lerda e despreocupada.
"Acabei de chegar no estacionamento da faculdade."
"Estou te esperando!"
Olhei para o lado, para ter certeza de que os olhos de Cara não estavam voltados para mim. Depois de me certificar disso, rapidamente digitei uma resposta, enviando-a em seguida:
"Ainda estou na aula. O professor deve nos liberar em alguns minutos"
Uma tosse forçada da minha melhor amiga chamou a minha atenção. Me virei para ela e encarei os seus olhos atentos.
— Pela rapidez com que digitou, já até sei com quem estava falando —Eu fingia enviar mensagens para Tyler, o tempo todo, então a constatação não me pegou de surpresa. Apesar de que, dessa vez, era de verdade. Havia outro celular, com um chip europeu, escondido no fundo do meu closet. Era para lá que eu enviava mensagens, que eu mesma respondia, para esconder a nossa falta de contato.
— Estou com saudades— dei de ombros, forçando um sorriso.
— E quando ele chega? Estou louca para finalmente conhecê-lo! Espero que você não me enrole até o dia do casamento, preciso saber quem ele é antes disso, quero ter certeza de que ele é bom o suficiente para você. Não quero que você se case com um homem que não presta. Ou com um f**o! — Cara disparou a falar, parecendo não confiar nada no meu gosto para homens. Não que houvesse alguma opção de escolha, para mim.
— Ele chega daqui a cinco dias— menti, para a surpresa parecer convincente.
— Estou tão ansiosa para conhecer Martin. — Repetiu, utilizando o nome do meio de Tyler. Eu o chamava assim, na frente dos meus amigos, para não entregar a sua identidade, sem precisar de fato mentir.
— Eu também estou louca para que esse encontro aconteça— Falei baixo, para que o professor não percebesse a nossa interação.
— Não está nervosa? Porque se ele só vai chegar no dia do seu aniversário, isso quer dizer que faltará menos de uma semana para o casamento!
— Estou, é claro. Tenho medo que haja algum imprevisto, que as coisas fujam do nosso planejamento. Mas é legal pensar que, no momento em que subirmos ao altar, vamos ter passado pouco tempo juntos, ainda vamos ter muitas saudades para m***r.
— Isso vai transformar a lua de mel em uma insanidade, pode ter certeza— piscou, maliciosamente. Ela não fazia ideia de quão insanamente celibatária seria, isso sim.
— Pode ter certeza —Respondi, sem saber o que mais dizer.
—Como ele é? Se parece com você, em termos de personalidade? — perguntou, me deixando em uma situação complicada, porque eu não sabia. O que eu conhecia de Tyler era o que um dia ele foi. Encontrei uma maneira de desconversar:
— Você vai se dar melhor com Nicole, tenha certeza disso. A amiga louca e a cunhada mais louca ainda— me referi à irmã de Tyler, ela era um ano mais nova que nós. Eu ainda mantinha contato frequente com ela, apesar de não termos sido muito amigas durante a infância, quando nós duas parecíamos muito focadas em disputarmos a atenção dele.
— Você superestima o meu nível de loucura, Mel.
— Será mesmo? — sorri. Eu ia tentar manter a conversa e me distrair do nervoso, mas o despertador do celular do professor tocou, anunciando o fim do horário de aulas. Junto do barulho vindo do seu aparelho, senti as malditas borboletas gritarem no meu estômago, em uma mistura de sentimentos: nervoso, ansiedade e um pouco de desânimo para enfrentar o meu destino.
A minha mente tentava me convencer de que tudo ia ficar bem. Afinal, eu e Tyler nos conhecíamos desde que nascemos, não tinha como algo dar errado, não é?
Ter, até tinha. Mas não era hora de focar nas possibilidades negativas. O nervoso tomava conta de cada célula do meu corpo e eu não queria potencializar os seus efeitos.
Abri a conversa no meu celular, mais uma vez. Rapidamente, digitei e enviei uma nova mensagem curta:
"Estou saindo daqui"
Eu não havia passado nenhuma instrução ou localização para Tyler, não sabia se ele havia encontrado um ponto do estacionamento pelo qual eu iria passar, mas honestamente, não estava com cabeça para precisar me preocupar com mais alguma coisa. Ele daria um jeito.
Caminhávamos pelo corredor, enquanto Cara tinha o braço entrelaçado ao meu e me puxava com toda a euforia de alguém que tinha acabado de entrar de férias. Ela falava para andarmos logo, pois Dom e Ethan, dois amigos próximos da faculdade, que faziam cursos diferentes do nosso, estavam nos esperando.
— Férias, finalmente —Dom falou alto, quando eles dois cruzaram conosco, já perto da porta que dava para o estacionamento.
— Férias somente para quem não está prestes a se casar, porque eu tenho tanta coisa para resolver —desabafei, propositalmente olhando para trás, para falar com os meninos.
— Não é como se você estivesse sendo obrigada a se casar —Ethan disse e eu precisei guardar o meu comentário irónico para mim mesma. Ri baixo e dei de ombros, fingindo estar distraída, enquanto saíamos do prédio.
— Se o seu noivo for um p**a de um gostosa, aí vou entender o porquê de você estar se casando antes de se formar na faculdade— Cara disse, enquanto eu precisava de uma desculpa para ainda não encarar o estacionamento. Estava com medo de acabar tropeçando em algo e caindo, causando uma cena vergonhosa que estragaria a "romântica" prestes a acontecer, mas tudo fazia parte do processo de parecer surpresa com a presença de Tyler.
— Vocês irão, certo? — questionei Ethan e Dom. Eu sabia que não precisava fazer essa pergunta para a minha melhor amiga, ela não perderia esse casamento por nada.
— E desde quando eu perco uma oportunidade de comer de graça? — Dom falou, me fazendo revirar os olhos.
— Quem escuta isso, até acredita que você não é rico —Foi Ethan quem argumentou— Mas nós iremos, Mel. Com certeza estaremos lá!
Tentei me distrair e focar na conversa que os meus três amigos iniciaram em seguida, mas parecia praticamente impossível me desligar de quem me esperava e do meu nervoso absurdo com o reencontro. Abaixei a cabeça quando uma mensagem da minha mãe chegou ao meu celular:
“Tyler disse que há paparazzis escondidos no estacionamento. Se beijem e acabem com todas as dúvidas! Não deixem que pensem que ele continua sendo apenas o seu amigo de infância.”
Deus, aquilo era muito mais do que eu estava planeando, do que eu tinha me permitido oferecer, naquele dia. De repente, quis fugir, quis correr para o banheiro, me esconder e dar um jeito de acabar com tudo aquilo. O que eu estava fazendo? Por que eu havia aceitado tudo aquilo, sem ao menos questionar, sem saber o porquê?
— Ei, Melina, estou há meia hora te oferecendo uma bala. Você quer ou não? — A voz de Ethan me despertou, agradeci aos céus por ele ter feito aquilo na hora certa e rapidamente peguei a bala de menta da sua mão e enfiando-a em minha boca.
Me permiti olhar para a frente, quando começamos a cruzar os carros parados. Eu podia ouvir o burburinho se espalhando pelos muitos alunos que estavam ali fora, flagrei pessoas me encarando e vi algumas delas correndo de um lado para o outro. Resolvi abaixar a minha cabeça e voltar a encarar o celular, tentando fugir da realidade que se formava.
Fingir estar distraída com alguma coisa na tela e consegui sustentar o teatro por alguns passos, até ouvir um grito que saiu da boca da minha melhor amiga:
— AI MEU DEUS— Cara quase me deixou s***a. Me forcei, a muito contragosto, a encará-la, me fingindo de confusa.
— O que foi, garota? — Questionei, o tom de voz não muito baixo, para que as pessoas em volta de nós, cuja quantidade pareceu aumentar rapidamente, pudessem ouvir.
— Veja com os seus próprios olhos— Ethan disse. Olhei na sua direção, atrás de mim, sabendo que aquele era um lugar seguro. Ele não me ajudou em nada, quando decidiu apontar para a minha frente, me mostrando para onde eu deveria olhar.
Era a hora da verdade, eu não podia mais fugir e não havia nenhuma maneira de prorrogar a situação. Era a minha vida e o que ela havia se tornado, eu precisava encarar de cabeça erguida (nesse caso, literalmente).
O meu destino estava bem ali na frente. O meu futuro distante estava se tornando presente.
As famosas cenas de filmes de romance, eu estava vivendo uma delas. Pena que era falsa. A intensidade do momento, entretanto, não era fingida ou forçada. O meu coração batia tão rápido que parecia que iria pular para fora do meu corpo, eu estava com medo.
Me virei devagar, olhando para os muitos alunos que me encaravam de perto. Alguns tinham os seus olhares em outra direção, a de Tyler. Tudo parecia girar em camera lenta, a quantidade de celulares levantados em minha direção não me surpreendeu, estavam filmando o momento e, do outro lado dos portões da faculdade, eu consegui enxergar os paparazzis enfiando as suas cameras por entre as grades. Visualizei tudo isso, antes de conseguir colocar os meus olhos no homem parado há alguns metros de mim.
E quando coloquei os meus olhos em Tyler, pela primeira vez em muitos anos, eu senti vontade de, verdadeiramente, correr até ele e abraçá-lo. Por um momento eu esqueci das cameras, da farsa e do casamento, esqueci do quão distante estivemos nos últimos anos e de como ele fez questão de tornar tudo ainda mais frio, no momento em que deveríamos nos aproximar. Esqueci da revolta dele e lembrei apenas da saudade que eu sentia.
Estávamos frente a frente, não através de uma tela. Não havia um oceano nos separando e eu senti raiva de Tyler pela distância que ele forçou em manter. O que um dia foi um garotinho romântico agora era um homem adulto, parado na minha frente.
Ele era lindo. Sempre foi, mas parecia ainda mais. Ainda mais do que nas fotos que encontrei nas suas redes sociais. Os cabelos continuavam tão loiros quanto antes, os olhos tão azuis e brilhosos. O sorriso tão iluminado, mas tão falso. Havia barba no seu rosto, músculos no seu corpo. Tyler parecia galanteador, desejado. Ele parecia familiar, parecia meu, mas, ao mesmo tempo, parecia novo, desconhecido. Parecia ambíguo.
O primeiro pensamento consciente que correu em minha mente, após perder as contas de quanto tempo passei sem me mexer, apenas o encarando, é que para todas as pessoas em volta de nós, a nossa saudade era de um casal que estava a meses sem se ver, não de velhos melhores amigos que não tinham estado juntos desde a infância. Mas se bem que, se estávamos prestes a nos casar, deveríamos demonstrar uma saudade absurda um do outro, mesmo que meses nem se comparassem com anos.
Eu reparei no bouquet de rosas azuis, que Tyler trazia em mãos. Eu encontrei Nicole ao seu lado e pude observar, como em camera lenta, o momento em que as flores foram jogadas na direção dela. E enxergando o desespero, a pressa nos seus olhos, imaginei que Tyler pudesse estar se sentindo da mesma forma que eu. Cogitei a possibilidade de que a sua resistência a mim, instaurada por um plano quase que maquiavélico, não era maior que a saudade que ele sentia por mim. Ela falou mais alto do que qualquer revolta, porque quando ele correu para me abraçar, eu sabia que não era por mera atuação.
— Eu não acredito! — foi a única coisa que saiu da minha boca e, em certo ponto, não era falso. Eu realmente não acreditava que ele estava ali, depois de tantos anos. No fundo, eu achei que ele fugiria mais uma vez, como vinha fazendo há um bom tempo.
Eu não sabia mais o que esperar de Tyler. A única certeza que eu tinha sobre ele é que eu não o conhecia, não mais. Mas ao vê-lo diante dos meus olhos, eu senti o conforto de estar em casa, como após uma longa viagem.
Lembro-me de ter atirado a minha bolsa no chão, simultaneamente as flores que foram lançadas para Nicole. Eu havia perdido a noção do tempo ou das lágrimas que rolavam descontroladamente pelo meu rosto.
Tyler corria em minha direção e eu fazia o mesmo, desesperadamente, como se ainda ouvesse um oceano entre nós. Um oceano que havia se transformado em alguns metros.