Set narrando
Acordo cedo como todos os dias, hoje é mais um dia de boca, de agilizar as paradas para o baile do fim de semana. Os dias aqui é assim, sempre todos agitados de um forma ou de outra.
Só que antes da boca eu gosto de fazer o meu treino. Sou do tipo que se cuida, tomo as paradas de pré treino, whey, tudo direitinho e treino pesado, gosto de estar com o shape em dia, o abdômen trincado. Preciso estar ágil e resistente, tanto pro caso de invasão quanto pra curtir a vida, se é que me entende.
Sou um preto enjoado de um 1 metro e 90 centímetros de altura, corpo todo tatuado, olhos castanhos, cabelo bem cortado, baixinho em cima e raspado dos lados e atrás, bigode e cavanhaque feitos.
Gosto de estar sempre com jóias, correntes grossas, pulseiras, anel e meu relógio rolex, tudo de ouro e pedras preciosas. Tenho piercing de argola no nariz e brinco nas duas orelhas. Gosto de estar bem vestido, bem cheiroso. Embora aqui no morro, pra essas p i r a n h a s não precisa de muito, só de ver o pescoço brilhando, o malote e a cintura ignorante elas já caem matando, mesmo assim eu gosto de estar no estilo, usando tudo do melhor que o meu dinheiro possa proporcionar.
Assumi o morro do meu padrasto há algum tempo. Ele queria curtir mais a minha mãe e há alguns anos ele começou a ficar doente, depois descobrimos ser câncer de pulmão, essa p o r r a de cigarro é um veneno, mas quem disse que gente consegue largar o vicio? É f o d a!
A história da minha família é complicada, e acredito que ainda mais complicada do que eu imagino. Minha mãe casou com ele eu era pequeno e a minha irmã menor ainda, uma bebê de meses, na verdade ele assumiu o pacote completo logo depois que o meu pai morreu, coisa que eu não sei as circunstâncias exatas, pois a minha mãe não gosta muito de tocar no assunto e sempre considerou um desrespeito com o meu padrasto que nos criou e a quem eu sempre chamei de pai mesmo.
Eu ia fazer 5 anos na época e a Kayná, minha irmã, não tinha nem um ano ainda. E na vida de b a n d i d o é assim, viu, gostou, tá livre, já coloca no nome e pronto, sem desenrolo.
Eu, porém, esses meus 27 anos, tô bem suave de me amarrar. A única vez que precisei me amarrar foi quando puxei tranca um tempinho, logo a advogada conseguiu me tirar, mas até lá eu não ia ficar sem as minhas paradas e sem comer b u c e t a né, então tive que fazer a p o r r a da união estável pra minha p u t a fixa da época poder fazer a carteirinha da visita intima, a doida da Maria Vanúbia.
Mas fazer essa p o r r a foi um erro do cão. Isso já tem alguns meses e a v a d i a acha que é minha mulher mesmo, quer dar ordem pelo morro, quer dar show se me vê com alguém e toda vez eu perco a paciência e desço a p o r r a da, mas eu sou o maior filho da p u t a sem vergonha na minha cara também e depois como ela, então ficamos nessa p o r r a de ciclo vicioso, mas sempre deixo claro, ela é não é nada minha, nunca foi e nunca será, só uma f o d a mesmo, me fortaleceu na tranca e eu paguei muito bem ela para isso, e sempre dou a meta depois de comer ela, afinal, é por isso, dinheiro e status, que eles me procuram, porém status eu não dou a ninguém, sai fora.
To fora de querer me amarrar, de botar mulher em posto de fiel. Pra que? Sou p u t ã o, curto um s e x o bolado, gosto de inovar, de ter várias, tô sempre no bordel de uma conhecida aí, casa de swing e os c a r a l h o. Participo só das melhores o r g i a s, pra que eu vou querer dor de cabeça, mina no meu pé, me cobrando, me requisitando e eu metendo só galha e esculacho? Tô fora desse perreco aí. Sou novo ainda pô, ainda tenho muito pra me divertir.
Depois do treino e da chuveirada eu sigo pra boca passando os olhos na minha comunidade, que eu amo de paixão, sou cria daqui, isso aqui tá no meu sangue e o meu sangue está nessas ruas sempre em defesa deles e do que é meu. Fortaleço os moradores, montei um centro médico da hora, melhor que qualquer postinho de saúde, porém, em compensação exijo todos andando no certo, porque aqui o certo é o certo e o errado é cobrado sem dó e sem leme.
Levo a comunidade sim a pulso firme, assim como as coisas lá em casa, dona Kayná acha que já se manda porque tem 21 anos, mas está sobre os meus cuidados, a minha proteção, deixo meus velhos de boa, só curtindo a vida e também fazendo o tratamento. Então é mais eu e a Kayná em casa e eu não gosto dela por aí, ela estuda, enfermagem, é o meu orgulho, mas eu não deixo ela ver eu babando nela, se não ela fica solta demais. Ela é a minha princesinha, eu comecei no movimento bem novo, com 17 anos, comecei de baixo, fui braço direito do meu velho, e de lá pra cá que ele se afastou eu já cortei um dobrado cuidando disso aqui. Tem noção de quantos tentaram invadir aqui pra tomar o que é meu? Pra adiantar a morte do meu velho? Tenho o maior cuidado com a minha irmã, pra ela não virar alvo a fim de nos atingirem, então mantenho um olho nela sim.
Kayná não foi criada pra vagabundo não, meu velho sempre fala, ele sempre foi muito apegado com ela, até mais do que comigo que sou homem e ele levava pra jogar bola e tudo, acho que por que ele pegou ela bem bebezinha, a primeira palavra dela foi pra ele, papai, eu tenho uma vaga recordação disso.
Como nenhuma gestão acontece sozinha, eu tenho o Foice como meu sub e o Lula como meu gerente. Os dois são primos criados juntos pela mãe do Foice, mais parecem irmãos gêmeos até. Depois da minha família, são as pessoas mais próximas de mim, respeito a tia como se fosse minha, minha coroa e ela são amigas, e nós três crescemos juntos, então a Kayná, bem dizer, tem a proteção de três e não só minha, tá arranjada ela.
Chego na boca e eles já estão na atividade, treinar que é bom, nada.
Set: - Fala, bando de preguiçoso. - faço o toque com eles - Qual a boa de hoje?
Foice: - Lula tem algumas cobranças pra fazer e nós um carregamento de d r o g a pra receber e conferir, já é pra reforçar as vendas para o próximo baile.
Set: - Aí, tem aquela entrega pra fazer no vitrinni. - lembro do pedido do dono playboy de lá - Apesar de está com a cara limpa, já que a advogada conseguiu anular todas as minhas acusações, sabe como os cu azul me adoram né, a sede de mim que eles tem, e eu tô sem paciência pra balada de pleyba.
Lula: - Quando é?
Set: - Na sexta. - digo e ele fica pensativo
Foice: - Eu vou. Faço o trampo e ainda arrasto uma patricinha. - ele bate as mãos e esfrega uma na outra, outro p u t ã o
Set: - Já é então. - digo concordando já que o Lula não diz mais nada - Agora preciso ver uma parada que não tô podendo adiar mais, Pego o meu celular descartável e ligo pro homem
* ligação on *
Set: - Fala Arcanjo.
Arcanjo: - Que diz? - sempre assim, poucas palavras
Set: - E a minha resposta, pô? - pergunto sobre o trampo que eu pedi pra ele, pra eliminar um inimigo antigo que me persegue
Arcanjo: - Pô, sabe que eu não faço o que tu quer, e outra eu parei mesmo, nem tô pra esses lados aí.
Set: - Pô Arcanjo, que mancada.
Arcanjo: - Mas vou passar pra uma mina aí.
Set: - Pra tua filha? - tô ligado que ela é do corre dele
Arcanjo: - Não, a minha filha é hacker, não faz o que tu quer, mas a Cleópatra sim.
Set: - Cleópatra? - pergunto confuso, nunca ouvi falar - E como eu falo com essa aí?
Arcanjo: - Tu não fala. Eu vou passar o que tu me mandou pra ela e se ela quiser o trampo, ela pega. Eeee, se pá, entra em contato contigo. - fala simples e eu fico sem entender
Set: - Ué pô, como assim?
Arcanjo: - É isso. Se ela quiser, ela fala contigo. Ela pode executar o serviço sem nem se apresentar pra tu, ou pode aparecer do nada, tu pode até conhecer ela e não saber que ela é ela. Entendeu? - c a r a l h o, fico até mudo, que mina bolada é essa?
Set: - Beleza, vou ficar no aguardo então. Valeu aí.
Arcanjo: - Fé!
* ligação off *
Fiquei sem palavras e pensativo, só saio dos meus pensamentos com o Foice me chamando porque a carga chegou, pego as minhas coisas e saio da boca com ele.