2.Ethan Knight.

1367 Words
A responsabilidade agora era real. Não mais um plano distante, não mais um segredo guardado atrás de um crachá falso. Eu era a presidente da Sinclair Group. E com isso veio a necessidade de espaço — espaço meu. Saí da casa dos meus pais no final de semana seguinte. O apartamento de luxo ficava a apenas dez minutos da sede, no vigésimo segundo andar de um prédio com vista para o rio. Pisos de mármore claro, janelas do chão ao teto, uma cozinha integrada que eu m*l sabia usar e um quarto amplo o suficiente para caber o silêncio que eu precisava. Na noite da mudança, organizei uma festa de inauguração só para as meninas da faculdade. Nada de funcionários. Nada de jornalistas. Apenas risadas antigas, música baixa e taças de vinho que eu quase não toquei. Uma, no máximo. Eu era uma mulher responsável agora. O cargo exigia isso. Depois de algumas horas, a última amiga me abraçou na porta e desejou sorte. Quando o elevador se fechou atrás dela, o apartamento parecia maior. E bagunçado. Copos abandonados no balcão, almofadas fora do lugar, uma caixa de pizza ainda aberta na mesa de centro. Olhei em volta, cansei os ombros e murmurei para mim mesma: — Vou dormir. Amanhã alguém vem limpar tudo. Cai na cama sem nem tirar o maquiagem direito. O cansaço venceu antes mesmo de eu conseguir pensar em Ryan, em Scarlett ou no peso do novo cargo. O despertador tocou cedo demais. Abri os olhos para a luz suave que entrava pelas cortinas automáticas. Levantei, preparei um café rápido — preto, sem açúcar — e desci para a academia do prédio. Quarenta minutos de corrida na esteira, alguns pesos, o corpo suando a tensão residual dos últimos dias. Quando terminei, as pernas ardiam de um jeito bom. De volta ao apartamento, tomei um banho demorado. Escolhi um vestido midi preto de tecido estruturado, decote discreto, mangas três quartos. Salto médio. Cabelo solto em ondas suaves. Maquiagem leve, apenas o suficiente para parecer impecável sem esforço. Olhei-me no espelho e respirei fundo. Hoje era o primeiro dia oficialmente como presidente. Cheguei à Sinclair Group às sete e meia. O elevador executivo subiu em silêncio. Quando as portas se abriram no último andar, Tadeu já estava de pé ao lado da porta da minha nova sala. Alto, cabelos escuros bem penteados, terno cinza impecável e uma expressão profissional que não escondia completamente a curiosidade. Na mão, uma sacola de papel kraft com o logo de uma padaria cara. — Bom dia, senhorita Sinclair — cumprimentou ele, a voz educada. — Trouxe café da manhã. Croissant de amêndoas, frutas e o espresso duplo que a senhora mencionou preferir na entrevista. Entrei na sala. Ampla. Vista panorâmica. Mesa de madeira escura ainda quase vazia. Tadeu colocou a sacola sobre a superfície e abriu um tablet. — Preciso saber suas preferências de almoço — começou ele, já digitando. — Restaurantes favoritos, restrições alimentares, se prefere refeições leves ou mais elaboradas. Também gostaria de confirmar se a senhora tem algum lugar de confiança para reuniões externas… Eu me sentei na cadeira executiva pela primeira vez. O couro ainda cheirava a novo. Enquanto ele falava, respondi com calma, listando os lugares que realmente gostava, os que evitava, o tipo de comida que me mantinha focada. Ele anotava tudo com eficiência, ocasionalmente levantando os olhos para confirmar algum detalhe. Quando finalmente fechou o tablet e se preparou para sair, eu o chamei. — Tadeu… mais uma coisa. Ele parou na porta, virando-se de imediato. — Sempre que fizer uma reserva, faça para duas pessoas. As sobrancelhas dele se ergueram levemente. — Duas? — Sim. Você e eu. Você vai me acompanhar para onde eu for. Tudo por conta da empresa. Houve um segundo de silêncio. Tadeu inclinou a cabeça em compreensão, a postura ainda formal. — Entendido, chefe. Eu o corrigi com a voz firme, mas sem dureza. — Me chama de Victoria. Ele hesitou só o tempo de um piscar. Depois, o canto da boca dele se curvou num sorrisinho discreto, quase imperceptível, antes de ele acenar. — Entendido, Victoria. A porta se fechou atrás dele com um clique suave. Eu fiquei sozinha na sala grande demais, o café ainda quente na frente, a cidade se espalhando lá fora pelos vidros. Pela primeira vez desde o anúncio, o silêncio não pesava. Era só o começo. A tarde descia lenta sobre a cidade. Da minha nova sala, o sol da metade do dia batia de lado nos vidros, pintando o carpete de faixas douradas. Eu revisava um relatório de expansão quando o computador emitiu o som discreto de um novo e-mail. Cliquei sem pressa. O assunto fez meu estômago retesar. Cancelamento de Contrato – Fornecimento de Componentes Industriais Li duas vezes. Depois uma terceira. Era a compra que eu mesma havia negociado meses atrás, ainda como analista. Um contrato importante, já em fase final de documentação. E agora… cancelado. Sem aviso prévio. Sem explicação clara. Apertei o interfone com mais força do que o necessário. — Tadeu. Venha na minha sala agora. Menos de um minuto depois a porta se abriu. Ele entrou com o tablet já na mão, a expressão atenta. Eu girei a tela do computador na direção dele. — O que isso significa? Tadeu se aproximou, inclinou-se levemente e leu em silêncio. Os olhos dele se estreitaram. Mexeu no tablet por alguns segundos, os dedos rápidos sobre a tela, até que encontrou o que procurava. Virou o aparelho para mim. — A empresa responsável por essa compra mudou hoje — disse ele, a voz controlada. — Quem fechou a nova negociação foi o Ryan Cooper… da Knight Industries. O nome bateu como um tapa. Levantei-me de súbito. A cadeira rolou para trás. Minha mão desceu com força sobre a mesa de madeira. O som ecoou seco pela sala. — Aquele bastardo maldito — soltei entre os dentes. A respiração saía curta, o maxilar travado. — Ligue agora mesmo para o responsável da Knight Industries. Fale que eu quero vê-lo ainda hoje. E reúna toda a documentação sobre essa venda e sobre o desligamento do Ryan. Tadeu não hesitou. — Sim, senhora. Vou providenciar isso agora mesmo. Ele saiu com passos firmes. Eu fiquei de pé, as duas mãos apoiadas na borda da mesa, o olhar fixo no e-mail ainda aberto. Ryan não tinha apenas ido embora. Tinha levado consigo uma negociação que eu construíra com cuidado e a entregara de bandeja para a concorrente. Vinte minutos se passaram. A porta se abriu de novo. — Senhorita Sinclair… Levantei o rosto, a voz cortante. — Já falei, Tadeu. Me chama de Victoria. Ele corrigiu-se imediatamente, embora a formalidade ainda pesasse na postura. — Victoria… o Ethan está na linha. Por um segundo o ar pareceu mais denso. — Não acredito. O Ethan está responsável pela Knight Industries? Desde quando? — Desde o meio do ano, senhorita. Respirei fundo, recuperando o controle. — Certo. Pode sair. Tadeu fechou a porta atrás de si. Eu olhei para o telefone piscando na mesa por dois segundos inteiros antes de atender. A voz que saiu do outro lado era baixa, masculina e carregada de uma arrogância quase preguiçosa. — Ora, se não é a nova presidente do Sinclair Group. A que devo a honra da sua ligação? Apertei o aparelho com mais força. — Preciso vê-lo pessoalmente. Houve uma pausa curta. Eu quase conseguia imaginar o sorriso dele do outro lado da linha. — Por qual motivo? Minha voz saiu fria, precisa, sem espaço para discussão. — Se você não quer um processo nas suas costas, acho melhor você me encontrar hoje até as dezesseis horas. Desliguei antes que ele pudesse responder. O silêncio da sala voltou, pesado. Eu ainda estava de pé quando o computador emitiu outro som. Um novo e-mail. Remetente: Ethan Knight. Assunto: Reunião. Li a mensagem curta uma única vez. Estarei aí às 16h. Guardei o celular na gaveta com um movimento seco. Sentei-me de novo, as costas retas contra a cadeira, os olhos fixos na porta da sala. Ryan havia escolhido o lado errado. E agora Ethan Knight estava a caminho. Eu não pretendia recebê-lo de joelhos.
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