CAPÍTULO 6 — EU NÃO VOU VOLTAR

1291 Words
IVY Eu senti meu corpo inteiro pulsar como se tivesse levado um choque. O documento ainda estava sobre a mesa, imóvel, limpo, c***l—como se fosse capaz de gritar verdades que eu passei anos tentando enterrar. Eu m*l conseguia respirar. E, mesmo assim, tinha a sensação de que respirava Nicolas, e não ar. Ele estava parado bem ali. Alto demais. Forte demais. Intenso demais. A presença dele ocupava o apartamento pequeno como se fosse um território que ele já reconhecia de memória. A sombra dele se misturava com a luz amarela vinda da cozinha, criando um contraste que sempre deixou meu coração inquieto. A raiva subiu pela minha garganta como fogo, mas o tremor nas minhas mãos me denunciava. Eu odiava isso. Odiava que meu corpo lembrasse antes do meu orgulho. Odiava que meu coração reagisse antes da minha lógica. Odiava que ele ainda tivesse esse efeito devastador, mesmo depois de ter sido o grande responsável pela dor que eu nunca consegui explicar em voz alta. A voz dele ainda ecoava dentro da minha cabeça, pesada, profunda, íntima: Você nunca deixou de ser minha mulher. Eu queria arrancar essa frase de dentro de mim. Queria cuspir, gritar, negar, destruir qualquer lembrança que ainda me prendia a ele. Mas meu corpo estava traindo minhas intenções. A respiração acelerada, o estômago contraído, a pele quente perto do rosto dele. Como se estivesse vivendo de novo o fechamento de uma porta, o som de uma mala, o fim silencioso do amor que eu acreditei que fosse sobreviver a tudo. Engoli a emoção amarga, respirei fundo e ergui o queixo. — Eu não vou voltar. Ele não se mexeu. Nem piscou. Apenas me observou com aquela intensidade que sempre me desmontou. O silêncio dele era tão forte que parecia uma parede entre nós. — Ivy… O jeito como ele disse meu nome quase me fez ceder. Era como se tivesse um pedido escondido nas três letras, como se cada som fosse um dedo tocando minha pele. Mas eu não podia permitir isso. Não mais. Eu sabia o que acontecia quando eu cedia. Sabia o que o amor fazia comigo quando era amor demais. Fechei os olhos por um segundo, tentando recuperar o controle da minha respiração. Quando abri, ele ainda estava ali—como se tivesse sido desenhado no meu mundo sem a intenção de sair. — Você acha mesmo que pode simplesmente aparecer, jogar esse documento na minha frente e achar que eu vou correr de volta pro seu lado? Ele inclinou o corpo levemente para frente, como se quisesse me tocar, mas se segurasse no último segundo. — Eu não vim pedir para você correr. — Ótimo — devolvi. — Porque eu não correria. Seu olhar endureceu, mas não o suficiente para esconder a dor. E isso me irritou ainda mais, porque eu não queria ver dor nele. Não queria ver que alguma parte dele ainda sentia algo por mim. Isso complicava tudo. Isso quebrava as defesas que eu levei anos construindo. Ele respirou fundo. O som encheu o espaço entre nós. — Não vim pedir nada. Vim dizer a verdade. Senti meu peito apertar. — Eu não quero a sua verdade. — Você precisa dela. Meu coração bateu mais forte. — Eu não preciso de você. O rosto dele contraiu por um instante, como se a frase tivesse atingido um ponto sensível. Mas, diferente de mim, ele não se desestabilizava por fora. Nicolas sempre se manteve em pé, mesmo quando o mundo caía em cima dele. Ele deu um passo. Só um. O suficiente para meu corpo recuar instintivamente. Eu bati as costas na borda da mesa, e o choque me trouxe de volta para o presente. — Não chega mais perto — avisei, mesmo sabendo que minha voz tremeu um pouco. Ele parou, mas não por obediência. Parou porque queria que eu percebesse algo. — Você está tremendo. — Não estou. — Está. A certeza dele me irritou. — Isso é adrenalina, Nicolas. É raiva. Não é você. Seus olhos escureceram. O silêncio se estendeu entre nós, carregado. — É sempre eu — ele disse, baixo demais. — Sempre fui eu. E você sabe. A respiração escapou do meu peito como um soluço involuntário. Fechei as mãos em punho. — Você não sabe nada sobre mim depois que me perdeu. — Sei tudo. Sei exatamente como você respira quando tenta ser forte. Sei como seus olhos evitam os meus quando está com medo. Sei que você ficou pálida quando viu o documento. Sei que está com raiva não porque eu voltei… mas porque parte de você não queria que eu tivesse ido embora. Meu estômago afundou. — Cala a boca. Ele se aproximou mais um passo. Dessa vez, eu não consegui recuar. — Você não quer que eu cale a boca. Você quer respostas. — Nicolas… — Você quer saber por que eu não assinei. Eu queria. Doía admitir, mas eu queria. Meu silêncio entregou. Ele respirou fundo, e o ar pareceu pesar com a história que ele segurou por anos. — Eu não assinei porque, mesmo acreditando na maldita mentira, mesmo ferido, mesmo destruído… eu não consegui aceitar perder você para sempre. Meu coração bateu no lugar errado. — E isso te torna o quê? Herói? — Não. Me torna humano. Eu ri. Um riso quebrado, seco, quase c***l. — Humano foi a última coisa que você foi comigo. Ele endureceu, mas não desviou. — Eu sei. A sombra do passado passou entre nós. A noite em que ele acreditou em Karen. O olhar de desconfiança. O silêncio que cortou mais do que qualquer palavra. O abandono. Eu senti a dor antiga abrir de novo. — Eu te amei — sussurrei, quase sem querer. — Dei tudo. E você escolheu acreditar na mulher que me invejava. Na mulher que queria você. Na mulher que sempre me odiou. Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquilo fosse uma facada. — Eu estava quebrado. — E eu fui o dano colateral. Ele respirou fundo, pesado. — Não quero te machucar de novo. — Já está machucando. Ele deu outro passo, ignorando minha ordem anterior, ignorando meu orgulho, ignorando tudo. — Você me ama? A pergunta explodiu entre nós. Meu coração parou. Meu corpo gelou por dentro. — Não é sobre isso — respondi, sem voz. — É exatamente sobre isso. Eu senti uma lágrima ameaçar. Odeio lágrimas. Odeio fraqueza. Odeio sentir por ele. — Eu não vou voltar — repeti, tentando arrancar minha própria voz de dentro da dor. — Não vou. Nicolas chegou perto o suficiente para o calor do corpo dele tocar a minha pele. Ele não me tocou. Não precisou. A presença dele já fazia tudo. — Vai. Eu ergui o rosto, desafiando. — Não vou. Ele inclinou a cabeça, devagar, como um predador analisando a presa. — Então por que está chorando? A lágrima escorreu. Eu a limpei com força, irritada com meu corpo, irritada com ele, irritada comigo. — Porque você é a minha ferida — respondi, finalmente. — A que nunca fechou. O silêncio ficou denso. Vivo. Elétrico. E então ele disse: — Uma ferida só fecha quando alguém cuida. E eu voltei para cuidar da nossa. Meu coração tremeu. Minha respiração falhou. Meu orgulho rompeu. E, ainda assim, eu disse: — Eu não vou voltar. Ele sorriu de um jeito quase triste, quase arrogante, quase confissão. — Então vou ter que te fazer lembrar por que você nunca conseguiu ir embora de verdade. A frase cortou o ar. Eu engoli em seco. E, naquele instante, percebi a verdade que eu não queria ver: Nicolas não veio para pedir. Veio para ficar. E eu… eu estava prestes a perder a guerra que comecei.
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