Ivy A cozinha dessa mansão sempre teve um cheiro específico ao anoitecer: algo entre manteiga derretendo, lembranças que machucam, e o mundo que eu construí achando que seria eterno. Era meu lugar preferido antes de tudo ruir. Talvez por isso eu tenha vindo para cá. Talvez porque essa noite está silenciosa demais. E o silêncio é perigoso quando se tem um coração rachado. Dona Ana estava de folga. A casa inteira parecia ressoar um vazio antigo. Então eu fiz o que sempre fiz quando precisava controlar a cabeça: cozinhei. Cortei cebolas enquanto pensava nele. Cortei tomates enquanto me lembrava da primeira vez que ele me puxou pela cintura, ali, mesmo encostada na bancada. Deixei o macarrão ferver enquanto tentava calar a lembrança da voz dele dizendo que me amava. Nada funcionou. Cozi

