Nicolas
Eu estava revisando o relatório trimestral da empresa quando ouvi Symon bater na porta. Ele nunca bate. Nunca. Meu irmão sempre entra fazendo barulho, provocando, destruindo o silêncio como se fosse obrigação dele. Só o fato de ele bater já fez meu maxilar travar. Deixei o relatório sobre a mesa, porque tudo em mim soube que alguma coisa estava errada.
Não respondi. Apenas olhei para a porta até ela se abrir devagar. Symon entrou com a expressão que eu mais detesto ver no rosto dele: pena.
Pena pelo irmão mais velho. Pelo homem que todo mundo enxerga como indestrutível. Pelo herdeiro que carrega um império nas costas como se fosse fácil. Eu preferia raiva. Preferia desprezo. Preferia uma facada. Qualquer coisa menos aquele olhar que dizia que alguma parte de mim estava prestes a ser arrancada.
Ele jogou o celular na minha mesa. A tela acesa, brilhante, exibindo uma manchete que, num primeiro segundo, não fez sentido algum. Mas, no segundo seguinte, cortou como lâmina.
IVY SANTANA CONFIRMA CASAMENTO COM O MELHOR AMIGO.
O nome dela.
A pele dela.
O passado que eu enterrei com meu próprio orgulho.
Meu coração parou. A respiração sumiu. Eu não sei quanto tempo fiquei olhando para aquela notícia como se fosse mentira. Não podia ser verdade. Não podia.
Symon cruzou os braços e apoiou o ombro na estante atrás de mim.
— Você precisava saber.
Precisa saber.
Como se eu fosse algum funcionário recebendo uma atualização técnica.
Como se aquela notícia não fosse a coisa mais violenta que alguém poderia me mostrar.
Eu fechei os olhos por meio segundo e senti o mundo se mover sob meus pés. Uma sensação que eu não experimentava desde o dia em que a deixei ir. Ou, melhor, desde o dia em que fui burro o bastante para acreditar que ela tinha me traído.
Eu respirei fundo. Não porque queria me acalmar, mas porque meu corpo ameaçou desmoronar. Eu sou grande demais para cair. Alto demais. Forte demais. Treinado demais. Passo horas por dia na academia, moldando cada músculo como se fosse uma armadura. Meu corpo nunca fraqueja. Minha mente nunca vacila.
Mas naquele instante… eu queimei.
A imagem do suposto casamento se espalhava pelas redes como fogo em palha seca. Ivy sorrindo num enquadramento r**m, tirado por algum paparazzi miserável. Lucas ao lado dela, segurando seu braço. Pareciam íntimos. Pareciam felizes. E aquilo mexeu comigo como nada mais poderia.
Eu me afastei da mesa, mas o chão não parecia mais igual. Era como se tudo estivesse irregular, como se algo tivesse sido arrancado do meu centro de gravidade.
Sou Nicolas Mancini.
Tenho dinheiro suficiente para comprar cidades.
Poder suficiente para decidir destinos.
Inimigos suficientes para derrubar governos.
E, mesmo assim, bastou um nome, o dela, para destruir meu dia inteiro.
Já enfrentei adversários que tentaram me matar. Já negociei com empresários corruptos, políticos desesperados, criminosos com sede de poder. Já tive mulheres se jogando aos meus pés, querendo tocar o homem que todos dizem ser impossível de possuir. Já ouvi sussurros sobre meu corpo, minhas mãos, minha força, minha presença. Já fui desejado como um troféu. Já fui temido como uma ameaça. Já fui respeitado como um rei.
Mas nunca tive nada tão meu quanto Ivy.
E nunca perdi nada de forma tão i****a quanto perdi Ivy.
Passei a mão no cabelo, tentando afastar a sensação de estar sendo sufocado por dentro. A lembrança dela veio como uma onda alta, forte, fria, que me atingiu com violência. O jeito como ela ria quando tentava brigar comigo. O cheiro da pele dela quando eu encostava meu rosto no pescoço dela. A maneira como ela tremia no primeiro toque. A inocência que ela carregava como se fosse pecado.
A única mulher que eu não deveria ter perdido.
A única mulher que foi minha sem esforço.
A única virgem que eu tive nos braços.
O único amor que tive coragem de tocar.
E o único que abandonei.
A dor veio quente e amarga, como álcool queimando a garganta. Me sentei na borda da mesa, apoiando as mãos na madeira. A sala inteira parecia menor, como se eu estivesse sendo espremido pelas paredes. Minhas veias pulsavam com raiva. Não da notícia. Mas de mim mesmo.
Eu fui o i****a.
Eu fui o fraco.
Eu fui o homem que acreditou na mentira de outra mulher.
Karen.
A madrasta que eu nunca deveria ter permitido ficar perto de mim. A mulher que destruía por diversão. Que invejava, desejava, manipulava. Ela me convenceu de que Ivy me traía com Lucas. E eu, cego pelo trauma de ver minha mãe destruir meu pai, acreditei.
Eu amaldiçoo aquele dia. Todos os dias.
Symon se aproximou um pouco, mas não falou nada. Ele me conhece o suficiente para saber que eu estava prestes a explodir. Eu levantei a cabeça e o encarei.
— Isso é real?
Ele não hesitou.
— É o que estão dizendo. Mas você sabe que jornal nenhum confirma nada sem foto. E as fotos… bom, parecem momentâneas.
Momentâneas.
A palavra irritou mais do que deveria.
Eu puxei o celular da mesa e ampliei a foto. Ivy. Meu Deus… Ivy. O cabelo preso, o rosto sério, o olhar que ela sempre usava quando estava tentando segurar algo dentro de si.
Lucas tocava o braço dela. Eu não senti ciúme de Lucas. Senti ciúme de qualquer possibilidade dela ter construído uma vida sem mim. Senti ciúme do tempo que eu não vivi ao lado dela. Dos dias em que ela riu sem que eu fosse motivo. Das noites em que dormiu sem minha respiração no pescoço dela.
Symon me observava como se estivesse esperando uma explosão.
— Nicolas… você está bem?
Eu ri. Um riso seco, amargo, que pareceu ecoar na sala.
— Você acha mesmo que eu ficaria bem vendo isso?
Symon engoliu em seco.
— Você acabou com ela, Nicolas. Não tente se enganar.
Eu desviei o olhar.
— Eu sei.
A verdade me atingiu como um soco.
Eu sabia.
Sempre soube.
E nunca tive coragem de admitir.
Depois do divórcio — ou do que eu pensei que fosse um divórcio — eu me joguei no trabalho com a mesma violência que sempre reservei para lutar. Fechei negócios, comprei empresas, derrubei concorrentes. Fiz tudo que um homem com poder, nome e dinheiro faz para fingir que não está sofrendo.
E, quando o mundo percebeu que eu estava solteiro, as mulheres vieram. Muitas. Todas. Atiradas, desesperadas para ter um pedaço de mim. Falando meu nome como se fosse prece. Tentando me seduzir como se eu fosse prêmio.
Mas nenhuma delas tinha o cheiro certo.
Nenhuma falava meu nome como Ivy falava.
Nenhuma me olhava como ela.
Nenhuma me tocava como ela.
Nenhuma conseguia acalmar o meu caos.
Nenhuma me conhecia por dentro.
Eu fodia muitas.
Eu amava uma.
E a única que eu amava… eu destruí.
A notícia me atingiu tão fundo que meu peito doeu. Eu tentei controlar a respiração, mas era inútil. A posse, o orgulho, o trauma, tudo dentro de mim explodiu ao mesmo tempo.
Ivy vai se casar.
Ivy.
Com outro homem.
Com o melhor amigo dela.
Meu sangue gelou.
Eu não sei quando comecei a andar pela sala. Caminhei como um animal preso. Meu corpo inteiro pedia movimento, ação, guerra. Eu não sabia se queria destruir algo ou alguém.
Symon deu um passo para o lado, abrindo caminho.
— Nicolas… não faz besteira.
Eu parei diante da janela, olhando a cidade como se ela fosse um tabuleiro que eu pudesse controlar. Eu sempre pude. Sempre tive. Sempre mandei. Sempre decidi. Mas pela primeira vez em anos… eu senti medo.
Porque perder Ivy de verdade… é algo que eu não sobreviveria.
Minha voz saiu baixa, quase um rosnado.
— Ela não vai se casar com ninguém.
Symon respirou fundo.
— O que você pretende fazer?
Eu nem pensei.
Porque a resposta veio do lugar onde o amor e o ódio dividem o mesmo espaço.
— Eu vou buscá-la.
E, quando eu disse isso, senti algo dentro de mim despertar. Algo que ficou dormente desde o dia em que a deixei partir. Algo feroz. Algo decidido.
Algo dela.
Eu peguei meu casaco, meu celular, minhas chaves. Cada movimento foi rápido, preciso, inevitável.
Antes de sair, olhei para Symon.
— Ela é minha mulher.
Ele ergueu o queixo.
— Foi um dia. Não é mais.
Eu encarei meu irmão, e minha voz veio como uma sentença.
— Nunca assinei o divórcio.
O silêncio que seguiu foi absoluto.
E, naquele silêncio, eu tive certeza de uma coisa:
Ivy podia tentar fugir, esconder, apagar.
Mas ela ainda era minha esposa.
E eu estava indo buscá-la.