Nicolas
Eu sempre fui um homem que controla tudo ao redor. Pessoas, contratos, decisões, destinos. Meu mundo funciona porque segue o meu ritmo, a minha palavra, a minha força. Mas naquele instante, o instante em que vi a manchete dizendo que Ivy iria se casar, eu perdi o controle pela primeira vez em anos. A sensação era antiga, familiar, quase primitiva. Uma fúria quente, profunda, que eu mantive enterrada desde o dia em que a empurrei para longe acreditando na mentira de outra pessoa.
Eu estava no escritório, mas a sala parecia pequena demais. Meu corpo parecia grande demais. Meu peito parecia estreito demais. Eu aguento pressão, eu aguento poder, eu aguento guerra. Mas o nome dela… o nome dela me deixou sem ar.
Ivy Santana.
Minha esposa.
A única mulher que fez o homem que eu me tornei parecer insuficiente.
Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia: uma ordem, não uma frase.
— Preparem meu avião. Agora.
Meu assistente gelou. Ele piscou como se tivesse ouvido errado. Eu nunca viajava sem três dias de preparo, sem confirmar todos os detalhes de segurança, sem revisar contratos, sem prever riscos. Eu sou um homem que planeja até o ar que respira.
Mas naquele momento, foi diferente.
— Senhor Mancini… agora?
Eu virei o rosto devagar, com a calma mais perigosa que existe em mim.
— Agora.
Ele correu.
As pessoas sempre correm quando eu falo assim.
Peguei o celular novamente, e lá estava a notícia. O texto, as fotos, os comentários. Cada linha parecia uma provocação. Cada palavra parecia uma faca girando dentro do peito.
A mídia dizia que ela iria se casar.
A mídia ousava usar o nome da minha mulher sem permissão.
A mídia ousava mentir.
Eu respirei fundo. Não adiantou. A fúria continuou queimando sob a pele.
Liguei para o meu advogado sem esperar que ele atendesse no terceiro toque.
— Tenho um trabalho para você.
Ele ajustou o tom de voz imediatamente.
— Diga.
— A imprensa que divulgou a notícia sobre Ivy… quero que retirem tudo nas próximas horas, ou eu destruo cada um deles judicialmente.
Silêncio do outro lado.
— Eles vão perguntar o motivo.
— Diga que estão mexendo com a minha mulher. E ninguém toca no nome dela sem a minha autorização.
Minha voz saiu firme, cortante, absoluta.
Ninguém toca no nome da minha mulher.
Ninguém fala sobre a minha mulher.
Ninguém inventa sobre a minha mulher.
A palavra subiu pela garganta e saiu pesada, verdadeira, inegociável:
Mulher.
Porque ela nunca deixou de ser.
Nunca assinei o divórcio.
E, naquele instante, essa verdade se tornou a única coisa que importava.
Fechei os olhos e a imagem dela apareceu como sempre aparece: viva demais, forte demais, bonita demais para caber dentro de qualquer lembrança. A boca teimosa, a voz afiada, a pele quente, o olhar que me atravessava como se pudesse ver tudo o que eu escondia do mundo.
Tudo que eu escondo até hoje.
Eu nunca esqueci o gosto dela.
Nunca esqueci o som da respiração dela quando dizia que me odiava, mas o corpo dela me pedia mais.
Nunca esqueci a primeira vez em que a toquei e percebi que jamais seria o mesmo homem depois.
Ela foi a primeira verdadeira.
A única verdadeira.
E, no fim, a única que eu deixei ir por medo de repetir o destino dos meus pais.
Minha mãe destruiu meu pai por dentro.
Eu temi ser destruído pela mesma mulher que eu mais amava.
E, ao fugir, destruí a nós dois.
Abri os olhos quando ouvi passos apressados no corredor. Meu diretor de segurança, Braga, entrou com a postura rígida.
— Senhor, o avião estará pronto em sessenta minutos. Rota autorizada. Equipe de segurança mobilizada.
Assenti. Ele esperava instruções adicionais, então eu entreguei.
— Quero toda a pesquisa possível sobre onde ela está, com quem está, horários de trabalho, rotinas, tudo.
— Senhor, isso pode levar algumas…
— Eu não pedi prazos. Eu pedi tudo.
Ele não discutiu. Ninguém discute comigo quando estou assim.
Atravessei o escritório até a janela. A vista da cidade nunca pareceu tão pequena. Eu tinha conquistado cada centímetro da minha vida com esforço, sangue, disciplina, força. Mas nenhum edifício, nenhum contrato, nenhum império valia alguma coisa sem ela ao meu lado.
A verdade mais inconveniente da minha vida é que eu nunca superei Ivy.
Nunca superei o cheiro dela.
Nunca superei o toque dela.
Nunca superei o som do meu nome na boca dela.
Nunca superei a forma como ela me olhava como se eu fosse mais do que o mundo achava que eu era.
Ela me viu.
De verdade.
Antes de qualquer mulher, antes de qualquer poder, antes de qualquer negócio.
E eu retribuí machucando-a da pior forma possível.
O relógio na parede marcava o tempo como se estivesse zombando da minha urgência. Eu precisava sair. Não fazia sentido continuar naquela sala quando o mundo debaixo dos meus pés já tinha mudado.
A porta se abriu de novo. Symon entrou com a expressão que sempre mistura preocupação e coragem.
— Então você realmente vai.
— Não tenho tempo para conversas.
Ele chegou mais perto.
— O que você espera encontrar?
— A verdade.
Symon ergueu as sobrancelhas.
— E se a verdade for pior do que você imagina?
Minha respiração ficou mais pesada.
— Não existe verdade pior do que a ideia de perdê-la para outro homem.
Ele ficou em silêncio. Pela primeira vez, não provocou. Não sorriu. Apenas me olhou com um tipo estranho de respeito.
— Nicolas… você sabe que a culpa não foi só dela.
— Eu sei.
— E sabe que a maior parte foi sua.
— Eu sei.
— Então o que vai fazer quando olhar para ela e perceber que foi você quem quebrou tudo?
Eu encarei meu irmão por um longo instante.
A resposta veio do único lugar dentro de mim que ainda tinha alguma honestidade.
— Vou consertar.
A palavra saiu pesada, determinada, cheia de algo que eu tinha esquecido que existia dentro de mim: coragem.
Eu desci pelo corredor como se estivesse pronto para uma guerra. E estava. Minha equipe seguia atrás com pastas, celulares, listas, atualizações.
— Senhor Mancini, as empresas de mídia começaram a retirar a notícia, mas algumas estão resistindo.
— Procure o diretor dessas redações. Dê duas opções: retirar ou pagar caro. Muito caro.
— Estou cuidando disso.
A cada passo, a tensão aumentava. Meus seguranças acompanharam o ritmo. O elevador abriu e todos ficaram em silêncio. Eu entrei.
A porta se fechou com o som que sempre representa uma decisão irrevogável.
Quando cheguei ao térreo, os funcionários desviaram o olhar, como se sentir minha presença fosse demais. Eu passei por todos sem olhar para ninguém. O carro me esperava.
A porta traseira abriu. Eu entrei sem hesitar.
— Aeroporto. Sem parar.
O motorista acelerou antes mesmo de fechar a porta.
O caminho foi longo e curto ao mesmo tempo. Longo porque eu estava preso nas próprias lembranças. Curto porque meu corpo se movia rápido demais para a mente acompanhar.
Quando cheguei ao hangar, o jato estava pronto. Branco, imponente, silencioso. Como eu.
Subi a escada devagar, cada passo carregado de uma única verdade:
Eu estava indo buscar o que é meu.
Dentro do avião, deixei o casaco sobre a poltrona. O piloto anunciou que decolaríamos em quinze minutos. Eu não respondi. Apenas sentei e fechei os olhos por um instante.
O rosto dela apareceu de novo.
A voz dela ecoou dentro de mim.
A pele dela queimou minha memória.
O coração dela, aquele que bati forte quando encostado no meu peito, acelerou o meu ritmo.
Eu nunca tive medo de voar.
Mas naquele momento, senti o que nunca admiti em voz alta:
Medo de chegar tarde demais.
O avião começou a taxiar. A vibração do chão subindo pelo metal atravessou meus ossos. Quando o jato ganhou velocidade, algo dentro de mim também despertou — algo sombrio, firme, decidido.
Eu não estava indo atrás dela como o homem que a perdeu.
Eu estava indo como o homem que nunca aceitou deixá-la ir.
Quando o avião subiu aos céus, deixei escapar a frase que eu não diria para mais ninguém, apenas para mim mesmo:
Você nunca me deixou, Ivy.
Foi só o mundo que tentou me convencer disso.
E agora… eu estou voltando para reclamar o que sempre foi meu.