CAPÍTULO 4 — QUANDO ELE BATE À MINHA PORTA

1388 Words
IVY A campainha tocou como se alguém tivesse puxado meu coração pela garganta. O som se espalhou pela casa inteira, entrando pelas frestas das portas, atravessando minhas paredes, rasgando um pedaço de ar que até então estava calmo demais para combinar com a minha vida. Eu estava no corredor, descalça, com o cabelo preso de qualquer jeito e um moletom velho cobrindo meu corpo — e ainda assim senti o arrepio que só um pressentimento verdadeiro é capaz de provocar. O cheiro da noite entrando pela janela. A luz amarela do poste batendo na parede. A respiração que ficou presa no meio do peito por tempo demais. Alguma coisa no meu corpo sabia antes da minha mente entender. Ele está aqui. Pisquei devagar, tentando me convencer de que era exagero, medo, fantasia. Com as mãos ainda trêmulas, caminhei até a porta. Cada passo parecia engolir um pedaço da minha coragem. Um segundo toque, mais forte, mais exigente, fez meu estômago se contrair. Meu orgulho, porém, ajeitou minha coluna. Endireitei o rosto. Engoli o gosto metálico da lembrança. Abri a porta. E o mundo, como eu conhecia, acabou ali. Nicolas estava parado no corredor do meu prédio como se fosse proprietário do espaço, do ar, da luz, da minha respiração. Ele sempre teve esse poder — o de entrar num ambiente e reduzir todo o resto a ruído. Um homem alto, mais forte do que eu lembrava, ombros largos, terno escuro moldando cada músculo como se tivesse sido feito para ele e só para ele. O vento trouxe o cheiro dele até mim: madeira quente, algo cítrico e aquele fundo que sempre fez meu corpo estremecer antes de eu entender por quê. O perfume que eu tentei esquecer e nunca consegui substituir. Meu coração bateu tão alto que eu tive certeza de que ele ouvira. Nicolas sustentou meu olhar como se fosse uma sentença. Os olhos dele estavam mais escuros, mais densos, mais cheios de alguma coisa perigosa e antiga. Ele não pareceu surpreso com a forma como eu congelei. Talvez estivesse esperando exatamente isso. Talvez quisesse ver se eu ainda reagia a ele. Eu reagia. Meu corpo contava isso antes da minha mente aceitar. Engoli seco, firmei os pés no chão, puxei o ar para passar por uma garganta apertada demais. — O que você está fazendo aqui? Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, mas estava inteira. Ele deu um passo para frente, e a luz do corredor desenhou o contorno da mandíbula, as sombras na boca, o formato da cicatriz discreta perto do queixo. Eu conhecia cada detalhe daquele rosto. Cada um. Ele não piscou quando respondeu: — Você ainda é minha. O mundo girou. O chão mudou. O ar ficou pesado demais para meu pulmão. Senti meu corpo reagir como se tivesse sido atingida por uma lembrança viva. A mão dele segurando minha nuca. A boca dele prendendo a minha como se eu fosse parte do fôlego dele. As madrugadas em que o amor queimava e doía ao mesmo tempo. A promessa que ele nunca disse, mas sempre esteve ali. Meu orgulho levantou um muro dentro de mim. Eu respirei fundo, tentando ignorar o impacto daquela frase, tentando arrancar meu passado de dentro do presente. — Eu não sou mais nada sua. Ele deu outro passo. Agora estava a menos de um braço de distância. A proximidade dele sempre foi um problema para mim. Meu corpo lembrava. Meu coração lembrava. Minha pele lembrava. Era como se meu passado estivesse vivo, respirando de novo. A voz dele veio mais baixa, mais calma, mais perigosa. — Não assinei o divórcio. A frase atingiu meu peito como um golpe. Olhei para ele, incrédula. — O quê? Os olhos dele não fugiram dos meus, como se estivesse esperando esse exato segundo para me derrubar. — Você ouviu. Meu coração correu antes de minha mente processar. Eu senti as pernas fraquejarem por meio instante. Tentei segurar a porta com mais força, tentando impedir a lembrança de invadir a parte de mim que ainda sangrava. — Isso não muda nada — sussurrei. — Muda tudo. A certeza dele veio pesada, absoluta, como sempre foi. Ele nunca disse que me amava. Nunca precisou. Eu sempre senti. A intensidade dele nunca coube em palavras. Coube em gestos, em silêncios, em confissões que ele nunca teve coragem de dizer em voz alta, mas que eu lia no olhar dele. A proximidade fez meu corpo aquecer. Ele estava tão perto que eu podia ver o som do coração dele subir pelo peito. Nicolas sempre teve esse tipo de presença que invade antes de pedir permissão. — Você não pode chegar aqui dizendo isso e… — minha voz falhou — …mandando na minha vida. Ele inclinou a cabeça, e a sombra do corpo dele cobriu parte da luz do meu apartamento. — Eu sempre mando no que é meu. Aquela frase incendiou alguma coisa dentro de mim. Raiva e lembrança colidindo ao mesmo tempo. Eu respirei fundo, tentando não tremer. — Você me perdeu. Acabou, Nicolas. Ele não sorriu. Não discutiu. Não desviou. Apenas chegou mais perto e parou exatamente no limite em que eu podia sentir o calor dele na minha pele. E ali, daquele jeito, ele me destruiu sem tocar. — Eu perdi porque acreditei na mentira errada. Não porque deixei de querer você. Meu coração caiu dentro do corpo. Senti as mãos suarem. Nicolas era assim. Brutal nas verdades. Brutal no silêncio. Brutal em tudo. E o pior é que uma parte de mim — a parte que eu odiei por anos — queria acreditar nessa frase. Eu respirei, mas o ar não veio inteiro. — Você precisa ir embora — murmurei, mais para mim do que para ele. Ele não recuou. — Não. A palavra dele pesou no ar como metal quente. Meu corpo inteiro reagiu. E eu odiei isso. Odiei sentir meu peito abrir como se alguém tivesse tocado no lugar mais escondido de mim. Odiei que meu orgulho estivesse perdendo para minha memória. Nicolas observou a mudança no meu rosto. Ele sempre percebeu minhas emoções antes mesmo de eu entendê-las. — Eu não vim para discutir. Vim para buscar você. As palavras ficaram suspensas no ar. — Você enlouqueceu — respondi, tentando agarrar minha indignação como uma armadura. — Eu não vou a lugar nenhum com você. A expressão dele não se alterou. — Vai. A calma com que ele disse isso me desmontou. Não era ameaça. Era certeza. E isso sempre foi o perigo dele. Nicolas não precisava levantar a voz. Quando queria alguma coisa, ele simplesmente conquistava. Eu tentei fechar a porta. Ele colocou a mão. Devagar, firme, quente. Só o toque da madeira sob a palma dele já fez meu estômago se contrair. — Não encosta — sussurrei. Ele não tirou a mão. — Então olha para mim e diz que você me esqueceu. Meu coração parou. Meu corpo congelou. A porta se tornou uma linha entre passado e presente. Eu tentei falar, mas a voz não veio. Nicolas percebeu. Ele deu outro passo, e agora o corredor desaparecia atrás da presença dele. — Diz, Ivy. A respiração dele tocou meu rosto como uma lembrança quente demais. — Diz que você me esqueceu — repetiu. Fechei os olhos, tremendo sem querer. Ele prendeu meu queixo entre os dedos — não com força, mas com aquela firmeza que eu sempre senti demais. Minha pele respondeu antes do meu orgulho. A voz dele desceu pelo meu corpo como uma confissão que eu não estava preparada para ouvir. — Eu não esqueci você. Nem por um dia. Eu abri os olhos. E vi nele tudo o que eu estava fugindo há anos: a raiva, a culpa, a saudade, o desejo, o amor que ele nunca soube amar, o homem que me destruiu, o homem que eu também destruí ao ir embora. A verdade se espremia entre nós, respirando junto. E então, como se estivesse arrancando o que ainda restava de ar do meu peito, ele disse: — Você é minha mulher. E eu vim buscar o que é meu. Meu coração bateu tão forte que doeu. Eu não consegui responder. E quando ele deu um passo para dentro, sem pedir permissão, sem medo, sem hesitar, eu soube: Nicolas tinha voltado. E minha vida nunca mais seria a mesma.
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