IVY A luz da tarde escorria pelas frestas do prédio como um feixe morno que acariciava a minha pele. O corredor estava silencioso, quase sagrado, com o som distante de alguém mexendo em papéis, talvez rindo, talvez vivendo uma vida inteira que não tinha nada a ver com a minha. Eu só queria sair dali rápido. Sair dele. Sair de mim. Mas o universo raramente me deixa ir quando eu quero. O salto escorregou numa imperfeição do piso. O meu tornozelo virou. A dor veio como um trovão seco. — Droga — engasguei, segurando a parede. Respirei fundo, tentando recuperar a compostura, mas a dor latejou, quente, intensa, uma pulseira de fogo apertada ao redor do meu tornozelo. E então eu senti. Antes de ouvir. Antes de ver. Ele. A presença dele sempre chega primeiro. Depois o cheiro — um a

