Nicolas A noite caiu devagar sobre a casa, como se ela também tivesse medo de tocar onde não devia. As luzes se apagaram em silêncio, um a um, e o corredor ficou mergulhado naquele escuro morno que sempre anuncia perigo. Ela ficou no quarto ao lado. Eu fiquei no meu. Havia um mundo inteiro entre nós. E ao mesmo tempo… nada. Só uma parede. Uma parede fina demais para tudo o que eu sentia. Grossa demais para tudo o que eu queria. Encostei a palma da mão na superfície fria. E juro: eu senti. Do outro lado, o silêncio dela não era silêncio. Era respiração. Era resistência. Era memória. Respirei fundo, como se puxar ar fosse suficiente para afastá-la de mim — mas foi inútil. Ela estava ali. Perto. Quente. Real. Um lampejo da nossa primeira noite — aquela, anos atrás — atravessou

